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Qual o valor da TI verde?.
   
   

Bruno,
da UPS do Brasil
“Acabamos também com aquele rabicho no e-mail: antes de imprimir, pense no meio ambiente. Esse rabicho, multiplicado por 150 mil micros na nossa rede global, já dá uma demanda razoável.”

     
   
Cláudio, da GM.
“Temos um portal na intranet com uns 500 vídeos pequenos, com informações e dicas sobre como usar melhor o celular, o computador, o sistema de telefonia.”
     
   
Fábio, do Grupo Votorantim.
“Quando falamos de consolidação de servidores, não tem a ver com TI verde, mas com a evolução da tecnologia. Tudo bem, a evolução economiza energia. É juntar o útil ao agradável.”
     
   
Tomita, da Philips.
“Quando usamos a régua do verde para processos como o de consolidação de servidores, acontece uma coisa curiosa: com a consciência do verde, começam a surgir idéias interessantes.”
     
   
Orlando, da Petrobras.
“O valor do descarte ainda não foi colocado de forma clara para todo mundo. Se o descarte é caro, a poluição não é mais cara ainda? Se ninguém dá valor para o descarte, parece melhor enterrar o produto num aterro.”
     
   
Ricardo, da Akzo Nobel.
“Descobri que TI verde ajuda a aprovar projetos. Apresentei um projeto duas vezes. Na primeira, ele voltou. Na segunda, recorri à TI verde, e o projeto andou melhor.”
     
   
Rodolfo, da Shell Brasil.
“A TI segue a estratégia da empresa. Mas agora os executivos de TI podem questionar e desafiar os processos de negócio, já com essa visão do meio ambiente, para agregar controles e segurança.”
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
   
 
 

Os bons fabricantes evitam usar matérias-primas poluentes, procuram divulgar informações sobre o meio ambiente, desenham produtos especializados no ofício de economizar energia elétrica. Falta, contudo, montar uma rede brasileira para o descarte correto de produtos de TI. Existem poucas empresas especializadas em descarte, e elas não conseguem servir o Brasil inteiro. Além disso, se um fabricante quiser exportar produtos velhos para um descarte correto no exterior, terá de pagar impostos. Falta uma boa legislação. Apesar disso, os participantes desta mesa-redonda fazem o possível para incluir a área de TI nas iniciativas de proteção ao ecossistema.
Coordenaram a mesa-redonda: Wilson Moherdaui, diretor editorial do Informática Hoje, e Márcio Simões, diretor de redação. Participaram: Bruno Ehlers, gerente de TI da UPS do Brasil; Cláudio Martins, CIO para o Mercosul da General Motors; Fábio Faria, diretor corporativo de TI da Votorantim Participações; Luiz Carlos Heiti Tomita, CIO para a América Latina da Philips; Orlando Pinna, gerente da integração da demanda de tecnologia e de arquitetura da Petrobras; Ricardo Santos, supervisor de informática da Akzo Nobel; Rodolfo Balaniuk Dantas, diretor de TI da Shell Brasil.

IH — Como vocês otimizam a TI, e como vocês contribuem para poupar o ecossistema?
Fábio — Eu trabalho para a Votorantim Industrial, com negócios de cimento, metais, celulose, papel, química, agronegócio e energia. Mais de uma centena de países compram nossos produtos. Metais, como níquel e zinco, podem poluir o meio ambiente, e precisam de tratamento especial. Então, independente do apelo ambiental, temos de seguir as leis dos países compradores, especialmente as leis da Alemanha, que são muito rígidas.
A área de TI procura dar sua contribuição: compramos equipamentos que economizem energia, equipamentos com descarte mais seguro, e compramos serviços com certificado de proteção ao meio ambiente. Evitamos o desperdício. Mas não vamos contra a política técnica ou comercial da Votorantim.

IH — Então, vocês da área de TI tomam iniciativas mais por conta própria, e menos por pressão dos clientes?
Fábio — Exatamente. O grande foco da Votorantim ainda é a produção, o tratamento de resíduos.
Orlando — Essa é a realidade. Mas a gente pega carona na consciência do resto da empresa. Nós aprovamos o projeto de um CPD, em termos técnicos e funcionais, com 3 mil servidores, 4 mil metros quadrados, um CPD gigante. Mas depois resolvemos analisar o projeto com a ótica do meio ambiente. Revimos o projeto totalmente, para economizar energia, aproveitar luz natural, comprar servidores que dissipam menos calor. Mas, no tratamento do meio ambiente, os grandes ganhos estão na área de negócios.
Fábio — E os grandes riscos também.
Orlando — Os grandes riscos e os grandes ganhos.

