| IH
— Quais são os principais desafios
de segurança nas redes wireless?
PAULO —
Um problema é ajustar
a tecnologia a quem vai usá-la. Em outubro
de 2005, numa operação em São
Paulo, começamos a ter prova de entrega
para um de nossos clientes, a HP — o motorista,
com palm ou celular, fazia a baixa do CTRC (Conhecimento
de Transporte Rodoviário de Cargas) e escaneava
o comprovante de entrega. O mais difícil
foi ensinar o motorista a usar os dispositivos.
Não temos frota própria, e a rotatividade
nos parceiros é grande. Sabemos que esse
ambiente wireless dá liberdade, flexibilidade,
e será importante para empresas de logística.
Assim, nossos clientes acompanham a mercadoria,
isso é bom na Sarbanes-Oxley. Mas o que
mais discutimos na TNT é como adequar a
tecnologia aos usuários. Uma de nossas
áreas é o centro de excelência
em projetos, eles estão sempre no campo
com notebooks, celulares, acesso à Internet.
Nos preocupávamos pouco com a segurança,
até que um dos notebooks foi roubado com
uma apresentação para cliente, uma
oferta. O problema é que a versão
do servidor estava desatualizada, porque muita
coisa nessa apresentação foi modificada
no avião e nos táxis. Hoje, usamos
software de criptografia e tudo o mais para manter
a segurança. E então o usuário
tem de se preocupar com mais uma senha, e para
ele isso é mais um problema. A TNT é
obrigada a ter certificação para
a Sarb-Ox, e então levamos a segurança
a sério. A tecnologia, a gente gerencia.
A mudança cultural, isso dá mais
trabalho. Com relação aos motoristas,
o problema ainda não está 100% resolvido.
IH — O problema
está na interface? Ela é complexa?
PAULO —
Para
determinado tipo de mercadoria, as de alto valor
agregado, o motorista usa um terminal de localização
automática, que passa informações
via satélite. O terminal é até
bonitinho. Mas, em rotas mais perigosas, ou em
rotas urbanas, feitas por vans, o custo da tecnologia
é alto demais, e aí passamos para
dispositivos como o celular. O motorista tinha
de digitar o número do CTRC ou da nota
fiscal certinho. Por mais que haja treinamento,
na hora de apertar 4 ou 5 ele aperta os dois.
No caso dos motoristas da TNT, que podemos treinar
melhor, temos usado os celulares. No caso dos
demais, estamos amarrando o contrato a bônus
e a penalidades, assim ele nos dá o retorno
da informação no tempo correto.
Tem funcionado, mas as dificuldades devem continuar
por um tempo. Já testamos tablet PC, já
testamos computador de mão, mas esses equipamentos
são muito sensíveis. Alguns dos
motoristas ainda são analfabetos. Temos
feito treinamentos em parceria com o Senac, a
ANTT, mas ainda temos muito o que fazer.
MÍRIAM —
O mais importante é saber se a mercadoria
foi entregue no destino?
PAULO —
Depende do material. Algumas mercadorias são
muito roubadas no Brasil. Um dos nossos clientes,
a CNH, faz empilhadeiras e tratores, produtos
de R$ 300 mil, R$ 400 mil. É fácil
roubar, porque a carreta não passa de 15
quilômetros por hora numa subida, dá
para alcançar a pé, e é fácil
vender o produto roubado. Para empresas como a
CNH, o mais importante é a localização
na rota, saber em que ponto a carreta está
entre o ponto A e o ponto B. Mas para outras mercadorias,
como peças automotivas, importa mais saber
se chegou na distribuidora no horário programado.
Nesses casos, importa mais o comprovante de entrega.
CARLOS —
Numa indústria farmacêutica, nos
preocupamos com rastreabilidade, desde a compra
das matérias-primas até o momento
em que o remédio está sendo comprado
nas farmácias. A nossa legislação
impõe essa responsabilidade toda. Dentro
da fábrica, temos uma variedade de produtos
imensa, fazemos até balas, adoçantes,
tudo com tempos diferentes, roteiros diversos.
Por exemplo, o Gelol: fazemos metade do produto,
mandamos para um terceiro, ele faz o aerosol e
nos devolve, colocamos o rótulo e finalizamos
o produto. Esse processo de beneficiamento é
complexo. E depois eu preciso controlar a distribuição
do produto final. Os ERPs da indústria
farmacêutica já controlam princípios
ativos e tudo o mais. Acrescentamos a mobilidade
com etiquetas e códigos de barras, e assim,
pelo ERP, conhecemos toda a árvore de produção:
matéria-prima, produtos, lotes, transportadoras,
distribuidores, farmácias e clientes finais.
