IH — Como é o
desafio de organizar a infra-estrutura de informática
para que todos cooperem ou colaborem, inclusive
com funcionários de outras empresas?
Eduardo — Na segunda
metade da década
de 90, os bancos fizeram muitas terceirizações,
mas de um jeito distorcido, porque usaram modelos
estrangeiros copiados no Brasil. Por motivos
que não vêm ao caso agora, quem
propunha o modelo era quem implementava a terceirização
e era quem ganhava com aquilo: as consultorias.
Então, os bancos terceirizaram a inteligência.
Vemos hoje bancos muito dependentes de fornecedores:
se o banco precisa de uma solução,
chama o fornecedor.
Mas isso tudo está se revertendo. A terceirização
vai continuar, mas não do mesmo jeito,
ou no mesmo nível. No PanAmericano, procuramos
reaproximar a área de informática
das outras áreas do banco. Antes, a informática
ficava isolada: recebia um problema do usuário,
e pedia a solução para um terceiro.
Mas a informática precisa dar soluções,
se antecipar, precisa conhecer o negócio
do banco.
Quando contratamos profissionais, ou retreinamos
profissionais, dizemos que eles devem entender
do negócio tanto quanto o comercial, tanto
quanto o administrativo. Eles não podem
repassar problemas: eles devem ir atrás
da solução. E não existe
solução só de fornecedor,
ou uma solução só nossa:
trabalhamos com parceiros.
IH — Como vocês fazem para colaborar
com clientes corporativos, isto é, com
outras empresas?
Eduardo — Em geral,
acompanhamos gerentes de outras áreas do banco quando vão
a reuniões. Tivemos um caso interessante.
Uma diretora me pediu para acompanhá-la
numa reunião com cliente, sobre um negócio
bem grande. Quando chegamos lá, eles nos
apresentaram o pessoal do comercial e o da área
de TI. Enquanto eles negociavam, as duas áreas
de TI fecharam todo o processo, com a troca de
arquivos, horários, plataformas, caminhos.
Quando eles fecharem o negócio, se fecharem,
a área de TI não será um
entrave.
Empréstimo consignado é um exemplo:
trabalhamos como se fosse produção
industrial, ou seja, com o máximo de automação
possível, porque há muita competição
e as taxas são controladas e cada vez
mais baixas. Então a área de TI
automatizou muitos processos, como a análise
do crédito, a liberação
do crédito, a própria liberação
do departamento financeiro. Hoje as propostas
entram em qualquer ponto do Brasil via Internet,
e a partir daí a proposta não tem
mais nenhum tratamento humano: ou ela é reprovada
ou é aprovada e paga.
É preciso conhecer o negócio para
propor esse tipo de solução.
IH — Se as duas empresas agem com boa
vontade, os projetos fluem de forma mais tranqüila?
Eduardo — Não é sempre assim.
As empresas são entidades vivas, com personalidade
e idéias próprias. Então,
temos de nos adaptar. Se o cliente diz, Ah, eu
só me comunico através da plataforma
tal, ótimo, nós também,
nós nos adaptamos. Quando trazemos o problema
para nós, resolvemos o problema e eliminamos
um ponto de resistência.
Com os fornecedores, é diferente. Minha
linha de trabalho é: tudo o que é regra
de negócio eu trago para dentro de casa.
Meu maior projeto atual é um chassi de
negócios, com todas as nossas regras de
negócio dentro do banco. Nesse ponto,
os fornecedores temem, pois vivem disso: eles
aprendem com a gente e levam nossas idéias
para os outros clientes deles. Algumas empresas
dependem muito das idéias trazidas por
fornecedores. Na hora de trazer as regras de
negócio para dentro do banco, precisamos
ter muito jogo de cintura para negociar com os
fornecedores: mais do que temer a perda de receita,
eles temem a perda do conhecimento.
IH — Quais são os nós da
colaboração num banco do governo,
como a Caixa?
Julio — Até 2004, a área
de informática não participava
dos níveis superiores de decisão
na Caixa. Éramos parte da área
de logística. Até então,
a empresa enxergava a área como aquela
que recebia um pedido e devolvia um sistema.
Mas fizemos a mudança de cultura, hoje
participamos das decisões desde o início.
Um exemplo disso, que citamos sempre, é a
internalização das loterias. O
processo era todo de outra empresa, e depois
passou para a Caixa. A partir desse momento,
18 áreas trabalharam no dia-a-dia da implementação,
e se não houvesse integração,
a implementação não sairia.
