| Cada
diretor de TI resolve o problema do controle
dos acessos à rede de um jeito. Uns obrigam
o usuário a trocar a senha a cada 30 dias.
Outros criptografam todo o conteúdo importante:
se houver uma falha de acesso, o ladrão
não terá o que roubar. Outros organizam
demonstrações práticas,
para mostrar ao usuário como é fácil
descobrir uma senha fraca. Existe uma solução
universal para melhorar a segurança: melhorar
processos, treinar pessoal e comprar ferramentas
adequadas. O problema é que, em cada empresa,
essa solução universal deve ser
traduzida em tarefas exclusivas.
A mesa-redonda foi coordenada por Wilson Moherdaui,
diretor editorial do Informática Hoje, e
por Márcio Simões, diretor de redação.
Participaram: Álvaro Teófilo, superintendente
de segurança da informação
do Santander Banespa; Carlos Pinheiro Palhares,
superintendente de segurança do Unibanco;
Diego Viégas, coordenador de TI do Ministério
do Planejamento, Orçamento e Gestão;
Eduardo Ávila Pinto Coelho, gerente de TI
do Banco Panamericano; Eliza Hitomi Fukushigue
Mihaguti, gerente de arquitetura e segurança
em TI da Petrobras Distribuidora; Fabio Ferreira,
diretor de TI da Accor Hotéis; Fernando
Menezes, superintendente de TI da Sabesp; Gilson
Marques da Silva, assessor de segurança
da informação da CTBC; Jorge Kentaro
Matsumoto, gerente do departamento de segurança
da informação do Banco Sumitomo Misui
Brasileiro; Leonardo Brandão de Oliveira
e Britto, superintendente de TI da Empresa de Tecnologia
da Informação e Comunicação
do Estado de São Paulo (Prodam); Lisias
Lauretti, CIO da Tecnologia Bancária (TecBan);
Luiz Alves dos Santos, diretor do departamento
de desenvolvimento de sistemas do Banco Bradesco;
e Sergio Cloves, CSO da VisaNet Brasil.
IH — Como gerenciar riscos e como mudar
a cultura, numa empresa obrigada a comprar produtos
e serviços por meio de licitações?
Fernando — A Sabesp tem uma rede de 14
mil pontos em São Paulo e em mais 367
municípios. Atendemos do presidente ao
pessoal da operação. Controle de
acesso sempre foi uma preocupação,
mas depois precisamos buscar alternativas para
atender as exigências da Sarbanes-Oxley.
O brasileiro é especializado em dar jeitinho,
e é complicado fazer com que essa rede
toda siga procedimentos; a auditoria apontou
o controle de acesso como um ponto fraco nosso.
Então eu disse: quem não estiver
enquadrado, suspende o acesso à rede.
Aí todo mundo correu para atender as exigências.
Mas precisamos monitorar isso permanentemente;
ainda temos problemas.
Bancos são mais rígidos. Numa reunião,
propus o seguinte: bloqueamos o acesso de quem
sai de férias. Mas não pode. Outro
ponto: nas pontas, no pessoal de campo, é comum
o desvio de função. O sujeito se
acidenta, ele é encanador, e aí ele
passa a ser atendente comercial no escritório.
Não podemos mexer na estrutura de cargos — então,
um encanador entra no sistema comercial para
autorizar uma reforma de conta.
Para aumentar a segurança, tentamos atuar
fortemente no processo. Se a gente não
mexe no processo, não adianta nada. E
também usamos ferramentas que nos ajudem
na segurança. Sem mexer no processo, não
adianta ter as ferramentas.
IH — As auditorias aceitam essas soluções
de compromisso?
Fernando — Aceitam. Na SOX, existe o famoso
controle compensatório [para anular a
possibilidade de algum erro num processo mal-ajambrado].
Os consultores falam muito de materialidade.
Numa cidade com só 400 ligações
de água e esgoto, qual o problema do sujeito
que sozinho revisa contas e devolve um dinheiro
para o cliente? Ele faz tudo. O consultor diz:
Ah, precisa ter segregação de funções.
Mas qual é a materialidade dessa operação,
caso o sujeito esteja fajutando algumas operações?
Se juntarmos tudo, dá menos de zero-vírgula-alguma-coisa
da nossa receita. Não vale a pena complicar
o processo só por causa disso.
Álvaro — De cada dez fraquezas materiais
declaradas pelas empresas em balanço,
oito estão relacionadas com controle de
acesso. Nos bancos, um dos motivadores do investimento
em controles são as questões trabalhistas.