Nossa equipe de motoristas é treinada,
então não tenho problemas com os
dispositivos. E temos também uma equipe
de promotores de vendas que precisam dessas tecnologias
sem-fio. Por muito tempo, nos preocupamos com
roubos, com mau uso das informações,
com e-mail monitorado, com controle de acesso,
mas era um erro. Percebemos que essa corrida não
vai ter fim. Existe uma única TI para uso
doméstico e comercial, e então tudo
se mistura muito, com disquetes, pen drives, memory
keys. Tem gente que proíbe a impressão
da tela, mas é possível tirar uma
foto da tela com o celular e transmitir com GPRS.
A gente agora se preocupa com o uso da informação
pela empresa, e com segurança no sentido
de evitar a perda de informações,
de garantir o back-up. Não queremos perder
informações importantes para nós,
porque o usuário apertou uma tecla errada,
por exemplo. É claro, tomamos as medidas
de segurança básicas, para evitar
que a empresa seja invadida, etc. Meu principal
problema é a credibilidade: fazer o profissional
de vendas acreditar na tecnologia. Ele tira pedido
com o bloquinho e não falha. Numa apresentação
que fiz para a área comercial, num hotel,
a Internet caiu duas vezes. Tentamos criar um
suporte ao comercial via web, usando notebooks,
mas só aumenta o tamanho do problema, com
celular é pequeno, com notebook é
maior. E, ainda na segurança, nós
tentamos não cometer a overdose de tecnologia,
um vício da TI, que é usar dispositivos
com recursos demais. Tentamos criar soluções
realmente eficazes para aquele problema específico.
RENATO —
No meu segmento, temos uma frota nossa, monitorada,
que usamos para grandes distâncias, e frotas
de terceiros. Mas acho que o ponto mais fraco,
em qualquer forma de comunicação,
são as pessoas. Não adianta colocar
mil restrições. Se a pessoa quiser
fazer o bem ou o mal, ela faz. A gente tenta ser
conservador, mas sem deixar a equipe de TI cair
no comodismo, pois tecnologia é avanço.
No caso dos transporte, os motoristas são
mais rudes, e são vigorosos. Acham que
só com força o teclado funciona,
e destruíam equipamentos. Nossa força
de vendas é mais madura, e aí o
vendedor acredita no bloquinho, no que ele mesmo
escreveu. Damos todo o treinamento, explicamos
tudo, e no final eles perguntam: Por que isso
não tem só dois botões? Para
mim é importante ligar e receber, os outros
detalhes, não adianta, não vou confiar.
Então, tanto no caso da segurança
quanto no avanço da tecnologia, o fator
determinante é trabalhar as pessoas.
IH — Roubo é
um problema grave no seu negócio?
RENATO —
É. No nosso caso, não existe nenhuma
carga barata, e roubo é fácil, é
só encostar o caminhão em qualquer
lugar. Um caminhão pára num posto,
e todo mundo vê o caminhão no posto,
mas quem garante que aquele posto é nosso?
Ele pode estar fazendo a sangria, descarrega nosso
produto num outro posto e carrega produto adulterado
no lugar. Aí, além do roubo, ele
denigre a imagem da nossa empresa. Tanto que,
tirando os caminhões com rastreamento,
fazemos teste de qualidade no produto quando ele
chega no posto. A gente tenta fechar o processo.
Mas é preciso desneurar, ouvir mais o cliente
do serviço, senão ficamos focados
eternamente só em segurança.
REINALDO —
Entendo que não podemos assumir o risco:
ele tem de ser medido, discutido, seja o risco
no processo, seja o risco no dispositivo, independente
de ser fixo ou móvel. Se não for
possível garantir a segurança, a
decisão precisa subir de nível,
chegar aos acionistas, eles devem pesar o risco
contra a redução de custos e a melhoria
na produtividade.
PAULO —
Por isso eu digo que a chave do conservadorismo
na TI é o próprio negócio.
A tecnologia é só um meio, a gente
não pode esquecer das outras duas coisas
básicas: processos e pessoas. Voltando
àquele exemplo da TNT, demos ao motorista
um celular, ele liga para uma central nossa e
meu atendente, que sabe usar tecnologia, atualiza
o sistema. Então: nada de conservadorismo
na busca de tecnologia, mas conservadorismo na
implementação, porque a chave é
o negócio.
