| Nesta
mesa-redonda, oito profissionais de TI conversam
sobre a influência da ITIL na gestão
da TI. (ITIL vem de information technology infrastructure
library; é uma biblioteca de textos sobre
técnicas comprovadas de administração
da infra-estrutura de informática.) ITIL
ajuda o gerente a deixar de enganar a si mesmo:
só dá para gerenciar o que foi
transformado em medições, só dá para
cumprir objetivos de longo prazo se o gerente
controla a execução de tarefas
de curto prazo. Se o gerente insistir, ITIL acabará deixando
a gestão da TI mais refinada.
A mesa-redonda foi coordenada por Wilson Moherdaui,
diretor editorial do Informática Hoje, e
por Márcio Simões, diretor de redação.
Participaram: André Luiz de Almeida, diretor
de TI da Secretaria de Saúde do Estado de
São Paulo; Conrado Frassini, assessor da
presidência da Prodam-SP; Eliza Hitomi, gerente
de TI da Petrobras Distribuidora; Fábio
da Silva Ferreira, diretor de TI da Accor Hotelaria;
Guilherme Jardim, gerente de projetos do Grupo
Friboi; Marcelo Bessalobre, gerente de TI do Banco
Volkswagen; Roberto dos Santos Silva, gerente de
tecnologia e de segurança do HSBC Bank Brasil;
e Roberto Sturm, diretor de TI da Assembléia
Legislativa de São Paulo.
IH — Qual é o
papel da ITIL na governança da TI?
Eliza — Estamos na batalha
há dois anos: começamos empolgados
com aqueles livros, aquelas práticas,
mas, na hora de implementar, é difícil.
Contratamos a Universidade Federal do Rio de
Janeiro para nos ajudar a estudar os processos;
mesmo assim não concluímos o
projeto ainda — é muita coisa.
Começamos com os processos mais simples,
mais operacionais: service desk [ponto único
de atendimento ao usuário], gestão
de incidentes, de problemas, de mudanças,
de configuração e de liberação.
Mas, até entrar no sangue, a gente implementa,
vê que não está bom, vê que
falta muita coisa, e a gente volta e complementa.
Estamos assim: a gente vai e volta, vai e volta.
Vimos o seguinte: a consultoria gerou bastante
papel, mas foi difícil fazer acontecer
as coisas no dia-a-dia. Nossa maior dificuldade é conseguir
métricas, para saber o que precisamos
melhorar.
IH — Qual
parece ser a principal fonte de problemas?
Eliza — A governança
como um todo, talvez. Num primeiro momento,
houve resistência, isso é normal.
Depois, as pessoas abraçaram a idéia;
hoje, todo mundo quer participar. Se alguém
não preenche a requisição
de mudança, a RDM, eles reclamam. Agora,
o problema principal é ajustar os processos,
e isso é um problema de governança.
Talvez falte uma definição mais
clara do papel de cada um. Tudo está bem
documentado, mas tem muita interpretação: pelo
que eu li, isso é da sua área.
Conrado — Vocês
têm indicadores para cada uma das disciplinas
da ITIL?
Eliza — Temos alguns
indicadores, os mais básicos, como o
número de incidentes, problemas resolvidos,
prazos, etc. Mas a distribuidora se reorganizou
há uns quatro meses, e cada gerência
ainda está tentando entender os próprios
papéis.
Conrado — Sou um dinossauro, porque estou
há 40 anos na área de informática.
A gente pratica a ITIL desde o começo:
ela não traz nada de novo, mas estruturou,
botou nome nas coisas.
No setor público, existe mais política,
e daí vem a grande dificuldade: a resistência
cultural. Mas uma coisa fica muito clara com
a ITIL, no setor privado ou no público:
temos que derrubar as barreiras que existem entre
nós, da TI, e os usuários. Ajuda
criar um catálogo de serviços e
fazer a área de TI conversar sobre serviços.
É quando percebo uma grande dificuldade para o pessoal de TI: eles falam
de aplicativos, falam de sistemas. Nada disso é serviço.
Como na empresa pública existem muitos
interesses políticos, fica mais difícil
mostrar as vantagens da ITIL. Na Prodam, a primeira
coisa que fiz foi dar curso de ITIL para 22 pessoas.
Eu precisava de alguém para carregar o
estandarte junto, senão não conseguiria
nada nunca. Elas fizeram o catálogo de
serviços, que ficou muito bom. Mas, nos
escalões mais altos, ainda há resistência.