Alguns advogados, quando a pessoa sai, já ficam
prontos com o formulário-padrão,
querendo saber se a pessoa fez horas extras,
se trabalhou durante as férias.
No Santander, ninguém está autorizado
a trabalhar durante as férias; o sujeito
nem entra no banco, porque o bloqueio é físico
e lógico. Só oito ou nove pessoas
dentro do banco têm alçada para
liberar alguém de férias.
Neste momento, estamos implementando o controle
de todas as portas do computador.
Palhares — Esse negócio vai dar
um trabalho do cão, porque cada dia aparece
uma porta nova.
Álvaro — Tem soluções
que já permitem uma gestão completa:
podermos liberar, por exemplo, uma porta USB
específica para um equipamento específico.
Colocamos até o número de série
do equipamento, e definimos os direitos do equipamento,
se ele pode gravar, se pode ler.
IH — O custo-benefício desse tipo
de controle vale para todas as empresas, ou só para
bancos?
Palhares — A administração
disso é uma loucura, porque temos 30,
40 mil equipamentos, e precisamos gerenciar as
portas de cada um deles. Hoje tem as portas USB,
mas tem o infravermelho, tem o Bluetooth, daqui
a pouco tem o yellowtooth.
Resolvemos adotar uma solução diferente:
o que é importante proteger? É a
informação. Então, criptografamos
as informações em todo lugar. O
sujeito pode usar um pen drive, copiar tudo o
que está no computador, mas não
vai ler nada.
Fabio — Essa é uma decisão
da alta administração. A área
de TI é operacional, e deve equilibrar
o custo, a qualidade e o risco. Equilibrar esse
trinômio é complicado, e não
pode ser decisão da área de TI.
No exemplo do contencioso trabalhista, é algo
mais mensurável. Nem sempre temos coisas
tão mensuráveis assim para colocar
na equação.
Álvaro — Tudo o que estamos falando
aqui é cultural, e a alta administração é o
grande ponto.
Lisias — Quando a alta administração
delega isso tudo, a partir do momento em que
delega já restringe a eficiência,
em termos de processos e pessoas. Mudança
que vem de cima para baixo é mais eficiente.
A parte das ferramentas já é a
parte da execução.
Álvaro — Há pouco tempo saiu
a resolução 3.380 do Banco Central,
que exige a criação da área
de riscos operacionais. Eu mesmo já não
sou mais da tecnologia, sou da área de
riscos operacionais. Assim fica mais fácil
demonstrar para a alta administração
quais são os problemas.
IH — A área de TI, com a SOX e
tudo o mais, tem o poder coercitivo necessário
para promover os investimentos em segurança?
Álvaro — Só um lembrete:
poucas vezes eu usei o argumento da SOX para
investir em alguma coisa. Já usei o argumento
da gestão de riscos, isso sim.
Gilson — Na CTBC, nós temos duas
culturas. Um pedacinho da CTBC é como
se fosse um banco: é o nosso call center.
Se o sujeito sai de férias, ele é bloqueado
na catraca e no sistema. O turnover é alto,
as pessoas não fazem grande diferença.
Outro pedaço é a parte de telecomunicações:
ninguém é bloqueado. A parte de
telecom é mais flexível, é outra
realidade. E olha que interessante: a alta administração é a
mesma.
Eliza — Na BR nós usamos poucas
ferramentas. Nós atuamos muito mais nos
processos. O Cobit trouxe uma série de
boas práticas, que nos permitem saber
que processos devemos atacar de forma organizada,
com metas e tudo o mais. E trouxe uma forma de
medir os riscos que corremos. Dá para
ficar mais dentro do custo-benefício do
negócio.
Palhares — E quando estamos mexendo com
processos, cultura, políticas e pessoas,
em geral o investimento é menor, comparado
com o investimento em ferramentas.
Mas a mudança cultural no banco nem é por
causa da segurança. Antes o tratamento
que se dava para as pessoas era: isso aqui é o
banco e você é você, você está aqui
só para trabalhar. Hoje é assim:
isso é seu também, é um
patrimônio seu. Esse movimento vem acontecendo
independente da segurança, mas a segurança
entra junto.
IH — Como é a cultura num banco
japonês?
Jorge — Vale ressaltar que a segurança
da informação não é um
produto, ou um pacote, mas é um processo
sem fim, que depende de várias áreas — da
controladoria, do jurídico, da tecnologia,
do RH.
Buscamos a conscientização do usuário,
e explicamos os riscos com o dia-a-dia da pessoa.