ALEXANDRE —
Na CCL, o ponto-chave são as pessoas. No
Brasil, uma dificuldade é o custo; nos
países mais ricos, esses novos dispositivos
são mais baratos. No nosso caso, as transportadoras
não tinham Internet há três
anos. Não adiantava eu ter um portal na
Internet para facilitar a entrada de informações.
Embora eu fornecesse uma série de vantagens
para meu fornecedor, ele precisava visualizar
as outras vantagens da Internet, no relacionamento
com outras empresas. Quando houve a atualização,
passamos a tratar de aplicações
para a web. Usamos três aplicações.
Não podemos esquecer que a realidade do
Brasil é uma na capital e uma no interior,
e que varia a realidade em cada Estado. Começamos
há um ano e meio um projeto com coletores
de dados, porque no interior não existe
muita facilidade com telecomunicações.
Fazemos a coleta de leite na fazenda, e um produtor
entrega 50 litros de leite por dia, mas outro
entrega 10 mil litros. Não tive dificuldade
para substituir os papeizinhos pelo coletor. Foi
o contrário: os motoristas viram o coletor
como uma valorização do trabalho
deles. Esse coletor é um tijolão
que não quebra, e os botões têm
um centímetro quadrado, então é
do tamanho do dedão. Em São Paulo,
trabalho com 240 caminhões, fazemos a reposição
de 6 mil pontos de venda na Grande São
Paulo e interior. Na capital, a resistência
foi muito maior, porque o sujeito tem muito pouco
tempo, tem o trânsito, ele não quer
perder 30 segundos para digitar os dados no handheld.
Na minha empresa, a realidade é essa: quando
o sujeito tem muita qualificação,
tem o segundo grau completo. Um outro caso, diferente,
é a automação da força
de vendas, que tem nível superior. Só
conseguimos realmente trazer a equipe de vendas
para o projeto quando eles notaram que poderiam
controlar tudo no dispositivo, a agenda, os contatos
profissionais e pessoais, os e-mails, além
do estoque, da cota de vendas, os últimos
pedidos feitos pelo cliente.
WILLIAM —
Represento um banco de cooperativas do Estado
de São Paulo, estou no segmento financeiro,
então não tenho nenhum desses problemas
com caminhões ou com o dedão. Mas
nossos desafios de segurança são
grandes. Como somos auditados pelo Banco Central,
estamos com um trabalho muito forte no treinamento,
na conscientização, no compromisso
com o uso das informações. Somos
também obrigados a auditar nossas cooperadas.
O produtor é um cooperado nosso, e seus
equipamentos, os custos de produção,
nós financiamos isso. Estamos no agronegócio.
Os números são astronômicos,
somos uma potência em produção,
mas tem gente nossa que não sabe direito
o que é um mouse. Mas isso tende a mudar,
há mais consciência. Cooperativa
é diferente, somos e não somos um
banco, porque financiamos com taxas melhores,
não é o que o banco faz. No final
do ano, a gente tem o resultado e as sobras, e
esses valores são devolvidos aos cooperados.
Algumas cooperativas têm 500 caminhões
para fazer transporte do produto que eles colhem.
Assim, temos 20 auditores de segurança,
cada um com seu notebook. Uma outra preocupação
é a instalação de um sistema
do banco nas cooperativas e nas nossas associadas,
o que estamos fazendo; cada cooperativa tinha
a sua, mas o Banco Central nos força a
saber o que está acontecendo, para que
não ocorra nenhum crime de colarinho branco.
Para os auditores, estamos buscando alguma tecnologia
para que existam algumas restrições
no notebook, para quando ele chegar num hotel
e se conectar numa banda larga duvidosa. Então,
estamos investindo em conscientização,
para que o usuário saiba que a informação
pertence à empresa. Não é
fácil dizer às pessoas que é
proibido acessar certos tipos de conteúdo,
ou instalar aplicativos.
REINALDO —
Na Copagaz, já temos um projeto de computação
móvel nos caminhões. Vendemos o
produto a granel, o cliente tem o tanque e nós
reabastecemos. Mas é preciso emitir a nota
fiscal para o cliente ali na hora. O processo
anterior tinha muito retrabalho. Então,
identificamos a oportunidade de imprimir a nota
fiscal no próprio caminhão; e, usando
o mesmo dispositivo móvel, poderíamos
enviar dados remotamente. Usamos uma solução
embarcada em Pocket PC. Mas nós envolvemos
a equipe de entregadores desde o início,
eles ajudaram a escolher o dispositivo, identificaram
melhorias possíveis, ajudaram a fazer o
manual e a treinar os demais entregadores. E envolvemos
também as outras áreas, como o pessoal
da área fiscal. Até instalamos uma
impressora matricial toda modificada em cada caminhão,
porque a legislação exige impressora
matricial. Tivemos bastante sucesso. Desde o princípio,
nos preocupávamos com a possibilidade de
alguém roubar o dispositivo, e então
a informação é criptografada.
