|
Segurança trava e destrava. Se
a área de TI instala novas técnicas (transmissão
a gigabits por segundo, comunicação por rádio,
serviços e sistemas acionados via web, circuitos
digitais fechados de TV, telefonia pela Internet),
cria novas oportunidades de negócios, porque transforma
o jeito como a empresa trabalha. Mas novas técnicas
trazem ameaças à segurança. A rede mais rápida
é também mais rápida de invadir. É remédio que
se preze manter a rede pobre para mantê-la sob
controle? Insegurança trava investimentos e anula
oportunidades; investimentos corretos em segurança
desencadeiam novas possibilidades. É o que sete
profissionais discutiram nesta mesa-redonda, coordenada
por Wilson Moherdaui, diretor editorial do Informática
Hoje, e Fabiano Candido, repórter: Reineivaldo
D’arc da Silva Brito, vice-presidente assistente
da ABB; Ricardo Fernandes Miranda, diretor da
Pirelli Pneus; Francisco A. T. Açakura, gerente
de tecnologia da Ripasa Celulose e Papel; Lúcio
Antônio Nubile, executivo de TI da Cummins Latin
America; Sérgio Baccho, gerente de segurança de
TI da Kodak Brasileira; Edilson José Bertanha,
supervisor de TI da Melitta do Brasil; e Ricardo
Dastis, coordenador de segurança da informação
da Basf.
IH
— É difícil
adotar novas tecnologias e, ao mesmo tempo, manter
a rede segura?
REINEIVALDO
— A própria ABB é
uma empresa de tecnologia. É importante para nós
manter essa relação: novas tecnologias e segurança.
Acabamos de instalar uma rede sem-fio numa de
nossas fábricas, queremos colocar a empresa no
estado-da-arte, pelo mínimo investimento, e preservando
a segurança. Ainda na segurança, usamos tokens
(é um pequeno dispositivo gerador de números de
segurança, usado para reforçar o conjunto “nome
e senha”). Nos computadores da diretoria, estamos
estudando a possibilidade de usar impressões digitais.
Realmente, ficamos entre colocar o que há de mais
moderno no mercado e manter a empresa segura.
Em linhas gerais, a ABB só instala tecnologia
já estável.
IH
— E o que
é tecnologia estável o suficiente?
REINEIVALDO
— Token é uma delas. Wireless também, e
reduz os gastos com cabeamento. A ABB gerencia
os ativos de rede de algumas empresas, e assim
temos de garantir a segurança da rede delas também
— é bom que o cliente veja o que nós temos, veja
como fazemos o nosso trabalho, veja nosso esforço
para tirar a certificação da Sarbanes-Oxley.
RICARDO
— Na Pirelli, temos uma boa cultura digital.
Quando falamos de rede, gosto de usar a palavra
equilíbrio. Não podemos ser rígidos e desperdiçar
uma oportunidade, mas não podemos ser displicentes
e criar uma vulnerabilidade. Às vezes é difícil,
somos muito cautelosos, pois afinal vivemos de
pneu, não de tecnologia. Temos um datacenter em
Santo André para toda a América Latina, o que
torna tudo muito complexo, pois a operação depende
profundamente do funcionamento desse datacenter.
É difícil explicar a parafernália toda dentro
da empresa, seja físico, o que se pode ver, seja
lógico, o que não se pode ver, seja procedimentos,
cultura.
FRANCISCO
— Trabalho na Ripasa há 18 anos, sempre
na área de TI. Hoje, já esquecemos uma coisa que
discutimos muito no passado: o modismo. Novas
tecnologias têm muito de modismo. Se ficamos preocupados
demais com o estado-da-arte, somos atropelados
por modismos e colocamos a área de TI em descrédito.
Sempre trabalhei numa indústria em que TI não
é essencial, mas estrutura de apoio. Na Ripasa,
o essencial é produzir papel. Isso cria um desequilíbrio
na cabeça dos diretores — então cabe ao CIO discernir
bem sobre o uso e a instalação de novas tecnologias,
mas a Ripasa tem sempre uma postura mais conservadora.
Wireless, como o Reineivaldo disse, está maduro.
Temos wireless a 12 megabits por segundo, mas
já falam em gigabits por segundo...