IH — A iniciativa de rever o CPD foi da TI? Ninguém mandou rever o projeto?
Orlando — A iniciativa foi da TI. Mas a empresa comprou a idéia logo. Tivemos o custo adicional da revisão, mas, por incrível que pareça, o CPD revisto ficou com o mesmo custo. Dos 3 mil servidores, 900 viraram servidores virtuais.
Bruno — Um dos nossos técnicos nos sugeriu uma iniciativa: embrulhar os racks [os bastidores em que ficam os computadores]. Assim, em vez de usar 120 mil BTUs para manter aquele ambiente gelado de 500 metros quadrados, nós mantemos a temperatura ideal com dois, três ares-condicionados de 9 mil BTUs cada um.

IH — Como se fosse uma adega?
Bruno — Exato, uma adega. Em vez de resfriar todo o ambiente, resfriar só o que é necessário.
Ricardo — Recentemente, descobri que TI verde ajuda a aprovar projetos. Aconteceu num projeto para integrar todas as unidades e prover informações para o governo; o projeto vai economizar papel e economizar energia elétrica. A Akzo Nobel é uma indústria química; todos sempre avaliam o impacto no meio ambiente. Apresentei o projeto duas vezes. Na primeira, ele voltou. Na segunda, recorri à TI verde, e o projeto andou melhor.
Fábio — Mas, quando falamos de otimização de TI, quando falamos de consolidação de servidores, isso não tem a ver com TI verde. Isso é a evolução da tecnologia. Tudo bem, a evolução tem efeitos colaterais importantes; economia de energia, por exemplo. É juntar o útil ao agradável.
Nós temos 15 mil computadores. Para comprar 15 mil computadores, vamos avaliar a melhor condição técnica e financeira. Vamos pensar no verde, é claro, mas isso não vai ser o motivador.
Cláudio — Uma pergunta: alguém gastaria mais num projeto, alguém deixaria de considerar o custo, só por causa do apelo verde?
Fábio — Não; projeto de TI, não.
Tomita — Recentemente, resolvemos adotar a telepresença [sistema de videoconferência de melhor qualidade], e calculamos a economia de tempo, de combustível. Na prática, fazemos muitos projetos, mas não medimos esses projetos com a régua da TI verde.

IH — Os fornecedores se parecem entre si, quanto às iniciativas verdes?
Tomita — Eles são muito parecidos, porque é um processo novo. Na Philips, uma das nossas unidades de negócios vende eletrônicos de consumo. Esse é um dos descartes mais complicados, porque coletar os produtos, e desmontá-los, ainda é custoso.
Na verdade, precisamos de um processo que viabilize o descarte para toda a cadeia. No caso do alumínio e do papelão, todas as partes da cadeia ganham e no fim o processo se torna sustentável. O processo se paga.
Mas, com uma placa de circuito impresso, o processo não se paga na cadeia inteira; ele é muito complicado. O processo de deixar tudo limpo tem de ter o verde do dólar também, ou a cadeia não se motiva a fazer.
Quando usamos a régua do verde para processos como o de consolidação de servidores, acontece uma coisa muito curiosa: com a consciência do verde, começam a surgir idéias interessantes. Os profissionais começam a enxergar oportunidades de otimização.
Por exemplo: o uso racional dos recursos da empresa. Não se deve circular um e-mail com anexo de 5 megabytes para quem não precisa ver aquele anexo. Isso é desperdício.
Cláudio — Na terceirização de impressão que fizemos há cinco anos, eu venho medindo quantas árvores a gente economizou na GM. Nestes cinco anos, dá 11 mil árvores.
Caiu muito o número de páginas impressas; caiu para menos de 50% de cinco anos atrás. Mesmo assim, eu passo por uma impressora e encontro papel lá; a pessoa imprime e não vai buscar. Nossa próxima iniciativa será liberar a impressão quando o funcionário passar o crachá na impressora e entrar com um código. A impressora vai guardar os trabalhos por duas horas.
Existe a idéia de que o carro vai se transformar no cigarro do futuro. Vai ser politicamente incorreto andar de carro. Então, cuidar do verde faz parte da cultura da GM. Estamos investindo na construção de um carro a hidrogênio e, no Salão do Automóvel deste ano, vamos mostrar o Volt, um carro híbrido, em que um pequeno motor carrega uma bateria.
Por isso eu usei o apelo do verde para trocar os monitores comuns por monitores de tela plana. O monitor de tela plana era mais caro, mas o retorno vinha em três anos.
Fábio — Agora: isso é TI verde ou é evolução tecnológica?
Cláudio — Você precisa aproveitar. Virtualização, por exemplo: a gente fala disso há cinco anos, mas agora está disponível. Otimiza a TI, mas significa também menos máquinas para descartar.
Fábio — Acho que o pior problema da TI verde é o descarte. Há 30 anos nós buscamos a economia, mas o problema do descarte ainda não está resolvido.
Cláudio — Mas a gente pode doar os computadores. Nós doamos a estação de trabalho da engenharia, que é um computador de alto desempenho, para a USP. A USP montou três laboratórios com esses computadores, que doamos freqüentemente.
Fábio — Mas repassar o equipamento para uma outra entidade não garante um descarte correto. Estamos longe de acompanhar o descarte desse material, desde o momento em que doamos até o descarte final.

