IH — Existe sistema
de armazenamento ao mesmo tempo flexível,
eficiente e seguro?
Luiz — Trabalho há 31 anos na Volkswagen,
25 deles na montadora e seis anos nos serviços
financeiros do Banco Volkswagen. Mas sempre trabalhei
no processamento de dados da área financeira:
contas a pagar, a receber, contabilidade. Ou
seja, onde os dados são essenciais e necessários.
A história do armazenamento de informações
mudou em 1991, com a Lei 8.218: os problemas
e soluções começaram aí.
De um lado, os fabricantes conseguiram mostrar
soluções; já podemos comprar pen
drives de 4, 5 gigabytes. De outro, a dificuldade é combinar
as regras de armazenamento, junto ao usuário,
com as necessidades futuras. É muito comum
alguém pedir uma informação
e justamente aquela não está guardada,
ou não está cruzada, ou não
está na mídia mais adequada para
ser recuperada logo. Esse é o grande desafio.
IH — A pressão por tecnologia de
armazenamento vem mais dos usuários ou
mais das leis?
Luiz — As leis e
normas impulsionaram as demandas internas.
A partir dessa Lei 8.218, e depois da Instrução
Normativa 86, somos obrigados a guardar tudo,
da maneira como os fiscais do governo federal,
estadual e municipal decidem. Existe um layout [arranjo
das informações nos relatórios],
mas de vez em quando os fiscais pedem as informações
de outras maneiras. Tradução de layout é simples,
mas exige tratamento dos dados. Na prevenção à fraude
de crédito, é preciso guardar todas
as informações.
IH — A segurança torna o sistema
de armazenamento mais lento?
Luiz — A parte técnica está resolvida;
conseguimos montar espelhamento dos dados e redundância
de maneira barata e segura. Criar regras de armazenamento é a
grande dificuldade. Se as regras de negócio
não estão bem estabelecidas, não
conseguimos usar a tecnologia direito. É quando
ocorre o confronto com o gerente de riscos, com
o pessoal da contabilidade, com os fiscais.
Paulo — O custo
do armazenamento baixou muito, mas a demanda
interna por armazenamento e por informação disponível
aumentou muito mais. É até difícil
medir a taxa de crescimento das informações
armazenadas dentro da empresa. Existe tecnologia
para armazenar de forma definitiva ou temporária,
com a mídia que for, e existe tecnologia
para movimentar trechos dos bancos de dados,
tudo isso está bem solucionado pelos fabricantes.
O problema é que os sistemas de armazenamento vêm crescendo a taxas
não-programadas. O nosso data warehouse [banco de dados central],
por exemplo, cresce 40% ao ano. Os usuários têm a capacidade de
armazenar dados, de decidir as regras de armazenamento; foge um pouco do nosso
controle.
Então, essa é a questão: a
tecnologia está mais barata, mas a necessidade é muito
grande, então gastamos tanto quanto gastávamos
antigamente.
Márcio — A
gente até consegue
resolver as informações estruturadas,
mas a quantidade de informações
não-estruturadas cresce muito mais. Os
processos internos não evoluem no mesmo
passo.
IH — Quais são os problemas principais
com processos e usuários?
Paulo — Até uns anos atrás,
os usuários pediam sistemas transacionais.
Mas com as mudanças nas relações
dentro da empresa, com as mudanças legais,
com as demandas judiciais, precisamos reter mais
informações, até para alimentar
modelos matemáticos novos. Na dúvida,
a área de TI guarda tudo.
Luiz — Quando falta
informação,
o responsável é o CIO. Quando o
usuário recebe o fiscal, chama o primeiro
da área de TI que passar por perto. Acho
que o CIO tem a responsabilidade pelo armazenamento
e pela integridade das informações,
mas não pelo atendimento dos fiscais.
Paulo — Se o armazenamento
fosse mais caro, essa questão seria tratada com mais
detalhes. Não seria tratada só pela área
de TI. Agora, a TI precisa discutir isso na empresa,
dar prioridade ao assunto. Até porque
a disponibilidade de equipamentos não é imediata, é quase
tudo importado.