LÚCIO
— A Cummins fabrica motores diesel, grupos
geradores, elementos de filtragem — temos uma
linha bem abrangente. Estou na área de TI há oito
anos, vim da engenharia de produção, foi um desafio
muito grande entrar na TI. Nossos clientes sempre
esperam muito da TI e, por causa da Sarbanes-Oxley,
se preocupam com nossa segurança. Estamos confortáveis,
recebemos a certificação da Sarbanes-Oxley no
ano passado, pois já estávamos no caminho correto,
usando a metodologia da 6 Sigma. Há uns quatro
anos, nosso parque de computadores, umas 20 mil
máquinas, era muito diversificado, propício à
falta de controle, dificultava a oferta global
de serviços, já que a Cummins é uma empresa global.
Então, resolvemos padronizar as máquinas. Hoje,
seja na China ou no Brasil, é tudo a mesma coisa.
O controle é maior, a segurança do acesso à informação
também. Nem permitimos a instalação local de aplicativos,
a distribuição de aplicativos é eletrônica, de
um lugar central. As atualizações de segurança
são automáticas. A economia conseguida com a unificação
das máquinas foi relevante; pelo nosso contrato,
renovamos as máquinas a cada três anos, em breve
vamos substituir 30 mil máquinas. Foi uma vitória
para nós, pois não bloqueamos a produtividade,
ao contrário: essas novas máquinas permitiram
que usássemos wireless de forma segura. Quando
trouxemos wireless para o Brasil, parecia brinquedo
de Natal, com gente fazendo reunião na escada
ou no estacionamento, o pessoal vibrava. Na próxima
leva de máquinas, 65% será de micros portáteis,
ou laptops; 30% será de micros de mesa; e 5% será
de workstations. É sempre o mesmo laptop, para
o presidente e o estagiário. E a gente baixa uma
imagem em cada micro, com um formato, uma característica,
um conjunto de aplicativos.
SÉRGIO
— Trabalho na segurança da informação da
Kodak há dez anos; mais recentemente, assumi a
segurança em toda a América Latina. Tenho uma
visão bem particular de segurança. Empresa grande
tem sempre política de segurança da informação,
e essas políticas não mudaram quase nada desde
que surgiram, continuam baseadas na boa e velha
norma britânica BS 7799. Na Kodak não foi diferente:
nossa constituição é de 1995, e a parte de TI
está baseada na BS 7799. E a Sarbanes-Oxley é,
basicamente, uma cópia de tudo isso. Então, a
segurança não mudou, a segurança é independente
de tecnologia — o que muda é a tecnologia. As
novas tecnologias não provocam mudanças drásticas
na segurança; só provocam ajustes. Não creio na
necessidade de uma política revolucionária de
segurança. Mas a política de segurança, quando
bem instalada, põe um freio na tecnologia. O papel
de bom ou mau não cabe à área de TI, mas o de
responsável ou irresponsável. A segurança não
impede o uso de tecnologia nova — ela só dita
o melhor momento.
IH
— E isso é ruim?
SÉRGIO
— É bom e é necessário. As informações
são um ativo importante da empresa, não podemos
colocá-las em risco por causa de tecnologia nova,
mesmo que haja algum ganho de produtividade. Colocar
a tecnologia antes da segurança é um erro que
grandes empresas não podem cometer.
EDILSON
— Pelo que vejo na Melitta, a segurança
está saindo da TI, os diretores se preocupam com
segurança, tanto que o CIO está até meio desvinculado
da TI, pois a informação da empresa está em todo
lugar, na mesa de um usuário, na cabeça das pessoas.
E a Melitta também não vive de tecnologia, vive
de café. Temos uma equipe de venda com pouco mais
de 50 vendedores, que precisam de informações
sobre a Melitta. Eles precisam de algum tipo de
conexão, e a tecnologia está aí para ajudar, mas
não podemos colocar a empresa em risco. Uma política
de segurança é necessária. Não dá para deixar
a segurança só com a TI, não dá para a TI ficar
só instalando barreiras.
Ricardo
Dastis — Estou na Basf Brasil há três meses,
venho do mercado de telecomunicações, e para mim
foi uma surpresa encontrar a cultura de segurança
na Basf já bem estabelecida, apesar de segurança
não estar relacionada ao negócio da Basf, como
era o caso com telecomunicações. Na Basf, o processo
de definição e de implementação de políticas de
segurança começou há uns três anos. No ano fiscal
de 2004, 26% das vendas foram online, por um sistema
de comércio eletrônico. Estamos falando de uns
9 bilhões de euros. Segurança não é só um capricho
da área de TI, nem uma loucura na cabeça dos técnicos
e informatas: ela é absolutamente necessária.
