O órgão
do governo que comanda um serviço é mais
importante do que a tecnologia usada
no serviço. É a conclusão
de um estudo feito pela professora
Chrisanti Avgerou, da Faculdade de
Economia e Ciências Econômicas
de Londres.
Chrisanti queria saber se a tecnologia faz o cidadão confiar mais no governo,
para isso analisou serviços de governo eletrônico em várias
partes do mundo, entre eles o caso das urnas eletrônicas do Brasil. “No
caso brasileiro”, diz Vagner Diniz, presidente do Instituto Conip, organização
que acompanha o uso da tecnologia no governo brasileiro, ”a conclusão é interessante.”
De acordo com o estudo, não são as urnas eletrônicas e nem
a tecnologia em si que determina a confiança dos brasileiros nas eleições,
diz Vagner. “A confiança está na Justiça Eleitoral.” Os
brasileiros acreditariam no processo mesmo se a eleição continuasse
sendo feita com papéis.
É importante questionar o patrocinador
do projeto antes de começar o
processo de inovação tecnológica,
recomenda Vagner. Se o patrocinador é confiável,
como a Justiça Eleitoral, o cidadão
apóia o projeto. Se não é,
o projeto falha.
Falta uma política
centralizada
de TI para o Brasil
O governo brasileiro
oferece bons serviços eletrônicos,
quando comparado a outros governos.
Alguns exemplos, como o uso de urna
eletrônica nas eleições,
a arrecadação de impostos
pela Internet e o atendimento ao cidadão
no Poupa Tempo, são conhecidos
mundialmente. No entanto, o governo
brasileiro está atrasado na
criação de uma política
pública na área de tecnologia.
Governos da Coréia, do México
e da Cingapura já têm uma
política assim, diz Vagner Diniz,
presidente do Instituto Conip . Na Coréia,
por exemplo, é possível
saber qual será a cobertura da
banda larga nos próximos cinco
ou dez anos, qual será o número
de celulares no país ou quais
serviços o cidadão pode
esperar do governo no futuro. Com uma
política assim, defende Vagner,
empresas, entidades e o próprio
governo sabem o que esperar do governo
em relação ao uso da tecnologia. “É importante
para balizar o mercado.”
A maior
dificuldade para criar a política
de TI no Brasil é a descentralização
dos planos de tecnologia: cada estado,
cidade ou órgão do governo
toca projetos de TI à sua maneira.
Governo deve
cogitar celular
para a inclusão
digital...
O Instituto Conip
recomenda ao governo aproveitar o celular
nos projetos de inclusão digital
e de acesso aos serviços públicos. “Os
celulares estão sempre ligados
e com o usuário”, diz
Vagner Diniz, presidente do instituto. “Além
disso, a tela é pequena: o
serviço deve ser simples, e,
conseqüentemente, mais fácil
de desenvolver.”
No Brasil existem bons exemplos de serviços
de governo no celular. No Paraná,
o desempregado recebe no celular um aviso
sobre a vaga de emprego com seu perfil,
quando a vaga aparece na Secretaria do
Trabalho.
Um dos problemas de usar o celular
para os serviços de governo é a
segurança — mas esse problema
também existe nos computadores.
Outro problema é quem paga a conta. “É impossível
o governo assumir todo o custo das mensagens
enviadas para celulares.” A sugestão
de Vagner é criar uma parceria
público-privada, para que governo
e empresas compartilhem custos e recompensas.
Um dos empecilhos
para o governo colocar os serviços
no celular é o alto preço
cobrado pelas operadoras de telefonia
celular. Outro empecilho é a
falta de preparo das instituições
públicas para perceber os benefícios
do m-Gov e para gerenciar os processos
necessários.
As instituições públicas
também não enxergam como
prioridade de investimento ampliar a
rede de conexão com o cidadão “A
tal de última milha está fora
da prioridade do governo”, diz
Vagner. O governo entende que é preciso
investir em rede, explica Vagner, mas,
mesmo assim, não coloca os valores
necessários no orçamento
para investimentos. Isso significa que
o m-Gov, por enquanto, ficará restrito às
cidades onde já existe conexão.
A
conclusão é da pesquisa
realizada pelo Instituto Conip com 24
empresas, entre governo, universidades
e entidades de pesquisa e fornecedores
do setor privado.