IH — A legislação no Brasil não impede o fabricante de impor qualquer tipo de problema para o consumidor? O consumidor não faz o que quiser com o produto?
Bruno — Sim, mas se o material for encontrado num aterro e for caracterizado como tóxico, a responsabilidade é do fabricante. Existe um buraco legal aí.
Tomita — O nosso lixo eletrônico está escondido. Sabe onde? Em casa. Uma gaveta cheia de celulares velhos.
Orlando — Aí entra a questão do valor: o valor do descarte ainda não foi colocado de forma clara para todo mundo. Se o descarte é caro, a poluição não é mais cara ainda? Se ninguém dá valor para o descarte, evidentemente parece melhor enterrar o produto num aterro. Vamos achar uma solução, porque sempre tem uma solução.
Bruno — Existe um buraco legal no Brasil. Hoje, na minha contabilidade, existe um item chamado scrap, ou descarte. Eu deprecio o equipamento, mas preciso associar ao equipamento um valor todo ano para descartá-lo corretamente em três anos. Faço isso porque cumpro uma lei americana, que exige descarte correto.

IH — E você acha bons fornecedores no Brasil para realizar o descarte?
Bruno — Não. Não existe fornecedor no Brasil para alguns descartes. Além disso, a legislação brasileira me proíbe de exportar material para descartar no exterior.
Rodolfo — Acho que essa discussão toda [do verde] é muito desorganizada. Vai faltar terra para plantar tanta árvore quanto se diz por aí. Mas pelo menos as empresas estão tentando se posicionar. O meio ambiente passará a ser fator de decisão.
Na Shell, segurança e meio ambiente são prioridade zero; entram em todo projeto, inclusive nos projetos de TI. Mas, para ser sincero com vocês, não me lembro de nenhum projeto de TI em que o meio ambiente tenha sido o motivador do projeto.
Cláudio — Essa consciência do verde é nova, tem uns 30 anos mais ou menos; eu sou mais otimista que pessimista.
Ricardo — O governo brasileiro adotou a nota fiscal eletrônica, digitalizou obrigações fiscais e contábeis, e o governo tem adotado esse discurso da TI verde.

IH — A área de TI da Philips participa da área de sustentabilidade?
Tomita — Participa. É uma área global, e todas as ações de TI verde estão dentro do guarda-chuva da sustentabilidade. Nosso comitê de TI verde, por exemplo, tem duas pessoas da área de TI e seis pessoas de outras áreas.
Quando usamos a metodologia deles para analisar os projetos de TI, foi interessante; a gente revisitou projetos em que não usamos a régua da TI verde. Poderíamos ter sido muito mais enfáticos.
No fundo, como diz o Bruno, precisamos de retorno do investimento; é assim que funciona. Mas devem surgir iniciativas novas, diferentes, porque o pessoal começa a pensar nisso.
Por exemplo: fomos checar quantas empresas têm realmente condições de fazer o descarte correto de aparelhos eletrônicos. São duas ou três empresas no Brasil.
Ao mesmo tempo, tem gente montando indústrias de descarte em países africanos e asiáticos. O sujeito extrai X miligramas de ouro das placas, mas o lixo continua lá, e não existe processo apropriado de descarte nesses países.
Bruno — Só mudou o endereço do aterro.

IH — A empresa estimula a área de TI a tomar iniciativas verdes?
Rodolfo — A TI normalmente segue uma estratégia da empresa, cumpre objetivos de negócio. Mas agora os executivos de TI podem questionar e desafiar os processos de negócio, já com essa visão do meio ambiente, para agregar controles e segurança. É uma oportunidade.
Cláudio — Nossa área de projetos desenvolve projetos para a Ásia, para o Japão e para a Oceania. Esse pessoal precisa estar em contato o tempo todo. Eles precisavam se deslocar para a GM, para participar de videoconferências. Nós fizemos um projeto para reduzir esses deslocamentos. Implementamos VoIP para 700 usuários específicos, e com isso reduzimos os deslocamentos.
Temos o problema dos descartes, mas quantos milhões de deslocamentos a Internet já evitou?
Tomita — Mas, Cláudio, como medimos os impactos positivos? Não temos como medir isso. Se usamos indiscriminadamente a Internet, instalamos servidores grandes, esperando as perguntas dos internautas.