Dorival — Retomando
a pergunta inicial, se podemos ser flexíveis, eficientes e
seguros, então devemos. Agora, quando
mexemos ou alteramos um desses vetores, automaticamente
mexemos ou alteramos os outros dois. Cada um
desses vetores está muito relacionado
ao modelo de negócios da empresa, aos
requisitos de negócio.
O custo tem baixado, se consideramos a densidade
de armazenamento dos dados. Mas, se consideramos
a solução de armazenamento como um todo, o
custo tem subido, porque os subsistemas de armazenamento são mais inteligentes.
O que ganhamos com a densidade, gastamos com os sistemas de gerenciamento.
Contas de TCO [custo total de propriedade] são complicadas. Conforme
o modelo de negócios, precisamos definir a política de armazenamento,
com que idade cada tipo de arquivo vai para cada tipo de mídia. Os sistemas
têm de ser inteligentes o suficiente para saber onde estão esses
dados.
Temos bancos de dados transacionais de alto volume, com um tipo de abordagem.
E todo documento que entra num guichê da Serasa, em qualquer lugar do Brasil, é digitalizado; é outra
tecnologia, com outra abordagem.
Com e-mail, por exemplo, não dá para
privilegiar todo mundo. Temos de escolher, definir
regras abrangentes. A segurança é importante:
em que momento fazemos a cópia? Essa cópia
deve ser feita em tempo real ou não? Isso
tudo consome recursos de comunicação.
Luiz — Discutimos
mais com o pessoal de riscos. O estatístico quer fazer o trabalho
dele, e acha que, do outro lado, os dados devem
estar guardados como ele acha que deveriam ter
sido guardados há cinco anos, mas, na
verdade, naquela época nem capturávamos
o dado
IH — E como justificar
os custos e os riscos de guardar tudo ou guardar
só uma parte?
Paulo — Em geral,
o custo do armazenamento está embutido nos custos da área
de TI. A melhor prática hoje é colocar
o custo do armazenamento, e do processamento
também, nos custos do projeto. Sem esses
dois custos, e mais o custo da replicação
dos dados, o retorno de muitos projetos fica
excelente.
Este ano, começamos a incluir
todos os custos de armazenamento e de processamento
nos projetos.
Luiz — Hoje, os projetos
estão
mais detalhados. Mas ainda não encontramos
quando podemos descartar a informação
que acabamos de conseguir. Ninguém arrisca
colocar essa informação no papel.
Jorge — Na GM, todo
tipo de custo vem embutido no projeto, fica
aparente, temos metodologia para isso; porque
todo orçamento de TI,
aparente ou não, vem da área de
negócios. Quando tudo fica claro para
a área de negócios, ajuda a conscientizar
o usuário, ele aprende o custo dos pedidos
que faz, aprende as conseqüências
de criar um sistema.
O custo do armazenamento realmente tem caído, mas precisamos de cada vez
mais velocidade. As empresas estão se tornando globais, então alguém
usa um sistema na África do Sul, mas ele está hospedado aqui.
Algumas regras da Sarbanes-Oxley dão de quatro a seis horas para recuperar
uma informação: não basta dizer que temos a informação
armazenada, temos de mostrá-la. Temos de armazenar alguma coisa: mas quanto
custa armazenar essa informação? E quanto tempo eu levo para identificar
e recuperar essa informação? E quanto custa manter essa informação
num sistema? Ou seja, precisamos de políticas, precisamos entender o ciclo
de vida das informações. Se é rápido de armazenar
e rápido de recuperar, o preço do sistema sobe, não importa
se o preço do megabyte é bem baixinho.
Um dos grandes problemas do armazenamento: colocamos informações
nos sistemas, mas não tiramos. Então, usamos na GM conceitos da
contabilidade: temos informação ativa, passiva e até passiva
da passiva... Tiramos informações da base ativa, mais rápida,
e passamos para as bases passivas, em que o acesso não é mais em
tempo real.