A troca de informações entre os
dispositivos e o ERP é feita por Wi-Fi,
que tenho instalado em cada unidade; o entregador,
sempre que entra numa unidade, aperta um botão
e carrega ou descarrega informações.
Como gente de fora visita as unidades, e pode
ter um rastreador, tomamos cuidados com a segurança.
Então, a antena tem potência bem
reduzida, o entregador precisa ir até um
lugar específico para a transmissão,
é muito visível. Já a computação
móvel para vendedores e coordenadores de
vendas nós não conseguimos resolver
100%. Poderíamos transmitir os relatórios
que eles usam para visitar clientes, e assim eles
não precisariam vir até a empresa.
Só que nem todos os dispositivos aceitam
bem mecanismos de segurança. Quando a gente
analisa todos os aspectos, a comunicação,
o dispositivo e o risco pessoal, aí vê
problemas de segurança. Para resolver,
temos de criar barreiras, mas aí o processo
não flui normalmente. Já vejo alguns
lançamentos de computação
móvel com segurança, então
acho que logo isso deve se resolver.
MÍRIAM —
Estou como gerente de tecnologia da informação
na Nadir Figueiredo há nove anos, mas tenho
30 anos de informática. Minha linha de
raciocínio é mais no tom da liberdade
que da mobilidade. Não é a mesma
coisa. Traçamos um plano nesse sentido:
para usar a tecnologia da informação
com liberdade, é preciso um ERP totalmente
feito para a web, por exemplo. Não adianta
ser cliente-servidor, porque aí estou amarrada
numa cadeira, não estou livre. Idem no
correio eletrônico. É óbvio
que se tiver wireless melhor ainda, você
tem mais liberdade, mas é preciso ter segurança
nessa liberdade. Trabalhamos com 60 países
e nossos representantes conseguem nos acessar
de feiras internacionais. Qual é o melhor
meio de comunicação — é
Internet, telefone, celular? É o que for
eficaz. Precisa ter todas as possibilidades, não
pode restringir. Em relação a notebooks,
por exemplo, agora mesmo a gente pensava em atualizar
os equipamentos dos vendedores. Algum tempo atrás,
num projeto anterior, eliminamos as filiais físicas,
elas não existem fisicamente. A filial
é onde o vendedor está, é
a casa dele. Agora, estamos avaliando esses equipamentos
menores, notebook é pesado, e eles reclamam.
Mas não queremos tirar benefícios
do vendedor, pois ele já usa os recursos
do notebook na vida pessoal.
IH — E quanto à
segurança?
MÍRIAM —
Tem só a senha do notebook. Mas eu não
permiti o uso de clients no notebook, o usuário
precisa fazer tudo via web. É assim com
o e-mail, é assim com o ERP.
IH — Até
onde se pode ir na liberdade sem comprometer a
segurança e pôr a empresa em risco?
CARLOS —
Acho importante manter tudo o mais simples possível.
Naquela história de identificar o princípio
ativo com uma etiqueta, podíamos fazer
o ERP imprimir uma etiqueta, que representasse
todos os dados associados àquele princípio,
mas aí o funcionário teria de ter
uma impressorinha com ele, no bolso. E se a etiqueta
não ficasse boa? Então, invertemos:
imprimimos um monte de etiquetas com números
em série, e o funcionário cola qualquer
etiqueta na matéria-prima; se a etiqueta
sujar ou rasgar, é só jogá-la
fora e colar outra. Quando a etiqueta está
bem colada, está OK, o funcionário
vai no ERP e associa a etiqueta à matéria-prima.
A pessoa carrega um monte de etiquetas no bolso,
em vez de uma impressorinha. Compramos 5 milhões
de etiquetas numa gráfica a um custo baixíssimo
e jogamos essa inteligência para o ERP.
Simplificando, diminuímos a quantidade
de variáveis, e ficou mais seguro.
REINALDO —
A partir do momento em que o diretor financeiro
pode usar um dispositivo móvel para fazer
pagamentos, e isso começa a ir para a mídia,
esse diretor pode virar um alvo em potencial andando
na rua. Eu não sei como tratar isso, mas
a segurança pública pode até
inviabilizar essas soluções em função
do risco.
|