| SOA é um tipo de filosofia
de vida, dizem alguns dos CIOs nesta mesa-redonda;
mas, a julgar pelo vocabulário empregado
(barramento, repositório de metadados,
etc.), SOA ainda é vista pelos profissionais
de TI como um problema de infra-estrutura. Provavelmente,
as duas visões de SOA (e de BPM) estão
corretas. BPM e SOA são filosofias de
vida, e também são problemas de
infra-estrutura.
A mesa-redonda foi coordenada por Wilson Moherdaui,
diretor editorial do Informática Hoje, e
por Márcio Simões, diretor de redação.
Participaram: Antônio Mariano, superintendente
de infra-estrutura tecnológica da Liberty
Seguros. Cláudio Martins, diretor de TI
da General Motors. Fabiano Borges, gerente de desenvolvimento
organizacional e de TI do Centro de Gestão
de Meios de Pagamento (Pedágio Sem Parar/Pedágio
Via Fácil). José Roberto Cardarelli,
gerente de TI da Aços Villares. Leão
Carvalho, diretor-presidente da Prodesp Tecnologia
da Informação. Manel Benazet, CIO
regional da Telefônica na América
Latina. Márcia Arruda, gerente de desenvolvimento
web da SulAmérica Seguros. Marcio de Souza
Tibo, superintendente de suporte ao desenvolvimento
da Prodam. Rodrigo Evangelista de Castro, gerente
nacional da Caixa Econômica Federal. E Walkiria
Shirrmeister Marquetti, diretora da área
de tecnologia de negócios do Bradesco.
IH — Quais são
as vantagens e dificuldades trazidas por BPM
e SOA?
Manel — Desde janeiro, sou o CIO regional
da Telefônica na América Latina,
responsável pelas 18 operações
da Telefônica do México para baixo.
Antes disso, durante três anos fui o responsável
pela Telesp em São Paulo.
Estamos substituindo os sistemas legados de todas
as operadoras. Muitas eram estatais, com sistemas
legados importantes. Queremos substituir, em
todas as operações, blocos de sistemas
por sistemas únicos. Abordamos o tema
da arquitetura. Já fizemos alguns testes
de conceito no Peru, no Brasil, no Chile e na
Argentina. Fizemos algumas experiências
melhores, outras piores.
Fundamentalmente, começamos pelos sistemas
de tramitação e pelos sistemas
de barramento, os que grudam todos os sistemas
com função específica.
Já implementamos, com tecnologia BPM e
com uma abordagem de SOA, sistemas de tramitação
de pedidos e de ordem de serviço, para
apoiar as operações do dia-a-dia.
Fizemos isso em três operações;
pretendemos fazer em sete. No caso de sistemas
de apoio ao negócio, mandamos neste momento
uma equipe ao mercado, um monte de fornecedores
participam; faremos a implementação
no primeiro semestre de 2008.
Precisamos fazer ainda grandes coisas para dizer
que temos maturidade em SOA, mas já constituímos
esse projeto com repositório, gestão
de componentes. Até já conseguimos
reusar alguma coisa, mas não tiramos muito
proveito do reuso.
Esse é um dos grandes problemas: precisamos
de muita disciplina depois da SOA para tirar
proveito de todo o investimento.
IH — Falta fazer o quê?
Que grandes coisas?
Manel — É complicado alinhar processos
como os nossos em âmbito global.
O funcionário costuma se virar com os
sistemas, principalmente legados, e costuma conhecer
as restrições dos sistemas. Então
ele muda os processos por fora, sem necessariamente
pedir mudanças no sistema.
Quando vemos a necessidade de apoiar o negócio
com sistemas baseados em processos, e quando
os funcionários acham que não devem
informar as mudanças nos processos, vira
um pesadelo mudar o modo como disparamos esse
serviço em campo. Os funcionários
mudaram coisas no meio, mas não informaram.
Num primeiro momento, essas mudanças não-informadas
não provocam impacto; mas aí nós
mudamos os processos e essas mudanças
não-informadas provocam impacto sistêmico.
A empresa deve entender que, para mudar processos
de forma estruturada e para aproveitar os investimentos
feitos em BPM e SOA, a disciplina com os processos
precisa ser germânica. Mas somos muito
latinos.