Outra coisa importante: o compartilhamento de
infra-estrutura e de serviços entre os
bancos. Criar um padrão, um modelo igual
ao do Sistema de Pagamentos Brasileiro. Os serviços
na Internet, por exemplo: em vez de cada um sair
correndo atrás de um modelo, poderíamos
criar modelos, criar fóruns, integrar
os serviços. Teríamos um custo
menor, e ganhos para os clientes, independente
do banco.
Se não buscarmos o compartilhamento, vamos
eternamente gastar, gastar, gastar, sendo que
poderíamos investir esses recursos em
outras áreas, e dentro da própria área
de TI, desde que a empresa tivesse ganhos.
IH — Pelo tamanho da Caixa, ela não
se impõe?
Julio — Sou empregado
da Caixa há 29
anos, e acho exatamente o contrário. Qualquer
empresa, quando nos propõe um negócio,
fala assim: eu estou criando uma oportunidade
de negócio para a Caixa. E então
essa empresa impõe a forma mais adequada.
Existe a negociação, mostramos
a dificuldade de alterar determinados padrões,
mostramos o tamanho e o custo das mudanças
para a Caixa... É lógico que tentamos
fazer as adequações. Mas analisamos
sempre se é vantajoso para a Caixa disponibilizar
determinados recursos de tecnologia, que, afinal,
entram no preço, porque empresa pública
não pode fazer doações.
IH — E o Banco do Brasil, tão hegemônico,
não se impõe?
Alberto — Hegemônico é só na
agricultura, em que a gente tem realmente uma
participação maior que outros bancos.
Em todos os outros segmentos, temos de vencer
a concorrência.
Quando tratamos com grandes clientes, a cooperação é o
diferencial mais forte. Com clientes grandes,
como a Petrobras ou a Volkswagen, o poder de
barganha é menor, porque todos os outros
bancos também querem esses clientes. Nesses
casos, todos os bancos tendem a seguir o padrão
do cliente. Com as empresas menores, dá para
negociar mais. E então a área de
TI entra como parceira, para ajudar a viabilizar
o negócio.
No caso do Banco do Brasil, nós temos
um sistema de intercâmbio eletrônico
de dados, que nós mesmos desenvolvemos,
e instalamos um tradutor no ambiente do cliente.
Isso facilita a vida do executivo de negócios,
porque nós conseguimos atender rapidamente
as necessidades do cliente e do banco.
Nos grandes clientes, até usamos o conceito
de Cosme e Damião: junto com o gerente
de negócio, vai um analista da área
de TI.
Quanto ao governo, trabalhamos com padrões,
inclusive em conjunto com a Caixa, como no e-Ping,
o padrão de interoperabilidade do governo.
IH — O Banco do Brasil precisa disputar
clientes no mercado. Por causa disso, ao negociar
com outros órgãos públicos,
o banco tem algum poder de veto?
Alberto — Não. Toda prestação
de serviços ao governo é tratada
como uma relação de negócio,
como todos os bancos fazem. No mínimo,
verificamos quanto o serviço vai custar
e buscamos o ressarcimento dos custos. Isso quando
os bancos privados não têm interesse.
Quando eles têm interesse, o órgão
público põe o serviço em
processo de disputa; quem fizer a melhor proposta,
leva a conta.
Julio — Quanto aos
fóruns existentes
no governo, como o e-Ping, todos têm o
mesmo peso. A diferença está na
capacidade de cada pessoa, a capacidade de argumentar,
de ter as idéias organizadas. A pessoa
mais bem preparada influencia mais, o que independe
do tamanho da organização.
IH — Empresas como a Petrobras acabam
ditando certos padrões no mercado, já que
o banco reaproveita aquele padrão em outros
clientes, para baixar os custos?
Alberto — Acho que
não. O que atrasa
esses padrões são justamente as
pessoas que negociam os padrões, porque
cada um define as coisas para evitar o custo
de adotar um novo padrão. Talvez se a
Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a Volkswagen,
a GM, as grandes empresas se juntarem e definirem
um padrão, então sim. Para os bancos, é mais
fácil se reunir na Febraban e propor um
padrão do que o contrário, as empresas
proporem um padrão aos bancos.
Eduardo — Acho que
só o Banco Central
consegue colocar todos os bancos no mesmo padrão,
como fez com o SPB. Acho que a empresa mais forte
impõe o padrão dela, sim.
