| Nesta
mesa-redonda, nove profissionais de TI conversam
sobre o uso de ferramentas de business intelligence
na indústria. Eles conhecem BI há muitos
anos. Estão acostumados a passar muito
tempo montando um cubo, para depois jogá-lo
fora quando não serve mais. Alguns deles
acham que a área de TI não deve
construir cubos, mas ajudar o usuário
a construir cubos. Outros acham que o usuário
nem deveria saber o que é um cubo. Há até quem
prefira mentir para o usuário, assim ele
não pede coisas que, depois, vão
deixar os sistemas mais lentos. Enfim: BIs fazem
parte da rotina numa empresa, e dão trabalho
para os profissionais de TI. Eles querem dividir
a responsabilidade com os usuários.
A mesa-redonda foi coordenada por Wilson Moherdaui,
diretor editorial do Informática Hoje, e
por Márcio Simões, diretor de redação.
Participaram: Aldemir Barbosa dos Santos, gerente
de TI da Beckton Dickinson; Álvaro Mello,
diretor de TI da Schincariol; Hélio Silva,
gerente de TI da General Motors; Jedey Miranda
Júnior, diretor de TI da Eaton; José Carlos
Costa, gerente de TI da Suzano Papel e Celulose;
José Victorino Martins Neto, gerente corporativo
de TI da Mangels; Pedro Paiva, gerente de sistemas
de informações da Pfizer; Sandra
Pellegrino, gerente de TI da Petrobras Distribuidora;
e Walter Soubihe Júnior, gerente de TI da
Votorantim Cimentos.
IH — Quais
são
os principais desafios ao implementar um BI?
Jedey — O principal
desafio de uma implementação
de BI é definir claramente o benefício,
o escopo, o resultado esperado — para
orientar as ações futuras, sejam
de marketing ou de posicionamento. Um dos principais
problemas do projeto de BI é a confiabilidade
das informações vindas dos sistemas
transacionais. Começamos a gerar os
cubos [os dados para análise, organizados
em tabelas especiais], a ter as visões
da empresa, mas nem sempre as informações
nos cubos são confiáveis. Temos
BI há uns quatro anos, tanto no regional
quanto no corporativo.
IH — No
caso da confiabilidade, o problema é mais
de processos?
Jedey — Sim. Por mais
que a gente tenha um ERP, a gente sempre acaba
buscando informações em diferentes
sistemas transacionais. A pergunta ao analisar
os cubos é: será que essa informação
faz sentido? Confiar na fonte é muito
importante. Para que servem os sistemas transacionais?
Servem para a operação, para
o dia-a-dia. Nem sempre servem para projeções.
Assim, tenho de gastar um bom tempo com a limpeza
da base e com a estruturação
dos dados.
Hélio — Na GM,
a vocação do BI é o dia-a-dia;
ele serve para ajudar a ganhar dinheiro mesmo.
O BI ajuda mais quando trazemos o BI para o
momento em que uma decisão precisa ser
tomada — por exemplo, na redistribuição
dos canais de vendas. Mas a nossa experiência é dolorosa.
Os ERPs aqui no Brasil têm uns oito anos.
Na GM, o ERP é parte do nosso negócio. Às
vezes, a informação que dá flexibilidade
está no legado.
Nós começamos a implementação
do BI pela área de vendas. Havia uma área
de negócios para vendas; eles usavam desde
ferramentas de BI até planilhas Excel,
banco de dados Access, etc. O segredo estava
nas pessoas que conheciam bem as informações
de todo dia. Pegamos essas pessoas e trouxemos
para a estratégia da GM como corporação.
Juntamos os vários bancos de dados para
criar uma visão de acordo com a necessidade
de cada processo do negócio.
Cerca de 300 gerentes de vendas utilizam essa
visão diariamente, para definir a estratégia
de vendas da semana. É importante para
cada gerente determinar quantidades, negociações
de lotes de carros. Havia uma separação:
só o sistema transacional movimentava
os dados, que atualizava os dados para os processos
de negócio. A partir daí, geramos
as informações para a tomada de
decisão.
IH — Todas
as montadoras têm acesso aos dados do Renavam
e às ferramentas BI. Onde está o
diferencial?
Hélio — O diferencial
está em como ela se organiza. A Anfavea
envia a informação: 8 mil carros
vendidos no Brasil hoje. Desses 8 mil, mil
são GM. Outros mil são Fiat;
eu posso saber que a Fiat vendeu 500 compactos.