Eles dizem: “Se a gente implementar
isso aqui, não vamos mais conseguir atender
ninguém das secretarias, das subprefeituras.” Eu
digo: gente, a ITIL foi criada por um órgão
público na Inglaterra — foi feita
para órgão público.
Fábio — Na Accor,
fizemos um painel com indicadores de desempenho
da ITIL. Mas acredito que, para ter desempenho,
precisa ter recompensa. Não dá para dissociar as duas coisas.
Não sei se órgão público pode ter metas, bônus.
Conrado — Tem dois tipos
de funcionário num órgão
público: o funcionário de carreira e aquele que ocupa cargo de
confiança. Eu sou cargo de confiança. O funcionário de
carreira tem a síndrome dos quatro anos: daqui a pouco vem outro sujeito,
e joga no lixo tudo o que esse sujeito aí fez. E 2008 é ano de
eleição. O que eu tento explicar é que ITIL não é coisa
minha, nem coisa de partido, mas é um dos melhores conjuntos de boas
práticas do mundo.
Fábio — Falamos
muito sobre ITIL porque a complexidade da gestão da TI aumentou muito, e isso porque a complexidade da TI também
aumentou muito. As empresas também usam mais a TI, o que modificou a
maneira de gerenciar a tecnologia.
Na Accor, temos o dilema de escolher entre sinergia
e especialização. A Accor tem várias
unidades de negócio, com áreas
de TI separadas, e sempre nos perguntamos: vamos
ter sinergia ou vamos nos especializar, para
atender a especificidade de cada uma das unidades?
Conrado — Dei curso de
ITIL para gerente de relacionamento, assim ele
entende que não pode vender nada baratinho, quebra-galho.
Por exemplo, instalar alguma coisa num servidor que já existe, o de
finanças: sem gerenciamento de capacidade, vai prejudicar os dois clientes,
o novato e o cliente do servidor de finanças.
Se a gente faz uma entrega parcial, de má qualidade,
ganha a má vontade do cliente, quando
ele precisa fazer um novo aporte de dinheiro.
O cliente só está amarrado à gente
por causa de uma lei — em outras palavras, é isso.
Na minha opinião, as empresas deveriam
ficar com a gestão, e desenvolver a gestão,
e deixar em separado a parte técnica — se
for o caso, até terceirizar.
O principal problema do órgão público é justamente
a parte técnica: não tem ambiente
de testes e de homologação para
computadores comuns, as bibliotecas de fontes
e objetos estão distribuídas nos
computadores das pessoas...
Fábio — Concordo,
mas algumas empresas não
fazem terceirização, elas fazem se-livração,
para se livrar dos problemas. Não dá para se livrar, porque,
como o Conrado falou, a gestão precisa ficar na empresa. Contudo, a
empresa precisa de maturidade. Não dá para ficar controlando
o terceiro, perguntando: “Quantas pessoas tem lá?” É um
risco isso.
André — Na Secretaria
de Saúde, pelo que
ouvi aqui, a gente engatinha ainda com a ITIL. De todas as disciplinas da ITIL,
nós destacamos três para começar: incidentes, mudanças
e gestão dos níveis de serviço. Partimos para a história
de produtos, processos e pessoas, escolhemos os produtos e os processos, chegamos
nas pessoas. Não tive problemas para envolver a alta direção,
mas tive problemas para envolver a operação. A idéia deles é essa: “Estou
aqui há 15 anos, esse sujeito está aqui há quatro.” E
não temos bonificação: preciso convencer todo mundo só com
os meus lindos olhos.
Conrado — Para criar o service desk,
pegamos os atendentes, antes de colocá-los para atender telefone, e os levamos
para uma peregrinação nas unidades básicas de saúde
em São Paulo. Cada um deles ficou internado 15 dias numa unidade básica
de saúde. Quando voltaram, eu pedi: agora, me escreve todo o script dos
problemas. Nós submetemos esse script para a Secretaria da
Saúde, que acrescentou mais algumas coisas e homologou. Desse jeito,
nós zeramos a carteira.
Marcelo — No Banco Volkswagen,
nós fizemos o
inverso: trouxemos a área usuária para dentro da TI. Criamos
grupos de estudos, e mostramos para os usuários que todo problema tem
solução, e que toda solução tem um preço.
Mas uma coisa deve ser dita: é difícil falar para o pessoal de
TI que não temos mais usuários, mas parceiros de negócios.