Esse é um dos nossos desafios. Algumas
mudanças nos pegam de surpresa, porque
afetam coisas das quais nem tínhamos conhecimento,
porque alguém em algum momento mudou uma
parte do processo e não informou.
Eu brinco sempre: precisamos dessa disciplina
germânica para depois desfrutar da condição
de latino, para criar.
Temos também desafios importantes na segurança,
no repositório; esses temas ainda não
estão sólidos.
Márcia — Há um tempo atrás,
a SulAmérica descentralizou a informática.
Durante uns anos, os funcionários da TI
trabalham debaixo das unidades de negócios,
das BUs. Como eu trabalho na unidade de negócios
de saúde, durante uns anos eu fiz parte
do time da BU Saúde. Nesses anos, conseguimos
mostrar à diretoria de cada BU que poderíamos
fazer algumas coisas. Por exemplo, tomamos a
iniciativa de componentizar a informática.
Há uns dois anos e meio, convertemos todos
os nossos componentes de Visual Basic em Java,
pensamos em reuso, pensamos que nos comunicaríamos
com nossos fornecedores por meio de componentes,
sempre conversando no mesmo padrão e no
mesmo modelo. Demoramos em torno de um ano para
converter todos esses componentes.
Ainda temos um pouco de legado, ainda temos VB
(que convertemos para .NET).
Nesse período, tocamos uma iniciativa
de BPM. Os usuários queriam saber onde
estava o reembolso deles dentro da SulAmérica.
Na web, tudo o que dizíamos era: em análise,
em análise. Montamos um fluxo de documentos,
e conseguimos dar uma resposta melhor para o
usuário por meio do site.
Então, essas duas ações
nós já implementamos.
Mas sentimos falta de algumas coisas. Por exemplo:
fazia parte do projeto de componentização
criar um banco de componentes, aos cuidados de
arquitetos, para que realmente tivéssemos
reuso. Precisávamos de investimento, mas
ninguém da BU conseguia ver nada de palpável
nisso. Então, a BU dizia: em vez de fazer
isso, vamos implementar aquela tela lá na
ponta.
Não abandonamos a iniciativa, mas ela
anda a passos de tartaruga.
Quanto ao BPM, é algo já implementado
na SulAmérica; nossa tecnologia fala com
a plataforma alta e a baixa. Montamos um robô para
levar e trazer informações da plataforma
alta.
Rodrigo — A
Caixa vem estudando BPM e SOA faz dois anos;
uma das dúvidas é como
começar. Os fornecedores de tecnologia
prometem muita coisa, e ao longo do tempo a gente
se frustrou com algumas das promessas.
Logo no começo nós definimos uma
estratégia para vender BPM e SOA dentro
da Caixa. Elegemos um projeto campeão
e desafiamos os fornecedores a mostrar que isso
funciona. Se a tecnologia funciona num projeto
campeão, a gente consegue vender isso
mais fácil para os executivos da Caixa.
Para escolher o projeto campeão, mapeamos
a estratégia empresarial da Caixa, a estratégia
para os próximos cinco anos, e identificamos
os projetos críticos para suportar essa
estratégia empresarial.
No processo crítico escolhido, aplicamos
BPM: desenhamos o processo, simulamos, otimizamos
e automatizamos o processo. Nesse momento da
automatização, surgiu uma outra
tecnologia, a SOA. Percebemos que tudo o que
queremos automatizar, numa empresa como a Caixa,
de 146 anos, com 500 sistemas corporativos, já está implementado
em algum lugar.
Nosso trabalho foi identificar os serviços
nos sistemas legados, conectá-los numa
infra-estrutura de barramento, que suporta a
tecnologia SOA, para utilizá-los como
serviço.
Integramos plataformas alta, média e baixa,
integramos sistemas legados com tecnologia Java,
Cobol e Visual Basic, integramos os bancos de
dados DB2, Oracle, Sybase e SQL Server.
Na nossa avaliação, é um
projeto de maturidade 5, numa escala de 1 a 7;
só não chegamos ao nível
6 ou ao nível 7 porque ainda não
usamos a tecnologia grid.