Eu sei qual é o carro compacto dos concorrentes
e comparo com os meus. Aí posso distribuir
geograficamente; isso orienta uma ação
de venda para determinado local do Brasil.
E aí posso ser mais eficiente na entrega
do meu veículo, lá na ponta,
para o meu cliente.
Temos de acompanhar todos os passos, desde
o momento em que o cliente faz um pedido na
concessionária
até o momento em que recebe o carro. São
cerca de 90 passos. Cada processo precisa ser
executado dentro de um prazo. As pessoas levam
60 dias para receber um Corsa. Isso é muito
ruim para a gente. Eu gasto dez dias para produzir
um carro. Vou tentar reduzir o restante. Eu recebo
essas informações a respeito dos
processos pelos sistemas de BI.
Jedey — O diferencial
competitivo está nas outras
fontes internas da empresa. Eu tenho capacidade produtiva para vender mais;
se não tiver, não adianta, não consigo colocar o veículo
no mercado. A margem de contribuição do compacto é suficiente
para eu querer vender na região em que meu concorrente vende mais? Se
tiver margem negativa com aquele veículo, não quero ganhar market
share, senão perco dinheiro. Analisar isso é o diferencial competitivo.
IH — Como
vocês
recebem informações dos fornecedores,
e como colocam essas informações
no sistema de BI?
Hélio — Desde
a cadeia de suprimento existem os protocolos
de comunicação entre a montadora
e os seus fornecedores, ditados pelos processos
de negócio, suportados pela conexão
entre os sistemas. Em BI, a fonte da informação
está na venda do produto. Trago a informação
para a cadeia de suprimentos até o fornecedor
de chapa de aço. Se vendi mil carros,
vou precisar colocar quantas novas chapas de
metal para repor o que foi vendido?
IH — Como é usar
BI no setor de bebidas?
Álvaro — Há a
necessidade de conhecer o cliente primeiro,
para além da primeira camada de revendedores,
e enxergar o cliente do nosso cliente: são
cerca de 650 mil pontos de venda espalhados
pelo Brasil. O barzinho da estrada, a padaria
da esquina e o auto-serviço das redes
de supermercados. Há também a
necessidade de conhecer o consumidor final,
para conhecer as preferências e impressões
acerca dos nossos produtos. O BI foi um dos
projetos prioritários para 2007.
Mais do que os problemas técnicos, é difícil
escolher o parceiro correto; é importante
alinhar a presidência, o financeiro, o
comercial, o marketing. O segundo desafio é usar
o BI como ferramenta de inteligência e
não só como ferramenta de consolidação
de resultados.
Em bebidas, vender algumas caixas de produto
a mais em cada ponto de venda significa milhões
de reais de faturamento. Mexer uma pequena fração
na participação de mercado reflete
fortemente no resultado da organização.
Deixamos as necessidades analíticas mais
específicas da diretoria de marketing,
por exemplo, para um segundo passo. Isso pode
nos levar à visão integrada da
cadeia. BI é o ponto de partida.
Walter — Falando do cimento,
uma commodity, com concorrentes de baixo valor
agregado: os custos logísticos é que fazem a diferença.
A informação em tempo real de quanto é a
nossa participação de mercado,
numa região qualquer, tem impacto na operação
logística; assim definimos onde colocar
um centro de distribuição novo.
Ou se devemos operar com rede de distribuição
própria, ou se devemos recorrer a grandes
distribuidores.
Não é só captura de informação
de mercado. Fizemos uma implementação
quase completa do SAP; só não temos
folha de pagamento. E mesmo assim sentimos falta
de informações gerenciais no negócio.
Informação de custeio é fundamental
para nós. Precisamos amarrar muito forte
as informações de produção
com as informações de custos, que
muitas vezes não estão nos nossos
sistemas, nem são do nosso domínio.
Estão com parceiros e fornecedores, muitos
deles internacionais. Há variáveis
que têm impacto no capital de giro, na
geração de caixa; tem a taxa cambial.
Os executivos precisam decidir se pegam dinheiro
no caixa ou se captam no mercado. Hoje, temos
de oferecer as informações, mas
também discutir quais são críticas
para a tomada de decisão. Só tecnologia
não resolve.
No ano que vem teremos mais 30 centros de distribuição
no Brasil. Isso requer customizar informações;
os relatórios precisam dizer quanto estamos
vendendo, de que tipo de produto, qual a margem,
qual o custo do frete, quais prestadores de serviços
operam dentro das margens estabelecidas. Cada
faturamento exige seis documentos; no Brasil,
só no caso de cimentos, emitimos 15 mil
notas fiscais por dia.