Algumas ferramentas são proibidas no banco,
mas as pessoas usam essas ferramentas em casa;
então a gente divulga também as
ameaças relacionadas com essas ferramentas,
para gerar a conscientização. Se
ele se preocupa com o pen drive, com o e-mail
e com o PC em casa, ele leva essa preocupação
para a vida profissional. Mas é claro
que a disciplina oriental ajuda bastante.
Álvaro — Eu prefiro trabalhar com
o conceito de segurança por transparência.
Boas soluções de segurança
são as que funcionam sem a intervenção
da pessoa. Conseguimos fazer com que o disco
inteiro do notebook seja criptografado. A chave é a
própria senha de rede do funcionário.
Não acredito que as campanhas de conscientização
funcionem direito. Quando o cliente fica em frente
do banco via Internet, toda vez, tem uma mensagem
lá: nunca pedimos senhas. A gente fala
isso toda vez e todo dia. Não adianta
fazer campanha sobre isso. E o resto tem de ser
processo automático.
Jorge — Volto a dizer: a segurança
da informação é feita por
camadas e por diversas soluções.
Jamais vou atingir a eficiência só com
uma solução técnica, ou
processual, ou de conscientização.
O grande X da questão é definir
as regras; para seguir um guia, primeiro precisamos
de um guia formalizado.
Por exemplo: criamos uma norma específica
para o controle de acesso, onde a gente determina
quem é o dono da informação,
e quem responde pela informação
na ausência do dono. Para todo sistema
temos a definição do perfil de
acesso, atrelado ao departamento e ao cargo.
Começamos a controlar isso com planilhas
Excel, mas hoje o controle está semiautomatizado.
Só isso basta? Obviamente não.
Depois vem o monitoramento. A cada método
novo de monitoramento, a gente identifica um
evento diferente.
Luiz — Acho que um primeiro passo é comunicar
o que pode e o que não pode, o que a empresa
permite e o que não permite. Isso é um
trabalho permanente, precisa estar sempre na
pauta.
Diego — O Ministério do Planejamento,
Orçamento e Gestão faz exatamente
isso: planeja, orça e gerencia as coisas
do governo federal; todas as contas do governo
passam pelo ministério, todos os recursos
humanos do governo passam pelo ministério.
Eu sinto inveja de vocês, porque não
temos esses padrões [como a Sarbanes-Oxley].
Eduardo — O problema é cultural,
porque as pessoas têm nas mãos máquinas
poderosas, com capacidade de armazenamento violento,
e não sabem usá-las. Gestão
de conteúdo é interessante, mas
acho que o remédio precisa ser do tamanho
da doença.
Leonardo — Dentro da Prodam, temos informações
que não pertencem à Prodam, mas à prefeitura
e à sociedade. Nossa rede tem mais ou
menos 35 mil pontos, com perfis os mais diversos
possíveis. Cada secretaria determina mais
ou menos as suas regras, e a Prodam determina
outras regras, e a gente vai ajudando e tentando
se alinhar. Com o governo eletrônico, as
processadoras precisam abrir as informações,
mas ao mesmo tempo garantir que as informações
não serão usadas indevidamente.
E depois surgiu a nota fiscal eletrônica,
que é um sistema monetário. Só que
as processadoras ainda não estão
preparadas para proteger sistemas monetários
como os bancos estão; então, a
corrida está feia.
Então, nós também estamos
priorizando a proteção das informações.
Os investimentos em iniciativas como a nota fiscal
eletrônica já acontecem com mais
freqüência, mas sem uma visão
unificada da segurança do patrimônio
da sociedade.
Diego — No ministério, por melhores
que sejam os sistemas, os processos e as pessoas
que têm acesso ao miolo dos sistemas estão
muito a descoberto. A gente mal falou de tecnologia
aqui. Acho que a questão são os
processos mesmo.
Leonardo — Uma das poucas regras de segurança
que temos: periodicamente, 30 mil servidores
[funcionários] precisam trocar a senha.
A reclamação é diária;
o sujeito não quer trocar a senha.
IH — Os órgãos públicos
têm poder coercitivo sobre os funcionários
públicos?
Diego — Não como no setor privado.
Temos dificuldade para impor regras aos servidores
públicos; os servidores se sentem donos
da infra-estrutura. Afinal de contas, eles fazem
parte do governo. Coisas simples, como a troca
de senhas, são difíceis de implementar.
Leonardo — Existe um comitê, formado
por secretários e pelo presidente da Prodam,
para definir as políticas de informática;
mas, como a Prodam é um órgão
executor, as políticas precisam passar
por uma análise da própria Prodam.