Em termos de resultados, reduzimos o tempo de
execução desse processo campeão,
do começo ao fim, em mais ou menos dez
vezes, com uma série de benefícios
a mais em relação ao processo anterior.
Antes, o operador precisa acessar mais de um
sistema; hoje ele usa uma única interface.
Já conseguimos medir os resultados e a
facilidade na operação. E com isso
a gente consegue vender BPM e SOA para a Caixa.
Nos preocupamos agora com o número de
transações. Estamos chegando à marca
de 1.200 transações por segundo.
Mariano — Na
Liberty, sou muito mais ligado à arquitetura
em si do que ao desenvolvimento. Desde o ano
passado a gente discute SOA e BPM na Liberty;
cada país tem uma independência
muito grande em termos de tecnologia. Logo, a
discussão sobre qual tecnologia adotar
e como implementá-la depende de cultura
para cultura. No Brasil, somos arrojados na tecnologia,
mas, durante esse processo de discussão,
descobrimos que não vale a pena entrar
forte, em especial na SOA.
Então resolvemos otimizar nossa arquitetura,
baseada em Java e .NET, e transformar tudo o
que temos em serviços de infra-estrutura
e em serviços aos negócios, serviços
que sejam consumidos pelas aplicações
que viermos a desenvolver. Já temos alguns
exemplos de sucesso.
Temos um processo de sinistro importante para
a operação da Liberty, e já automatizamos
esse processo com um workflow muito bem escrito.
Essa é a primeira parte do BPM: um workflow
bem estruturado.
Não temos gestão de conteúdo,
nem orquestração, nem facilidade
para testes, testes de alteração
nos fluxos do negócio, que os produtos
de BPM nos oferecem.
Fabiano — Nossa empresa é jovem,
tem sete anos, está crescendo, e convivemos
até agora com uma solução
caseira minimalista. Vivemos um conflito entre
as demandas da empresa e nossa capacidade de
atendimento. Problema de arquitetura foi o passo
para falar seriamente de SOA na empresa; com
a dificuldade de atendimento, ficou mais fácil
mostrar o problema.
Começamos então a falar de processos
para os negócios, sem recorrer à figura
do analista de negócios (até parece
que o analista de sistema é um ser humano
incapaz de se comunicar com o negócio).
A tecnologia fez um pouco esse meio de campo
entre a tecnologia e a empresa, por causa de
XML, por causa dessas adições de
significado, de semântica.
Curiosamente, ao dar uma resposta com a tecnologia,
vemos problemas na empresa: precisamos alinhar
a TI aos negócios, como diz o clichê (como
se a tecnologia vivesse alienada do negócio),
mas vemos que precisamos alinhar o negócio à estratégia.
Por que tudo isso? Porque não fizemos
a lição de casa: os processos não
estão bons ainda, não estão
maduros.
Então, hoje nós tocamos um projeto
de SOA, partindo da infra-estrutura. Ora, já que
precisamos ajudar a empresa a estabilizar sua
visão dos processos, vamos então
atacar pelo não-funcional.
Estamos fazendo um trabalho de desenho e redesenho
de processos de negócio, de mapeamento,
isso numa gestão conjunta, eu e o gerente
responsável pela área de processos
e de qualidade. No futuro, a idéia é convergir
SOA com BPM.
Fazemos tudo isso patrocinados pela presidência
da empresa. Por exemplo, congelei o backlog [a
lista de projetos na fila de espera] para dar
foco nesse trabalho de SOA. Meu compromisso é agir
rapidamente e incluir esse backlog como requisito
funcional no novo sistema. Esse desafio pode
custar minha cabeça.
José Roberto — Na Aços Villares,
iniciamos em 2006 um trabalho bastante focado
em BPM. Montamos um grupo pequeno, debaixo da
TI, para mapear os processos de negócio.
Um incômodo nessa área: o usuário
chega dizendo que existe um problema no sistema,
mas, quando vamos desvendar, ele mudou o processo
e o sistema não foi desenhado para essa
nova condição.
Por isso estamos criando uma base de conhecimento
dos processos, ainda embrionária. Criamos
um modelo para alguns processos.