Mas essas bases passivas dão manutenção. No dia em que precisarmos
da informação, será que o layout da base continua
o mesmo? Será que ninguém mudou um processo, mudou a hierarquia
da base de dados, e o sistema não consegue mais recuperar um cartucho?
Nas
questões trabalhistas, os dados precisam
ficar guardados 30 anos.
Dorival — Um outro
ponto importante: como a tecnologia evolui
muito rápido,
compramos uma família de produtos hoje
e, daqui a dois anos, quando vamos fazer a expansão,
fica mais caro fazer a expansão com produtos
da mesma família do que comprar produtos
de uma família nova.
E temos outra coisa relevante: ambientes mistos, com mainframe e plataforma
baixa. E aí vem o pessoal e lança um negócio chamado virtualização.
Na
teoria, a virtualização é perfeita
no laboratório, mas não é fácil
compartilhar o mesmo aparelho com o mainframe e
a plataforma baixa. Mesmo os fornecedores, os donos
da tecnologia, não entendem direito as conseqüências.
Márcio — Com
as informações
estruturadas, do ERP, na Melitta nós fomos
buscar o dono da informação. Quem é o
responsável pelas informações
de crédito? O gerente da área de
crédito e cobrança tem de cuidar
da política de retenção
das informações, dos aspectos de
segurança. Informações não-estruturadas
são um problema maior — até que
ponto um e-mail vai ser guardado é uma
decisão da pessoa, não do CIO.
Chegamos a abrir caixas de correio, e as pessoas
guardam dados, e não informações:
elas guardam convites para almoço e agendamento
de reuniões. E não adianta eu ditar
uma regra: isso só resolveria o meu problema. Às
vezes, uma secretária tem realmente muita
informação importante para guardar.
Mas algumas pessoas nunca limpam a caixa de e-mail. É um
dilema.
IH — Qual o papel do usuário na
gestão dos sistemas de armazenamento?
Paulo — O usuário ajuda a entender
os métodos de retenção de
cada informação e o SLA de cada
método de retenção.
Jorge — E segurança da informação é o
usuário. Segurança da informação,
em essência, é gerência de
riscos, e o risco aumenta quando falta o treinamento
dos usuários.
IH — Técnicas de virtualização
não ajudam a TI a prestar bons serviços
aos usuários?
Luiz — Está acontecendo um fato
interessante. Entregamos laptops para os funcionários,
mas os discos dos laptops estão cada vez
maiores. Agora, estamos num movimento inverso,
entregando thin clients [computadores
com o mínimo possível de recursos],
para tirar do usuário a capacidade de
armazenamento que ele tem. A partir desse momento,
ele vai nos responsabilizar: “Já que é assim,
me garanta as informações no momento
certo”.
Jorge — Na GM, temos
um caso de sucesso com a virtualização. Mas virtualização
não dá ganhos financeiros em pouco
tempo — ela dá dinamismo, conseguimos
responder para o usuário de negócios
praticamente de um dia para o outro. Os custos
ficam mais ou menos os mesmos. E tem bons recursos
de segurança. Por exemplo: todo o nosso
atendimento ao cliente será feito pela
Atento, e o pessoal da Atento vai acessar os
sistemas Windows da GM. É um problema,
quando um funcionário não-GM acessa
sistemas da GM. A virtualização
resolve isso: o pessoal da Atento continua na
Atento, e acessa os sistemas que eu permito que
acessem como se estivessem na GM, mas sem estar
na rede da GM.
Dorival — Eu tenho
150 terabytes na Serasa, então, qualquer tecnologia que vá mexer
nisso precisa ser muito bem avaliada e testada.
Os custos de um armazenamento assim são
altíssimos, e não há muita
margem de manobra.
Paulo — O próprio fornecedor vai
conhecer bem o teu caso quando os problemas aparecem,
quando a gente encontra incompatibilidades entre
as várias camadas de software. Aí o
fornecedor vem e diz: essa função
funciona, mas só na versão tal
do CICS. Só que ninguém muda assim
a versão do CICS, isso é um projeto
para mais de ano.
IH — A criptografia simplifica a gestão
e melhora a segurança?
