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“Se tem tatu na árvore”,
diz Vera Marques, da Basf, “é porque
alguém colocou ele lá.” Tatus
não sobem em árvores. Um conselho
para a área de TI: tirar o tatu da árvore
parece a coisa mais certa a fazer, mas pode ofender
alguém. Às vezes, diz Vera, o pessoal
de TI precisa vencer o próprio orgulho
e deixar o tatu onde está.
A mesa-redonda
foi coordenada por Wilson Moherdaui, diretor editorial
do Informática Hoje, e
por Márcio Simões, diretor de redação.
Participaram oito profissionais: Fábio Faria,
diretor corporativo de TI da Votorantim Participações.
Márcio Bechara Poletti, gerente de TI da
Melitta do Brasil. Mariely Rodrigues Marson, diretora
de TI da Day Brasil. Ricardo Fernandes Miranda,
diretor de TI para a América Latina da Pirelli
Pneus. Rogério Dalcantara Perez, CIO do
Grupo JBS-Friboi. Sérgio Luiz Ferreira de
Oliveira, CIO da Ticket Serviços. Vera Lúcia
Marques, diretora de TI para a América do
Sul da Basf. E Walter Soubihe Júnior, gerente-geral
de TI corporativa da Votorantim Investimentos Industriais.
IH — O que é mais difícil
a respeito de ERPs?
Márcio — Já implementei ERP em duas empresas, na Melitta
e em outra empresa antes da Melitta. Os principais problemas se parecem, independente
da solução. Nos dois projetos, envolver os usuários-chave
foi o mais difícil, eles não tinham tempo para se dedicar... Dada
a abrangência do projeto, o problema era manter esse público focado,
além de controlar o bom andamento do projeto. Hoje é ainda mais
difícil, porque as empresas enxugaram mais.
Quando a gente discutia processos num nível mais alto, a divergência
[entre o processo real e o ideal] já era grande, mas, quando a gente entrava
na parametrização, na personalização, piorava. O
prazo começava a se estender, os custos também, a gente acabava
focando em implementar do jeito que estava. Então, usamos muito o processo-padrão,
que já estava no ERP, mas aí criamos sistemas-satélite
para complementar.
Desde que entrei na Melitta, em 2003, a gente vem revendo os processos novamente,
discutimos com o fornecedor para ajustar o ERP, para que ele seja totalmente
aderente ao processo. Recentemente, refizemos o módulo de vendas e o resultado
para a Melitta foi muito importante. No caso da Melitta, o problema não
era o ERP, mas a forma como implementamos o ERP.
IH — Como o módulo
de vendas deu esses resultados importantes?
Márcio — De 2003 para cá,
a Melitta dobrou de tamanho no mercado de commodities,
onde as margens são pequenas e a competição é muito
grande. Não é simples fazer isso
e o ERP ajudou bastante. Com a revisão
de processos, conseguimos identificar novas oportunidades
de vendas.
Mariely — Uma pergunta: quando você fala
de revisão de processos, quem puxa a conversa?
A própria equipe de implementação?
Se a área usuária só fica
ouvindo, quando a gente entra com o processo
implementado, depois ela diz que não participou,
que ela não queria isso.
Márcio — Isso aconteceu na outra
empresa em que trabalhei. Na Melitta, o projeto
nasceu com patrocinador: o presidente da empresa.
A área de vendas trabalhou focada, porque
a pressão por resultados era grande. Se
a área não revisse os processos,
não atingiria os resultados esperados.
A TI trabalhou mais como suporte, para eliminar
a colcha de retalhos que a área de vendas
montou para suportar o processo antigo. O sistema
foi ajustado e hoje está aderente ao novo
processo. Isso nos deu muita agilidade, até para
trabalhar melhor os nossos estoques. No nosso
mercado, por exemplo, a gente tem um pico de
faturamento muito alto nos últimos dias
do mês; é complicado ter o estoque
pronto para atender o Brasil inteiro no fim do
mês. Mas, se faltar produto lá na
frente, a gente perde a venda.
IH — O que exatamente não funcionava
na área de vendas?