Nos últimos três anos, a Villares
investiu num ERP, fortaleceu as áreas
de negócios, e, com base nessa iniciativa,
estamos mapeando os processos, definindo a cadeia
de valores. Precisamos analisar e montar um plano
global de arquitetura para a empresa. Se não
fizermos isso bem, nunca vamos quebrar o ciclo,
de atender às demandas. Precisamos criar
um repositório de serviços, ou
de elementos de serviços, mas para isso
preciso mudar um pouco o perfil da equipe de
TI, para ficar mais próximo de um arquiteto.
Começamos com projetos de impacto, que
sejam carro-chefe, porque na indústria
concorremos com os investimentos no forno, na
linha de produção. É difícil
vender essa idéia de BPM e de SOA numa
mesa em que outro diretor de negócios
pede dinheiro para algo muito mais palpável.
Então, nossa estratégia é ter
a visão completa, mas trabalhar por partes,
para criar esse repositório, esse barramento
de serviços.
Cláudio — Nesse negócio de
fabricar carros, é vital sobreviver no
mundo globalizado, porque os nossos competidores
estão espalhados pelo mundo inteiro. É uma
dificuldade organizar uma empresa que opera em
167 países.
Eu considero SOA uma filosofia.
Outro dia, um sistema ficou for do ar por um
tempo considerável, então eu falei
para o executivo da área: vamos fazer
isso por um processo manual. Ele falou: não
vamos não, porque não dá;
do tamanho que está esse negócio,
no manual ele não funciona mais, então
vamos esperar.
Então, a TI não é mais uma
unidade de serviços; ela é uma
peça fundamental na operação
de qualquer empresa. Sem a TI, muitas unidades
da empresa não funcionam mais.
Desde que eu comecei na área de TI, deve
fazer uns 32 anos, a gente fala de otimização
dos processos, de mexer no processo antes de
fazer o sistema. Mas, sem o pessoal de negócios
do nosso lado para especificar claramente o processo,
com SOA ou sem SOA, vamos ter problema na hora
de construir a solução.
Uma coisa interessante da SOA: não precisamos
trocar o legado por um sistema novo. SOA não
significa remover, mas reutilizar. Já gastamos
muito dinheiro removendo legados. Mas, até que
a SOA esteja estável e até que
demonstre seu valor, a gente vai continuar tentando
remover os legados, porque a GM tem 126 anos.
Mas, quando a gente fala de SOA, fala de barramento,
repositório, evento. Para mim, isso é infra-estrutura
de TI; se eu falar disso com o pessoal de negócios,
não consigo vender SOA. Acho mais fácil
discutir com ele outras coisas. Até porque
essa SOA não está funcionando direito,
pelo que sei. O pessoal fala em barramento e
não sei o quê, mas, quando põe
o barramento para funcionar, começa a
dar congestionamento dos dados.
Numa empresa como a minha, para colocar SOA e
substituir tudo o que temos, vai levar talvez
uns 20 anos. Nesse meio tempo surge a SOA 2,
a SOA o Retorno. Precisamos aproveitar as coisas
boas nessas arquiteturas, e ir tocando.
Walkiria — No Bradesco, a área de
tecnologia mantém profissionais lotados
nas unidades de negócios, capturando necessidades,
identificando oportunidades, e formatando os
pedidos para a construção de soluções.
No tema SOA e BPM, gosto mais de discutir os
conceitos, do que discutir as questões
tecnológicas, até porque os projetos
fracassam porque não fica claro o que
se pretende atingir com o projeto.
Na verdade, dentro do banco, discutimos essas
questões há anos, mas os negócios
ficam mais complexos, e as discussões
ficam mais complexas também.
Há dez anos a maioria dos bancos faz análise
de crédito praticamente em real time;
isso exige rever os processos, as políticas,
as variáveis de avaliação
do crédito, e exige adicionar ferramental.
No Bradesco, discutimos até a semântica,
para colocar cada função de negócio
numa linguagem única. Isso faz parte do
desafio contínuo de evolução
da arquitetura. Tiramos a linguagem técnica
para discutir os processos de negócios.
Hoje, todos os executivos do banco têm
uma visão clara do modelo macro de arquitetura.