IH — Como a TI muda o comportamento dos usuários, para que eles reduzam o consumo de energia, ocupem menos espaço, se desloquem menos?
Cláudio — Usamos a tecnologia para divulgar informações e educar a comunidade. Temos um portal na intranet com uns 500 vídeos pequenos, com informações e dicas sobre como usar melhor o celular, o computador, o sistema de telefonia. Vídeo é mais eficiente que texto. Espalhamos isso também para as revendas da GM, para treinar as pessoas a usar as ferramentas e dar manutenção correta nos veículos.

IH — Esse vídeos incluem dicas e treinamento sobre a preservação do meio ambiente?
Cláudio — Incluem. Por exemplo: como reduzir o consumo de papel, como usar o scanner em vez de imprimir.
Orlando — A área de TI talvez não tenha a competência para educar, mas tem o veículo. Todo mundo precisa de um computador para trabalhar.
Rodolfo — A gente publica todo mês os custos detalhados de telefonia móvel e fixa. Isso ajuda, de maneira indireta, a poupar o meio ambiente. Começa a doer no bolso das pessoas.

IH — Desde o Eniac, os computadores ficam menores e consomem menos energia. Vocês ficam à vontade para aplicar o selo TI verde numa característica que sempre existiu nessa indústria?
Fábio — Muita coisa que fazíamos há 30 anos agora tem o nome de TI verde, e terá outro nome daqui a três anos. Mas isso tudo só caminha se mexer no bolso das empresas. Como no caso da nota fiscal eletrônica: o setor de cimentos tem de entrar agora em setembro; não tem choro.
Então, devíamos começar com alguns equipamentos (celulares, ou impressoras, por exemplo) e criar a rastreabilidade desde o fornecedor, passando pelo cliente, a cadeia toda, até o descarte. Devíamos começar aos poucos. Isso sim mereceria o selo de TI verde.

IH — Vocês, na área de TI, se responsabilizam pelo descarte correto de produtos de TI?
Tomita — Nossa área de TI tem uma política, mas a política varia de país para país. Mas, de novo, uma indústria sozinha não consegue atuar; precisamos criar mecanismos mais gerais, que sejam viáveis economicamente.
Orlando — Na parte de TI, estamos a reboque do resto da empresa. É muito mais importante montar um mecanismo para descartar ascarel [um óleo muito poluente] do que para descartar um microcomputador. Mas isso vai mudar com os anos.

IH — A Petrobras tem uma política de descarte para equipamentos de TI?
Orlando — Ainda não. Fazemos doações, reciclamos cartuchos, essas coisas que todo mundo faz.

IH — Terceirização resolve algum desses problemas?
Rodolfo — Terceirização não é a solução, mas é um componente na tarefa de encontrar uma solução.
Fábio — Mas aí estamos empurrando o problema para outra empresa. Por exemplo, no leasing: você devolve o equipamento para a empresa de leasing, depois de três anos, e essa empresa revende o equipamento no mercado. O processo de rastreabilidade acaba aí. Não sabemos se o comprador vai descartar o equipamento corretamente.
Rodolfo — Na Shell, nós revimos os níveis de serviço. Em geral, o usuário pede exigências lá em cima, o que muitas vezes nos obriga a duplicar o hardware, o link de comunicação de dados, e a gente consome mais energia, e polui mais. Quando discutimos isso pensando também em poluição, em TI verde, as pessoas se mostram mais sensíveis.
Tomita — É o antigo problema da consciência do indivíduo e do coletivo. Muito do que falamos aqui depende do coletivo; mobilizar o coletivo é sempre um problema.
Bruno — Voltando para a área de TI, para o caso dos e-mails de 5 megabytes, nós disponibilizamos uma lista com os recordistas do dia: 60 megabytes, fulano, 30 megabytes, beltrano. Resultado: diminuiu bastante o número de e-mails pesados, e diminuiu a pressão para aumentar a velocidade do circuito.
Acabamos também com aquele rabicho no e-mail: antes de imprimir, pense no meio ambiente. Esse rabicho, multiplicado por 150 mil micros na nossa rede global, já dá uma demanda razoável.
Também instituímos a famosa sexta-feira sem e-mail (exceto para questões estratégicas ou emergências). Vimos que a pessoa que deixou de receber 150 e-mails na sexta-feira, não recebeu 300 e-mails na segunda
: recebeu 200.
Esse é poder da educação.

 

 

 

 
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