Márcio — Como eles criaram muitos
sistemas periféricos, usando Access, planilhas,
existia uma série de controles paralelos
complementares ao ERP. Com a quantidade de vendas
maior, eles não conseguiram mais dar conta.
Antes a gente olhava o mercado como região.
Depois passamos a olhar por canais de vendas
distintos. Vender por distribuidores é completamente
diferente de vender direto. Então, depois
de uma revisão de processos, levamos tudo
isso para o ERP.
Mariely — Vejo que, quando falamos de revisão
de processos, nem todos estão preparados,
porque a empresa trabalha com a visão
de departamentos. O ERP só funciona se
for tratado como um novo modelo de negócios.
Para se orientar por processos, as pessoas precisam
de uma visão sistêmica, precisam
pensar no todo. É muito difícil
extrair das pessoas as informações
sobre como a área delas funciona, e quais
são as conseqüências das entradas
e das saídas dessa área para as
outras áreas.
Vera — Sabe o que eu acho? Com o tempo,
a gente aprende a lidar com as coisas como elas
são. O que quero dizer? O problema não é o
ERP, mas reconhecer a realidade das coisas. As
empresas são assim, como a Mariely falou,
e as coisas vão evoluindo. Se você olhar
como é a estrutura de qualquer empresa
hoje, é melhor do que era há dez
anos. Mas a área de TI tem de reconhecer:
essas coisas existem e ela não é dona
do mundo.
Quando o pessoal de TI entra numa implementação
dessa magnitude, tem de saber para quem expõe
certos problemas. Se vai num departamento, em
que as pessoas não sabem o que vem antes
e o que vem depois, como vai instalar uma coisa
totalmente integrada sem causar problemas? O
pessoal de TI tem de saber que vai causar problemas;
a questão é como causar os problemas.
Tem de ter sensibilidade para saber quando parar,
porque uma hora tem de parar.
Há muito tempo, um chefe me ensinou: se
tem tatu na árvore, alguém colocou
ele lá. Tome cuidado ao tirar o tatu da árvore. Às
vezes, a área de TI tem uma visão
simplista: bota o ERP que ele resolve, e se não
resolver é porque você é burro.
Não é assim. Tem áreas mais
evoluídas — finanças, por
exemplo, aceita bem o ERP. Dependendo da empresa,
a área de vendas não entendeu ainda,
porque a cabeça do vendedor está no
campo.
Às vezes, eu falo para o meu pessoal: pára, não sofre
por isso, vai até onde você pode e, onde você não
pode, nós vamos decidir junto com o líder da área o que
fazer. Isso a gente aprende depois de apanhar bastante.
Sérgio — Acho fundamental a gestão
das pessoas, porque ERP é um projeto
complicado, a gente perde datas, e então
manter o pessoal motivado é fundamental.
No nosso caso, o treinamento da força
de vendas nos afetou muito. Trouxemos para São
Paulo 280 pessoas do Brasil inteiro, mas a entrada
do ERP atrasou. Acabamos perdendo parte de todo
o esforço de treinamento por conta do
atraso. Um ERP, numa empresa que não tinha
ERP, é uma ruptura — as pessoas
tendem a desconfiar.
Na Ticket, fizemos o mapeamento inicial dos processos
nas áreas principais, mas fomos pragmáticos:
onde não tinha sistema, usamos os fluxos
que já estavam no ERP. O sistema facilita
as coisas, porque é consistente na integração
dos dados, e faz com que as funções
dos processos se integrem de forma mais ágil.
Desempenho é um problema relevante da
pós-implementação. Estamos
vivendo isso depois de quatro anos com o ERP. É um
problema difícil de resolver, porque o
ERP já funciona. Na empresa de serviços é até mais
difícil, porque a dinâmica de lançamento
de novos serviços é muito maior
que na indústria.
Outro problema do ERP na pós-implementação é o
treinamento. Com a rotatividade, com as limitações
de orçamento, a TI não consegue
manter o treinamento atualizado, o que gera um
problema de capacitação. O profissional
que entra acaba sendo treinado pelo que está lá.
Se a TI não fica muito presente entre
os usuários, o índice de erro aumenta.