A gente usa a palavra alinhamento nessa discussão,
mas, na verdade, é uma construção
em conjunto, lado a lado, inclusive a construção
do linguajar.
Outro ponto crítico, concordando aqui
com o Manel, é garantir a evolução
do modelo, para que ninguém desenvolva
alguma coisa por fora. A governança dessa
arquitetura precisa ser forte; toda nova necessidade
precisa ser discutida e apreciada. Mas uma visão
compartilhada da arquitetura facilita o trabalho
de governança, pois sabemos que, se mexemos
em alguma coisa aqui, vamos interferir em alguma
função de negócio ali.
Um ponto delicado é a estrutura: com essa
nova filosofia, surgem novos papéis — o
gerente de projetos, o arquiteto. Surge a necessidade
de capacitar o pessoal.
Marcio — A evolução dos conceitos
e das tecnologias é meio em espiral, e
não cíclico. Eles passam de forma
diferente pela gente; a gente olha e parece que
a gente conhece, mas eles vêm com alguma
coisa diferente. Em parte, isso acontece porque
nós, os profissionais de TI, sempre buscamos
novas soluções e novas tecnologias
para resolver velhos problemas, os velhos problemas
que não conseguimos resolver: agilidade,
produtividade, qualidade, e outros problemas
dessa ordem.
Não é que o problema não
mude. O problema também se sofistica,
se torna mais exigente. E é assim que
eu vejo SOA e BPM. Na Prodam, pela convivência
com os legados e pela diversidade de processos,
planejamos alguns projetos-piloto.
Leão — Na Prodesp, criamos há pouco
tempo uma área de sistemas internos. Temos
uma fragmentação de sistemas muito
grande dentro da Prodesp, e estamos trabalhando
para acabar com essa fragmentação.
Andamos tão ocupados tentando organizar
a vida de nossos clientes que não tivemos
tempo para organizar a nossa própria vida.
Então, essa é uma frente importante
de trabalho, não só para os sistemas,
mas também para os processos. Tenho falado
isso para o pessoal da Prodesp: antes de dizer
para os outros o que eles têm de fazer,
vamos ver se conseguimos fazer a mesma coisa
internamente, vamos usar a nós mesmos
como um grande piloto, até para mostrar
as metodologias utilizadas.
Levantamos os nossos principais processos e fizemos
uma lista. Um deles precisava urgentemente de
solução: era o nosso processo de
licitação. Já conseguimos
fazer em dois, cinco dias de trabalho o que antes
levava 25, 80 dias de trabalho.
O pessoal usava computador, e todos os sistemas
da empresa estavam à disposição
do grupo, mas faltava compreender melhor os problemas
alheios. Isso era mais crítico do que
colocar fluxos dentro dos sistemas. O importante é o
processo; a tecnologia é o suporte para
que o processo funcione.
Mas os clientes da Prodesp dentro do estado não
estão acostumados com isso: eles estão
acostumados com a Prodesp fazendo sistema. Isso
não é uma crítica, porque é fácil
criticar. Deve ser assim em vários outros órgãos
do Brasil. É impressionante o que tem
de legado no governo.
E não existe uma visão do todo.
Por isso temos de falar de SOA e de BPM.
Sempre que somos chamados, sugerimos o enfoque
de aglomerar os processos, ou seja, de aglomerar
os problemas que precisamos resolver, antes de
sair correndo para enfrentar um por um.
Não há resistência interna
dentro da Prodesp, o que ajuda bastante, porque
encontrei lá pessoas ansiosas para trabalhar
com esse tipo de coisa.
O cliente da Prodesp compra serviço da
Prodesp porque não tem escolha; evidentemente,
isso gera tensão. Se a gente faz alguma
coisa errada... Então, estamos tentando
ganhar o pessoal pela qualidade, mostrar que é prestação
de serviço mesmo.
Estamos aprendendo como abordar a revisão
dos processos, não na teoria, porque na
teoria todo mundo sabe, mas na prática
do governo.
IH — E como funciona a comunicação,
a divulgação desses projetos complicados,
sofisticados?