Jorge — O que determina
o que deve ser criptografado é a política de
segurança, ou de controladoria, ou corporativa.
Na GM, chegamos a criptografar todas as informações
que iam para o backup. Isso é custoso
e aumentou significativamente o tempo de recuperação
das informações. Não podemos
aplicar a criptografia só porque o auditor
vai perguntar se tem criptografia.
IH — Os auditores perguntam se tem criptografia?
Jorge — Perguntam.
Mas temos informações
críticas para a GM que precisam sair da
GM. Por exemplo, a fábrica de Gravataí não
tem estoque, é just in time,
o carro vai sendo montado com as peças
chegando. Se esse processo fica mais lento, diminui
a produção. Eu criptografo o canal
de transmissão, e só criptografo
a informação do outro lado se ela
for guardada, se ela residir no sistema do fornecedor.
Toda
vez que falo de criptografia, o pessoal já começa
a olhar o relógio, olhar de lado, custa
caro, demanda conhecimentos a mais na operação,
demanda vários processos a mais. O que acontece
se eu perco uma chave? Como socorro alguém
que perdeu uma senha e a criptografia está baseada
nessa senha? No fim, o auditor segue um receituário,
baseado no nosso modelo de negócios, aprovado
por uma empresa de consultoria, para saber se estamos
seguros ou não. Falar de criptografia significa
falar do fluxo de informações para
o seu negócio, e falar da segurança
da informação em cada parte desse
fluxo.
Luiz — Não se criptografa, necessariamente,
uma base inteira. Um campo sim, o campo da senha
do cliente, por exemplo. Criptografamos os dados
armazenados nos notebooks da empresa, mais por
precaução, em caso de roubo. Dentro
da empresa, às vezes é preferível
proteger a informação por meio
de senhas de acesso, controles do acesso.
Dorival — Não podemos tratar a
criptografia de forma emocional, achando que,
se estiver criptografado, está seguro.
A criptografia consome recursos de processamento, é trabalhosa
para quem toma conta.
Em alguns dos bancos de dados
da Serasa, a criptografia é aplicada
no armazenamento, no processamento e em qualquer
processo de transferência. Mas são
casos específicos, avaliados com muito critério,
porque o custo operacional da criptografia é alto:
e é alto em todos os sentidos, porque é um
custo composto. Em algumas rotinas de mainframe,
por exemplo, as rotinas criptografadas aumentam
o processamento em 30%. Tem rotinas que, se a gente
criptografa, dobra o tempo de execução.
Jorge — Se a gente
aplicar uma chave criptográfica
mais pesada, chega a triplicar o espaço
necessário para o armazenamento.
IH — Existe uma cruzada de combate às
ilhas de informação, às
bases de dados criadas e mantidas pelos próprios
usuários?
Jorge — Ah, sim, existe.
Luiz — Em qualquer área de TI,
a lista de projetos a entregar é enorme.
Por pressa, alguns usuários contratam
uns programadores que conhecem o Microsoft Access,
que conhecem Excel, e montam um sistema. O usuário
diz que esse sistema não tem importância,
não é corporativo. Até o
dia em que vira corporativo, e aí eu preciso
integrar essa base de dados no data wharehouse.
Jorge — O pessoal
de TI também
gera algumas dessas coisas. Ele monta um sistema
de business intelligence, mas é o
usuário final quem vai usar aquilo, e
não é bem o que o usuário
queria. Então ele tira informações
do business intelligence e coloca em
planilhas Excel, e aí vira um ciclo vicioso.
Paulo — Mas a TI
precisa entender também
que ela não tem a capacidade de atender
todas as demandas dos usuários, e às
vezes nem deve. Às vezes, se a TI trouxer
uma base de dados de uma área de negócios,
vai ver que não vale a pena. Mas não
podemos fechar os olhos para essas ilhas. Se é melhor
para a empresa manter a ilha, nós, da
TI, criamos as condições mínimas
de segurança, rastreabilidade, backup,
até fornecemos o técnico para cuidar
da ilha, porque assim ele pelo menos segue metodologia.
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