Walter — Para discutir processos, nós
primeiro selecionamos os principais responsáveis
pelos processos, em cada uma das empresas, e
colocamos todos para discutir o que era comum
em todas as empresas do grupo. Ficou claro que
as áreas financeiras tinham uma quantidade
maior de coisas comuns. Nas áreas comerciais,
nem sempre. Mas, nas áreas comerciais
com o dia-a-dia mais nervoso, as pessoas estavam
mais preparadas para a mudança. Então
eles perceberam a vantagem de implementar um
ERP. E tivemos dificuldades mesmo em localidades
em que a presença no treinamento era altíssima — garantir
a presença no treinamento, portanto, não é sinônimo
de capacitação. A tábua
de salvação passa a ser uma equipe
de TI forte e bem disciplinada.
IH — Se a governança for irrepreensível,
a instalação do ERP transcorre
sem problemas?
Walter — Eu acho que não. Nós
temos uma governança forte e tivemos problemas. É impossível
ter homogeneidade no quadro de pessoal.
Mariely — Quando vocês escolhem os
usuários-chave, eles são realmente
as melhores pessoas?
Walter — Na Votorantim, em 30 meses tivemos
a presença de 943 pessoas no projeto.
Com uma amostra desse tamanho, sempre tem algum
desvio. Mas o patrocínio era forte, era
do primeiro acionista, e ele pediu que todos
enviassem os melhores responsáveis para
discutir e melhorar os processos, deixando claro
que a responsabilidade ficaria nos ombros dos
chefes. Uma coisa importante é que esses
representantes saíram do dia-a-dia e ficaram
focados nos processos. E tínhamos o apoio
de especialistas.
Ricardo — Quando a gente fala de processo
ligado ao ERP, é chover no molhado. Não é uma
escolha, é uma obrigação,
e talvez seja o maior valor do ERP. E existe
também a cultura digital da empresa: algumas
empresas incluem automaticamente a informática
em qualquer iniciativa de processos. Mas essa
cultura digital é formada ao longo de
anos, para não falar de décadas. É um
fator crítico de sucesso, porque o comportamento
da área de informática, da alta
direção e dos usuários depende
da cultura.
Rogério — Nós temos quatro áreas
comerciais na nossa empresa, e cada uma delas é diferente;
depende de como a pessoa à frente do departamento
encara a tecnologia. Então a área
de TI precisou usar quatro abordagens diferentes.
Márcio — Na área de logística
da Melitta, o projeto do ERP se pagou antes de
entrar em produção. Foi a primeira
vez que isso me aconteceu em 18 anos de carreira.
Quando a gente começou a simular e a otimizar
os fretes (que é um custo importante para
o nosso negócio), o pessoal de logística
já via oportunidades e ia fazer otimizações
na produção. Em um mês de
testes, sem botar no ar, o módulo se pagou.
Isso porque o gerente da área tinha um
bom grau de maturidade em relação à tecnologia.
Mariely — Você fala assim porque
tem 18 anos de experiência, mas aí a
gente olha na área de TI e vê meninos
trabalhando lá. Então, precisamos
respeitar as outras áreas, mas precisamos
respeitar a área de TI também.
Do lado de lá os usuários não
estão evoluídos, mas do lado de
cá os técnicos também não.
E as expectativas por trás da implementação
de um ERP são muito grandes. Eu tenho
um projeto bem-estruturado, tenho 30 usuários-chave
com dedicação e bonificação
no fim do mês, tenho líderes de
processo, tenho o apoio da alta direção,
tenho um bom plano de comunicação,
tenho pessoas fantásticas participando
do projeto. Estou a ponto de virar o projeto,
mas algumas pessoas ainda não entenderam
o que é o projeto. Elas estão comprometidas,
mas não envolvidas. A pessoa participa,
define, desenha, parametriza — porque o
próprio usuário-chave parametriza
o processo — e depois pergunta: Mas é assim
que vai funcionar?
Sérgio — Num projeto de ERP, quando
se trazem pessoas de todas as áreas, tem
sempre um grande benefício, mesmo que
o projeto dê uma quantidade razoável
de problemas. Essa turma fica mais comprometida,
e facilita para a empresa, porque todos passam
a compreender mais claramente as dificuldades
de todos os lados.