Muitas vezes, a política se transforma
em decreto-lei. Mas a execução
dos decretos e das políticas é trabalhosa:
são vários órgãos
diferentes, que às vezes pertencem a partidos
diferentes.
IH — Na Prodam, gestão de identidades é possível?
Leonardo — Quase impossível. Estamos
fazendo agora a segmentação da
rede, com rede específica para a educação,
para a saúde, etc. E estamos aplicando
regras nessas redes.
Álvaro — O próprio governo
americano está cheio de fraquezas materiais
em relação à Sarbanes-Oxley.
E, como eles dizem, eles se relacionam com governos
hostis.
Diego — O perigo maior, no caso do nosso
governo, não está fora, mas dentro.
Veremos problemas como corrupção,
desvios de recursos, em que o cerne do problema
será a tecnologia. Os órgãos
controladores estudam como as pessoas podem chegar,
por meio da tecnologia, aos recursos em si. Minha
maior preocupação é justamente
o acesso aos dados; temos muita informação
no ministério.
Eliza — Logo que o funcionário novo
entra na Petrobras, já se interessa em
conhecer a classificação das informações,
em saber como deve manusear as informações
confidenciais.
No último um ano e meio, fizemos uma campanha
enorme, mas a área responsável
pela campanha é a de documentação
técnica. Mas nos concentramos só nas
informações básicas, por
enquanto.
Na BR, nós mapeamos todos os processos
de negócio; foram 1.800 processos mapeados.
Identificamos as entradas e saídas dos
processos, e identificamos as informações
fundamentais. Agora, a documentação
técnica faz uma classificação
geral dessas informações, com a
ajuda de cada um dos gestores. O próximo
passo são as políticas de manuseio.
Palhares — Quando eu junto a informação
A, de peso 1, com a informação
B, de peso 2, a somatória dá 5,
e não 3. O pessoal pode manusear essas
informações? Pode, se trabalhar
dentro de um ambiente bem fechadinho. Só o
pessoal de segurança pode extrair informações
olhando a classificação, olhando
o uso e o destino.
Lisias — É importante ter conseqüências
também. Se criamos dentro da empresa as
práticas e tudo o mais, toda vez que houver
algum tipo de sinistro ou de ocorrência,
tem de haver punição e divulgação.
Jorge — No Sumitomo Mitsui, deixamos claro:
as regras de segurança não são
implementadas em função da confiança
ou da desconfiança em alguém, mas
em função de vulnerabilidades e
ameaças ligadas aos processos de negócio.
Quando demonstramos como é fácil
quebrar uma senha fraca com um programa vendido
em banca de jornal, o usuário passa a
entender por que aplicamos determinadas regras.
IH — Como vocês têm informatizado
a gestão da identidade dos usuários?
Eliza — Estamos fazendo um trabalho de
instalação de sincronismo de senha.
A gente sempre fala de cultura, mas temos um
problema sério no sincronismo das senhas,
porque mantemos ambientes muito diversos. Aprendemos
uma coisa: tem de testar muito. Fizemos um piloto
dentro da área de TI. Divulgamos a iniciativa
em n canais de comunicação — revista,
intranet, palestras, tudo. Mas as pessoas não
aderiram. Talvez nossa comunicação
não tenha sido tão focada assim.
Voltamos atrás, e fizemos uma campanha
mais direta, para fazer as pessoas entrarem no
projeto.
Álvaro — No processo de revisão
dos direitos de acesso, a gente só conseguiu
fazer a coisa funcionar bem quando determinamos
que o responsável pela revisão é o
cidadão que precisa do acesso, é ele
que tem que iniciar o workflow.
Eliza — A própria pessoa.
Álvaro — A própria pessoa.
Eliza — Elas têm que pedir acesso
de novo.
Álvaro — Sim.
Gilson — Mas esse processo não te
traz problema com auditoria?
Álvaro — Muito pelo contrário,
porque seguimos um fluxo de aprovação, é como
se fosse um novo acesso.
Sergio — No
nosso caso, nós trocamos
a senha a cada 30 dias. É obrigatório,
não tem exceção. Montamos
um serviço self service para a troca de
senha. Se o usuário esquecer a senha ou
tiver um problema, ele abre um pedido nesse serviço.
Com essa providência, nós reduzimos
em 90% os chamados para a assistência técnica.
Estou falando só dos funcionários.
No call center, onde temos uma quantidade maior
de problemas, gerenciamos tudo isso a quatro
mãos com o fornecedor.
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