Somos prestadores de serviços. A gente faz a analogia entre crédito
e cobrança: no crédito, eu quero captar um cliente; na cobrança,
eu não quero cobrar um cliente, mas recuperar um cliente. Então,
esses dois sistemas são críticos.
Sem ter uma infra-estrutura organizada, não
dá para instalar business intelligence,
nada. Ter catálogo de serviços é legal,
muito bonito. Mas cadê a gestão
em cima desse catálogo?
IH — A Assembléia
Legislativa gerencia a TI com ITIL?
Sturm — Nos últimos
anos, passamos de dez funcionários para
40, mas nossa estrutura sempre foi bem enxuta.
Estamos sempre buscando o ponto de equilíbrio
entre fazer internamente e terceirizar. Temos
hoje um sistema para a atividade-fim da Assembléia,
que é o sistema de processo legislativo.
O processo legislativo pára se o sistema
parar, porque nós temos um trâmite
eletrônico de documentos — a pauta,
a discussão de ordem do dia, é tudo
gerado por esse sistema. Quem entra no portal
da assembléia, acessa a produção
dos deputados na hora.
Demos nosso primeiro passo em ITIL em janeiro,
com toda a parte de service desk, de
gestão de incidentes. Estamos refazendo
agora, porque não deu muito certo; a gente
não conseguiu diferenciar bem o que é incidente
e o que é serviço.
IH — Como conseguir
medições e indicadores que ajudem
a gestão?
Fábio — Para
compor os indicadores da TI, eu usei a ITIL — disponibilidade,
mudanças, incidentes, etc. Mas eu quero
destacar dois indicadores; foi um trabalho
interessante.
Nós temos um diário de bordo, com
tudo o que aconteceu à noite, com tudo
o que aconteceu nos processos de TI e nos processos
importantes da empresa, o faturamento, etc. Em
geral, mostrávamos os problemas. Essa é a
maneira pela qual a TI é notada — quando
dá problema. Então, decidimos montar
um indicador diferente. A gente examinava cada
um dos processos, fazia uma ponderação
pelo negócio (com a área de negócio
junto), e no final mostrávamos o índice
de sucesso da operação: por exemplo,
95% do que precisava acontecer à noite
aconteceu da forma correta, e 5% deu problema
por causa disso e disso. Montamos um processo
de melhorias contínuas para atuar na causa
dos problemas. Foi uma iniciativa legal, que
mostra a área de TI de uma maneira diferente.
A área de TI é uma área
operacional; sendo assim, sempre vai ter algo
a melhorar. Usamos os nossos problemas para extrair
as iniciativas de melhoria.
Eliza — E você repassa
os custos das melhorias no SLA?
Fábio — Não. Dá mais trabalho criar
um sistema de custos do que fazer um rateio. Poucas empresas têm um custeio
ABC da área de TI.
Mas tem uma coisa que gosto bastante de discutir:
como medir a capacidade de planejamento? Fazemos
o planejamento de longo prazo, mas como medimos
as atividades de curto prazo? Criamos um plano
de metas mensal, e cada um dos gerentes me diz
o que vai executar no mês. No fim do mês,
medimos o que cada um deles conseguiu entregar.
O índice de execução é muito
baixo — é incrível.
Então, acho uma heresia falar que curto
prazo é fácil. Quando começamos
com isso, o índice de entregas ficava
em 30%. Hoje, fica em 60%. É inacreditável
como o dia-a-dia é feroz, como tem força
para nos tirar do foco.
Acho que, no fundo, é por isso que é tão
difícil cumprir o planejamento de longo
prazo.
Na verdade, uma das vantagens da organização
por processos [isso vem com a aplicação
da ITIL] é minimizar os conflitos.
Numa empresa, existem conflitos entre os departamentos.
Quando a gestão dos processos é boa,
contudo, existe a definição dos
papéis e das responsabilidades.
Por isso a segurança precisa estar fora
da área de infra-estrutura: é importante
que exista conflito entre o pessoal de segurança
e o de infra-estrutura, é importante que
os papéis e as responsabilidades desses
dois grupos esteja bem documentado e bem claro.
Conflito é importante, mas o que não
gera valor, gera calor. ITIL ajuda a empresa
a diminuir os conflitos e a gerar valor.
IH — ITIL
funciona sem treinamento constante?