José Carlos — Papel
e celulose é um segmento
que precisa de muito dinheiro. Gera caixa, mas os investimentos são
altíssimos. Numa pequena fábrica de celulose, gastamos US$ 1,3
bilhão.
Não dá para parar a produção,
os custos são absurdos. Temos BI desde
2000. Você faz os cubos e joga todos os
cubos fora em dois anos. Temos vários
casos que não deram certo. O negócio
muda. Montamos uma distribuidora, escritórios
no exterior. BI é pessoas, tecnologia
e processos. Por mais que limpe a base de dados,
as pessoas erram e o BI simplesmente mostra o
erro no processo, faturamento errado, condição
de pagamento que não está certa.
Agora, não é mais o BI que está errado, é o
processo. Para isso, unificamos o comercial com
a contabilidade. A controladoria é a dona
das regras de toda informação que
tem dentro do BI.
A gente conta uma mentira para o usuário:
vocês não podem transformar o BI
num sistema operacional [isto é, de apoio
em tempo real à operação].
Todos os documentos de faturamento estão
no BI, só que a gente não mostra.
Extraímos os dados do BI principal, e
depois geramos um BI intermediário, com índices
e resultados. Senão, o BI fica lento;
uma mudança de cubo pode demorar umas
duas ou três horas.
O funcionário diz que trabalha por processos,
mas no dia-a-dia ele tem uma visão departamental,
porque ele defende o interesse individual dele.
E não tem tempo para desenvolver inteligência
no negócio. Aí nos estruturamos
por unidade de negócios, e criamos dentro
de cada unidade uma área de inteligência
competitiva. Aí eles começaram
a exigir informação das áreas
prestadoras de serviço. E os números
do comercial não batem com os de logística.
Isso porque sempre foi feito de acordo com o
que interessava para a área. Mesmo com
ERP, eu gero o relatório que eu quero.
Agora começa a aparecer o resultado de
quem é competente.
E por último a parte de pessoas; elas
precisam ser capacitadas para trabalhar com informação.
Escolhemos as que estão saindo da universidade.
Ler todo mundo sabe, mas fazer a informação
virar um valor de negócio é difícil.
Não é o funcionário de tecnologia
que faz, muda ou agrega qualquer valor; ele conhece
o processo, sabe onde está a informação.
Ele ajuda quem analisa e cria os indicadores.
Jedey — Não adianta ter 250 métricas.
Eu tenho de ter meus objetivos corporativos relacionados com os departamentais,
que estão relacionados com os individuais de cada colaborador da organização.
Isso é comunicado para a organização e nos orienta a
fazer um melhor uso de todas as ferramentas e metodologias da companhia. É a
base para o melhor uso do BI.
Sandra — Na fase inicial
do projeto, as pessoas não têm uma visão ampla do processo. Elas querem
a rentabilidade do contrato, e montam um cubo só para isso. Aí,
mais adiante, percebem que, para avaliar aquele contrato melhor, precisariam
ver as quantidades negociadas para aquele contrato específico. E o cubo
não atende mais, porque a pessoa não tinha uma visão sistêmica
do processo quando montou o cubo da primeira vez.
Walter — A participação
do corpo gerencial na definição das informações
necessárias para o BI é muito restrita — ele sempre envia
algum representante. E depois não tem tempo para validar as informações.
Álvaro — Utilizar
a plataforma de busca em oposição às soluções estruturadas
de BI é o grande caminho. Comparamos durante um ano produtos de BI e
plataformas de busca. Essa visão está mais alinhada com a forma
desestruturada do gerente da área de negócio, que precisa fazer
uma apresentação para o dia seguinte, e não pode esperar
o pessoal de TI redesenhar o cubo.
Eu vejo um gargalo tecnológico. Os usuários
estão falando em queries. Essa forma estruturada
está cada vez mais distante do pensamento
não-estruturado, que é o caminho.
Eu acredito que as plataformas de busca têm
mais condição de atender as necessidades
executivas e gerenciais.
Pedro — Coisas como cubo
e entidade de relacionamento não são naturais no pensamento humano. Quando
ouço o usuário falando em cubos, me causa arrepios. Impusemos
isso ao mundo de negócios e isso virou uma camisa-de-força para
pensamentos úteis e produtivos, criativos, nas áreas executivas.
Isso não está funcionando mais; as pessoas têm cada vez
mais contato com o Google. Se nós continuamos só enxergando esse
modelo muito restritivo e caro, vamos ficar para trás em relação
ao mundo dos negócios.