Manel — Fizemos um primeiro projeto para
acreditar, para aprender. E depois até fizemos
vários projetos assim. Tivemos de procurar
na TI gente capaz de falar desses projetos sem
cair nos barramentos, nos orquestradores. Dissemos
para os outros executivos que precisaríamos
deles para fazer um investimento grande e transformar
a empresa, simplificar nossa vida, para mexer
nessa quantidade de interfaces entre sistemas
legados — e nem todas estão mapeadas,
porque são o fruto de muitos anos de trabalho.
Nesse momento, temos líderes em cada uma
das 18 operações regionais, com
uma liderança mais forte supra-regional.
IH — Alguma
empresa aqui mudou o organograma e, em vez de
chefe de departamento, agora tem chefe de processo?
[TODOS — Não.]
Leão — Na Prodesp, montamos uma
célula, com uma pessoa de tecnologia,
uma de jurídico, uma de suprimentos, e
o dono da demanda. Com todos sentados em torno
da mesa, o trabalho sai mais rápido. Então,
não eliminamos o processo, que permanece
igual, mas eliminamos as interfaces, diminuímos
o tempo que leva para a informação
fazer o percurso.
Walkiria — Uma arquitetura bem desenhada
ajuda a visualizar tudo isso, porque vamos sempre
ter os departamentos especializados.
Rodrigo — A Caixa tem os vários
departamentos num único processo, mas
como os departamentos já existiam de longa
data, cada departamento criou o seu sistema.
E o atendente usava oito sistemas para fazer
aquele processo de ponta a ponta.
A SOA nos proporcionou vislumbrar o processo
do início ao fim, independente de departamentos,
plataforma, banco de dados, etc.
José Roberto — Estamos pensando
em montar uma área de apoio aos processos,
como um escritório, para apoiar os gestores.
Cada gestor muitas vezes enxerga só a
sua área, mas não o que vem à jusante
e à montante — muitas vezes as interfaces
são obscuras.
Leão — Estou sugerindo na Prodesp
a montagem de um grupo especializado em regras
de negócio, inclusive com local físico
separado, para assim dizer: aqui está a
enciclopédia de regras de negócio
do governo do estado.
Se a gente não sabe isso, a cada vez que
contratamos um terceiro para nos fazer um sistema,
corremos o risco de entregar um pedaço
dessa memória de regras de negócio
para o terceiro.
Rodrigo — Eu gostaria de compartilhar duas
preocupações com vocês sobre
BPM. Praticamente todo mundo trabalha com fábricas
de software.
Se nós não soubermos reutilizar,
as fábricas de software certamente saberão,
e vamos pagar mais de uma vez pelo mesmo serviço.
Vejo muitos casos e muitos fornecedores falando
de SOA, mas, quando vou olhar direito, não é SOA, é componentização.
Isso é ruim. Precisamos diferenciar o
que é SOA do que é componente;
o nível de abstração é diferente.
Na Caixa, começamos com a modelagem do
processo. Como era esperado, ele passa por oito
departamentos, com oito sistemas diferentes.
Quem é o dono do processo? É um
conflito. E quais são as otimizações
a fazer? Aí vem um trabalho de negociação:
um produto entra, porque faz parte da estratégia
empresarial; o outro não entra. É outro
conflito.
Depois de mapear e de otimizar, então
identificamos onde estão os serviços,
em todo o legado, para fazer a implementação.
Cláudio — Com a reengenharia, nós
acabamos com o O&M, quando na verdade a necessidade
de manter os processos vivos e documentados ainda
existe. Como vamos passar de novo por essa fase
da SOA? Colocando os processos com os metadados
corretos dentro do repositório, assim
a gente mantém o conhecimento da empresa.
Fabiano — Temos essa visão clássica
de primeiro definir tudo, ouvir tudo o que o
usuário quer, e depois construir tudo.
Quando assumi a área de TI, com meu kit
de PMBoK nas mãos, vi que tinha entrado
numa organização que se transforma
o tempo todo. Resolvemos, para usar um clichê de
mercado, abraçar a mudança. Existem
várias técnicas, como a extreme
programming. Isso deu certo.
Não dá para definir tudo antes
por um motivo muito simples: o usuário
precisa da construção para entender
o que ele quer. Com a SOA, me parece, viabilizamos
essas coisas, porque fica mais fácil transformar
os processos. |