Guilherme — Não,
o treinamento tem de ser constante. Na sala
de aula, o pessoal consegue entender o que
aconteceu no dia-a-dia, o que poderia melhorar. É difícil
manter o pessoal nas salas de aula, porque
todo mundo está sempre correndo, resolvendo
problemas.
IH — Um banco
pode dispensar referências como a ITIL?
Roberto — O HSBC, como
todo banco, não sobrevive sem informática.
Quando falamos sobre governança no HSBC, é sempre
a governança do banco inteiro, incluindo
a TI. Como o banco tem origem inglesa, ITIL é uma
tradição.
Contudo, mesmo tendo alguns processos de ITIL
bem desenvolvidos há muito tempo, isso
não é suficiente para garantir
a qualidade do serviço prestado. Nos últimos
dois anos, trabalhamos para melhorar os outros
processos da ITIL.
É mesmo difícil distinguir incidentes. Às vezes, o pessoal
confunde o trabalho de restabelecer o sistema com a investigação
das causas-raízes pelas quais o incidente aconteceu. Nos últimos
18 meses, estabelecemos um processo mais robusto para o tratamento de incidentes
de informática. Isso mudou a postura do pessoal. Agora, quando acontece
um incidente, todo mundo se volta para o objetivo de restabelecer o serviço.
Outro ponto interessante: o gerenciamento financeiro
das coisas. Há dois anos, iniciamos a
implementação de um centro de serviços
compartilhados. Fizemos um trabalho para fugir
do mero rateio dos custos da TI. Ao contrário,
precificamos todos os componentes: do custo do
pessoal ao custo do mix de recursos de informática
utilizados para manter um aplicativo no ar. Isso
deu um trabalho enorme, cavalar, como o Fábio
comentou; mas o benefício foi fantástico.
A transparência dos nossos custos aumentou.
Quando passamos a mostrar os nossos custos, automaticamente
o usuário entendeu o nosso valor. Mas
também passamos a ser mais cobrados pela
qualidade.
Com as contas da informática, o usuário
entendeu a importância de limpar as bases
de dados, de simplificar os processos — sem
processos adequados, a infra-estrutura fica mais
cara, e depois a área de negócios
não quer pagar a conta.
IH — Essa precificação
da TI modificou o banco de forma significativa?
Roberto — O banco passou
a buscar qualidade em itens que, normalmente,
ficam esquecidos. Processos implementados de
forma inadequada, com custo maior, ficam em
evidência. A qualidade da infra-estrutura
instalada aparece.
Viramos um prestador de serviços mesmo.
Temos até gerentes de conta — são
eles que explicam as contas da TI para as unidades
de negócios.
Fábio — Estudamos
bastante esse assunto na Accor, e descobrimos
o seguinte: é difícil a TI calcular o custo por
serviço se a empresa não está organizada por serviços
também. Nós usamos uma técnica aprimorada de rateio, com
portfólio de serviços, mas não passa de um rateio.
Roberto — Não dá para distribuir alguns
custos adequadamente mesmo. Aí, esse custo nós rateamos. Mas
isso é bem diferente de pegar o custo total e fazer um rateio.
Guilherme — Eu defendo
essa idéia de cobrar os
usuários pelos custos da TI. Quando ele vê as contas, às
vezes ele diz: “Bom, talvez eu não precise disso.”
Roberto — O custo para
o cliente também ajuda
a desligar legados. Às vezes, temos um sistema desenvolvido há cinco,
dez anos. A pessoa que encomendou o sistema nem trabalha mais lá. Em
geral, dizem: vamos deixar aí, o sistema está funcionando. Mas
quando o usuário vê o custo daquilo na fatura dele, ele começa
a pensar na desativação do sistema, ou na limpeza da base de
dados.
Guilherme — ITIL coloca
a TI e os usuários muito
próximos. A TI deixa de ser uma preocupação só do
pessoal de TI, e passa a ser uma preocupação da empresa inteira.
Eliza — No início da implementação
do SAP, todo mundo queria ser usuário. Quando a gente mostrava o custo
da licença, aí diziam: “Tudo bem, o estagiário
não precisa, a fulana também não precisa.”
Mas também tivemos outra experiência:
ITIL nos deu tranqüilidade para identificar
grandes reduções de custo para
a empresa. Nós tínhamos legados,
infra-estrutura antiga; com ITIL, vimos que seria
mais barato investir em sistemas novos do que
gastar com a manutenção de sistemas
antigos.
|