Aldemir — Não mapeamos corretamente as fontes.
Nós temos dois ERPs, temos o SAP e um ERP chamado Lodum. TI não
cuida mais de BI, o departamento vai ser só uma espécie de assistência
técnica. A TI apóia, mas o usuário faz o cubo. A área
de estatística cuida da informação e está ligada
ao negócio. Começamos com finanças e vendas; hoje começamos
a olhar para chão-de-fábrica.
Hoje, o presidente olha o BI para ver só as
métricas de finanças. Agora temos
de trazer as pessoas de outras áreas para
o centro de excelência.
O BW [o módulo de BI da SAP] veio inicialmente
como uma ferramenta para suprir o problema de
informação executiva. Não
supre definitivamente. Aí evoluímos
para um sistema de BI. Quando saiu de TI para
a área de estatística, o projeto
deslanchou; entregamos o primeiro cubo. Agora
queremos ampliar, mas as áreas estão
acostumadas a pedir relatórios para a
TI.
O ser humano pensa de forma desestruturada, mas
na hora de tomar uma decisão, ele se cerca
de uma série de estruturas.
Sandra — Na Petrobras
Distribuidora, o ERP substituiu quase 100 sistemas
legados. Uma equipe gerava relatórios
nos sistemas legados para fazer as estruturas dos cubos. Estruturamos cubos
de vendas, de distribuição, custeio, orçamento, contabilidade,
contas a pagar, contas a receber. Todos estavam acostumados a usar um legado
e fazer arranjos para obter a informação. Daí, criamos
a figura do gestor que mapeou o processo e tem a visão sistêmica
para apoiar a construção dos cubos. Agora eles geram os seus
relatórios, não dependem mais da TI. A área de TI só apóia
agora a construção de relatórios mais complexos, com mais
de um cubo. A gente tem seis anos de base de dados e 2 bilhões de registros.
Estamos na versão 3.5 do DW: vamos para a 7, a qual nos permite interagir.
José Carlos — É complicado
migrar para novas versões. Da primeira versão eu não aproveitei
nada para a segunda; e gastei uma fortuna.
José Victorino — Tenho
que extrair uma informação já pré-moldada do cubo; senão
o sujeito fica procurando uma informação no meio de uma reunião.
Tem de ser rápido. Agora estamos procurando no mercado uma ferramenta
de apoio ao planejamento; vamos continuar procurando porque o custo está alto.
Hoje trabalhamos mais o retrovisor mesmo. O pessoal
pegou gosto pela propriedade da informação,
olha as informações cadastrais
de ontem e olha um pouquinho o futuro. Optamos
pela centralização na controladoria,
que gera todas essas informações.
A área comercial quer saber coisas rápidas
e pontuais.
Pedro — Os cubos da primeira
onda da indústria farmacêutica já foram descartados; o processo
era pesado, do ponto de vista de tecnologia. Hoje há ferramentas mais
fáceis, mas continua sendo pesado. Nessa indústria, a informação
mais importante não está dentro, está em auditorias de
mercado, perfis traçados com pacientes e médicos. Você trata
volumes grandes de informações e precisa analisar e criar uma
inteligência em cima, porque todos os laboratórios do mercado
têm a mesma informação. Há dez anos, nós
usávamos um data warehouse [um grande banco de dados central]; hoje,
usamos datamarts [pequenos bancos de dados, descentralizados]. Hoje o usuário
quer índices, quer cockpits, quer a informação tratada
com apelo gráfico.
Estamos em falta com o usuário. Transformamos
o processo de gerar um relatório num processo
industrial. Quando alguém pede algo, é preciso
fazer a manufatura das informações,
guardar num armazém de dados, transportar,
mover. O projeto demora seis meses.
Walter — Quem não sabe o que
quer não sabe usar. Isso é básico. Mas o que você precisa
medir? O executivo não tem uma visão estruturada; ele também
não sabe bem o que pedir.
Pedro — Ele deveria ter.
Fizemos uma pesquisa há dois anos; a TI cumpria a parte operacional, entregar o
computador na data certa, a telefonia funciona, a Internet está no ar.
Mas entender e agregar ao negócio e ter um bom relacionamento era mais
difícil. Então colocamos pessoas de TI para ficar na área
de negócio. Melhorou um pouco.
Jedey — Não existe mais TI e
usuário; TI hoje é parte integrante da área de negócio.
O usuário não tem que ter idéia da complexidade; a gente
tem de ajudá-lo a converter os requerimentos de negócio e usar
a tecnologia.
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