IH — Uma infra-estrutura capenga impede
a criação de produtos novos, que
exijam muita colaboração?
Emilio— Normalmente,
não. Conseguimos
lançar inovações meio que
reinventando os processos, para aproveitar a
oportunidade. E discutimos com outras empresas
de seguros as oportunidades de padronização,
quando vamos às comissões técnicas
da Fenaseg.
Para citar alguns padrões, temos mecanismos
para a troca de informações sobre
bônus (o desconto dado ao segurado), temos
uma base única de sinistros (assim podermos
verificar se o cliente não teve sinistro
em outra seguradora), temos uma base sobre dados
do veículo a partir do chassi (assim sabemos
se o veículo é original ou se foi
adulterado), e temos uma base sobre gravame (para
saber se existe algum obstáculo à venda
do veículo, como quando ele está financiado).
Essas comissões técnicas funcionam
há uns cinco anos. É importante
dizer que não é um processo fácil,
mas é um processo do tipo maslowiano [referência
a Abraham Maslow, criador da pirâmide das
necessidades, ou seja: o ser humano só vai
buscar uma vida criativa quando não estiver
mais passando fome].
As seguradoras estão em estágios
diferentes de evolução; às
vezes, uma seguradora não tem um produto
que as outras seguradoras já têm,
e então deve se preocupar mais em resolver
os problemas de infra-estrutura. Nesse momento,
não adianta ir lá e tratar de problemas
de cooperação.
Mas algumas seguradoras estão num estágio
mais avançado, e podem participar e dar
sua contribuição. Em geral, elas
dão boas recomendações,
pois colocam gente para fazer trabalhos técnicos. É um
caminho para resolver oportunidades em que essa
seguradora precisa das outras seguradoras. Mas
isso é uma exceção. Quase
sempre o problema e a solução estão
dentro de casa; não precisamos dos outros
para inovar.
Existem quatro pilares para o sucesso de uma
seguradora; isso para mim está claro.
Eficiência operacional é o primeiro
deles: seguradora precisa de um custo por cotação
baixo. Cada atividade (regulação
de sinistro, cobrança, pagamento, vistoria)
precisa de custo próximo de alguns centavos;
ficamos mais próximos disso quando mais
eletrônica a atividade.
O modelo de distribuição é o
outro pilar. A seguradora distribui através
dos bancos e dos corretores, sendo que o corretor é o
grande canal de distribuição. O
modelo de distribuição precisa
ser eficiente, confiável e barato, assim
o corretor vai preferir trabalhar com essa seguradora.
Inovação é o terceiro pilar: é criar
serviços que sejam uma barreira de entrada
para as outras seguradoras, e que sejam desejados
pelos clientes. Assim, a seguradora pode escolher
o preço que quiser.
Qualidade dos serviços é o quarto
pilar. Em todo contato entre o corretor e o segurado,
precisa existir qualidade de serviço.
Em todos esses pilares podemos usar a tecnologia
para, ao final, construir uma seguradora supercompetitiva.
Na verdade, uma seguradora tem tudo para ser
90% eletrônica. No limite, é possível
transformar a seguradora num software. Os únicos
funcionários insubstituíveis numa
seguradora são o vistoriador, o sujeito
que vai lá ver o nexo causal das coisas,
buscar fraudes; e o vendedor.
O trabalho na Fenaseg também ajuda a evitar
uma série de situações de
fraude. Mesmo assim, entre 15 e 25% das indenizações
são fraudadas, mas as seguradoras não
conseguem pegar. Então, existe uma oportunidade
aí: se eu conseguir melhorar o nosso mecanismo
de regulação de sinistro, se eu
for muito rígido no meu processo de aceitação
e muito justo no meu processo de indenização,
eu evito que os fraudadores potenciais escolham
a AGF.
IH — Colaboração é mais
um problema técnico ou mais um problema
de gestão das várias empresas envolvidas?
Emilio— Na indústria de seguros,
tem muita coisa a ser feita até chegar
no nível de maturidade dos bancos. Tem
muita oportunidade de transformar processos manuais
em eletrônicos. Quem fizer um bom trabalho
dentro de casa, consegue redução
de custos equivalentes a 10% do total de prêmios
arrecadados.