Rogério — Salvo algumas exceções,
os usuários-chave são muito bons
no departamento, mas quem tem a visão
de ponta a ponta é mesmo a área
de TI. Então, num projeto da magnitude
do ERP, a área de TI deve assumir o domínio
da implementação.
Vera — E não podemos confundir o
dono do projeto com o gerente de projetos. A
TI gerencia, porque a TI sabe gerenciar, tem
a visão geral e tem metodologia. A primeira
coisa que eu pergunto é quem é o
dono do projeto naquela área. O dono não
gerencia o projeto, mas é o contraponto
do gerente de projetos; o dono resolve os problemas
políticos, resolve o problema dos recursos.
E, claro, acima de tudo isso tem o patrocinador
do projeto como um todo.
IH — Os módulos-satélite
são sempre um mal necessário?
Ricardo — O ERP traz junto uma plataforma
de desenvolvimento. É uma arte conjugar
particularidades da empresa com o padrão
do ERP. Como o nome diz, é uma arte, e
tem gente que faz boa arte e gente que faz má arte.
Se a área de TI não souber usar
essa plataforma, vai transformar o ERP num veneno.
Sérgio — Nós conseguimos
um nível altíssimo de aderência,
da ordem de 90%. Isso porque discutimos a fundo
os processos, e não queríamos replicar
o as is [o processo tal como funciona hoje] no
should be [o processo tal como deveria funcionar,
idealmente]. O usuário muitas vezes não
conhece nem a tecnologia e nem o processo direito,
ele conhece a função dele. Então, é importante
aproveitar a oportunidade de repensar o processo
tal como está, para fazer melhor do que
faço hoje, mas procurando o processo-padrão
do ERP.
Walter — Personalizar o processo não é mau
para a empresa, às vezes é obrigatório,
mas para a área de TI não é simples.
Precisamos manter gente preparada para entender
aquele processo personalizado e para fazer as
manutenções. Acaba sendo um ônus
para a empresa.
Falando da nossa vivência, quem tem mais
tempo para trabalhar na pré-implementação
terá menos problemas na pós-implementação.
Fábio — E padronização
não significa igualdade absoluta entre
as empresas. O padrão permite uma série
de parametrizações. Estamos falando
de fugir da série de parametrizações
que o padrão já permite. Para fugir,
precisa agregar valor.
Rogério — Por isso precisamos das
reuniões de aprovação dos
gaps [a disparidade entre o processo real e o
processo-padrão no ERP]. Não é o
conceito de barrar, mas de extrair daquele pedido
a real necessidade.
Fábio — Não dá para
comparar a complexidade de fazer negócios
no Brasil com a complexidade em outros lugares
do mundo. Isso, além de encarecer o projeto,
de torná-lo mais complexo, deixa também
a manutenção mais difícil.
IH — O que os fabricantes de ERP ainda
não fazem bem?
Ricardo — Eles
não são rápidos
o suficiente para as mudanças no ambiente
fiscal, por exemplo.
Mariely — Toda a parte fiscal nós
tivemos de desenhar na mão. A gente falou:
puxa vida, mas isso não vem pronto? Por
que eu tenho de ir de estado em estado e parametrizar
quanto é o ICMS?
IH — E vocês
agora acham que compraram mal?
Mariely — A gente fez um bom processo de
seleção, mas acho que a consultoria
que nos ajuda na implementação
na verdade não conhece tão bem
a solução. Nos questionários,
a aderência estava em 95%. Fizemos várias
visitas a clientes, recebemos boas referências,
mas a gente sempre pergunta de vendas, manufatura,
compra, financeiro, e depois se esquece da parte
contábil e fiscal. Presumimos que, como
isso é comum para todas as empresas, já estava
no sistema.
A gente costuma dizer o seguinte: quem está vendendo
sabe o que está vendendo, mas quem está comprando
não sabe o que está comprando.
Walter — Um alerta: nem sempre quem está vendendo
sabe o que está vendendo.
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