E existe essa outra oportunidade, que é de
15 a 25% de fraude. Só que esse fruto
não está maduro, pois o investimento é grande
e precisamos da ajuda da Fenaseg e do governo.
O governo tem que ajudar, porque tem problemas
de polícia, de desmanche de veículos.
IH — Qual é o papel da cooperação
eletrônica na Serasa?
Waldir — Essa história de cooperação
tem a ver com a própria história
da Serasa: os bancos se juntaram para resolver
problemas de fraudes, cheques sem fundo... Essa
infra-estrutura básica, que todos deveriam
ter, pode ser compartilhada: assim as empresas
usam para o bem delas e para o bem da sociedade,
porque é bom para o indivíduo quando
as empresas gastam menos com o que compartilham,
como os bancos fizeram com o SPB e com a Serasa.
Se uma empresa quer se lançar hoje no
mercado com um novo negócio, ela tem que
ter compartilhamento, tem que ter cooperação.
Quando eu falo de cooperação, falo
de associações. Por exemplo: os
bancos vão compartilhar seus dados sobre
risco de crédito, vão montar uma
base única, da Febraban. Todo mundo que
deve dinheiro no mercado vai entrar nessa base,
a partir de certo valor. Hoje, é de R$
5 mil; em certo momento, pode ser de R$ 20,00.
Toda vez que alguém for tomar empréstimo
num banco, o banco vai saber quanto essa pessoa
deve no mercado.
Essa forma de compartilhamento talvez não
seja interessante para a pessoa endividada, mas é interessante
para os bancos e para a sociedade, porque os
juros baixam, as pessoas sem dívida conseguem
crédito mais fácil, o comércio
evolui.
IH — Qual é a tecnologia mais importante
para a colaboração?
Jairo — Existem tantas
tecnologias para a colaboração, e a nossa arquitetura
ainda tem sistemas antigos, escritos em Cobol.
Então, estudamos a arquitetura orientada
a serviços, a SOA, mas isso é um
conceito. SOA deve aumentar muito a colaboração.
Mas SOA não é da área de
TI, é da área de negócios, é o
pessoal de negócios que vai ter essa arquitetura
de serviços na cabeça.
O Banco Central está nos forçando
a isso, por uma questão de riscos. Ele
está nos forçando a trabalhar por
processos, o que exige uma arquitetura orientada
a serviços. O banco não tinha essa
cultura de gestão por processos. Quando
mapeamos os processos de negócios, vemos
que um serviço às vezes é executado
por várias áreas diferentes.
IH — Qual é a relação
entre a governança de TI e a cooperação
entre empresas?
Emilio— Devemos buscar
a melhoria da produtividade do próprio pessoal de TI. O pessoal de
TI é cada vez mais procurado, os projetos
triviais já foram feitos há 20
anos, então todos os projetos são
complexos, de alto impacto, e precisam ficar
24 horas no ar, e precisam dar serviço
para milhares de clientes no horário de
pico. Mas o desenvolvimento de aplicativos ainda é um
artesanato, por mais que o pessoal fale de usar
metodologia, ferramenta de requisitos.
Então vamos buscar a melhoria da produtividade,
o reuso de objetos, a definição
clara da arquitetura atual e da futura; vamos
mapear os serviços que podem virar serviços
corporativos.
Um exemplo: recentemente, criamos uma aplicação
que é, basicamente, um serviço
web acionado pelo PDA [computador de mão].
Ao apertar um botão, o PDA chama o serviço
que trata a transação, e fecha
a transação. E não estou
inventando nada: é o mesmo serviço
que está na Internet.
Como isso é possível? Basta pensar
nos requisitos não-funcionais: serviço
bem resolvido na arquitetura, com escalabilidade,
com tempo de resposta adequado, persistência.
Esse negócio dá uma redução
de custo danada, porque aí você desenvolve
software como quem constrói Lego, pega
as peças todas, peças robustas,
bem construídas, bem documentadas, e vai
juntando aquelas peças num sistema.
O segredo é parar de ficar fazendo o software
como se ele fosse artesanato livre, em que cada
um pode fazer o que bem entende. Mas não
forçamos as pessoas a seguir os padrões;
nós estimulamos. O pessoal de informática
tem um senso crítico apurado; precisa
acreditar naquilo, como se fosse uma religião.
Mas faça tudo isso dentro de casa primeiro,
antes de envolver outras empresas. Dentro de
casa já é complicado, com uma quantidade
de interessados muito grande.
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