Além disso, estamos sofrendo a fortíssima influência
da lei Sarbanes-Oxley: já entramos na reta final
de um trabalho iniciado em 2004. Estamos usando
uma mescla de indicadores, inclusive do Cobit,
para destacar nosso grau de maturidade em vários
itens — vamos usar essa avaliação para orientar
nossos investimentos em segurança nos próximos
três anos. Olha, saindo um pouquinho da Basf,
acho que a segurança nas empresas está na segunda
onda. Até 1995, 1996, quando a Internet saiu das
faculdades e se tornou comercial, os limites de
uma empresa estavam muito claros: o portão, os
crachás, uns poucos links de baixa velocidade.
A Internet nos libertou dos muros, melhorou o
jeito de fazer negócios, facilitou a comunicação,
a pesquisa. Então todo mundo instalou tecnologia
que não compreendia muito bem. Quando caiu a ficha,
a segurança se tornou uma trava, um freio, e aí
vieram firewall, filtro de conteúdo, restrição
de acesso, troca obrigatória de senha, senha de
14 letras com caracteres maiúsculos e minúsculos,
mais o número desse chaveirinho... Por mais que
tenhamos tentado vender tudo isso de forma positiva,
esses investimentos certamente causaram efeitos
negativos. Mas acredito que, neste momento, já
passamos essa primeira onda e as novas soluções
já vêm com recursos de segurança embutidos. Hoje
já se fala em sincronismo de senha, LDAP, single
sign-on: a empresa consegue altíssimo grau de
segurança, e a vida do usuário fica mais fácil.
Por exemplo: fora da empresa, nossos vendedores
usam um sistema móvel com VPN (rede privativa
virtual), tokens, senhas fortes. Isso não seria
possível sem tecnologia fácil de usar e que obrigue
o usuário a seguir a política de segurança. Tecnologia
de segurança não é mais um freio.
IH
— Na sua visão, qual seria a terceira onda
da segurança?
Ricardo
Dastis — Segurança não é só tecnologia,
mas também processos e pessoas. A área de segurança
ainda gasta muito com configurações, padronização,
etc. Então, acho que segurança ainda não é plug
and play, ainda não está focada em governança.
Essa é a próxima onda.
SÉRGIO
— Para não deixar confusão, quero dizer
que a Kodak usa todas as tecnologias de segurança
também. Quando falo de tecnologia nova, não quero
dizer tecnologia de segurança, mas uma tecnologia
qualquer. Mas não adianta: o elo mais fraco está
nas pessoas. Se alguém quer roubar informação
de uma empresa, vai gastar 85% do tempo com engenharia
social (estelionato), uma informação do Kevin
Mitnik (um ex-hacker famoso). Essa é a questão.
Todos os aspectos da segurança são mantidos pelas
pessoas, e não pela tecnologia pura e simplesmente.
Para que a área de negócio use tecnologia nova,
ela primeiro precisa compreender o papel dessa
tecnologia em toda a rede da empresa. A conscientização
de segurança é importante, porque assim as pessoas
honestas na empresa não agirão de forma ingênua,
e elas ajudam na observação da segurança, é um
ponto a favor da empresa.
IH
— Nunca é vantajoso correr riscos para
adotar uma nova tecnologia?
REINEIVALDO
— Bem, nós temos voz por IP desde 2001.
Mas não liberamos o gravador de CD, nem o gravador
de DVD, nem a pen drive, porque não adianta colocar
porta de aço em cabana de palha. Mas a segurança
é um diferencial competitivo: por exemplo, um
engenheiro americano não precisa vir ao Brasil
para fazer o teste de inspeção de um transformador,
que a empresa dele comprou, ele faz isso online,
remotamente, dentro da nossa rede privativa. Esse
é só um caso, mas atuamos com 43 grandes clientes.
RICARDO — É verdade, a segurança está muito além
da Internet e do wireless. Muita informação nasce
sob a tutela de um computador, seja informação
estruturada ou não-estruturada. Sobre a próxima
geração, eu me atrevo a mencionar três pontos.
A segurança precisa ser nativa, e não pensada
depois, precisa ser integrada, e não uma colcha
de retalhos, e precisa ser natural, e não incômoda.
A segurança é incômoda. O sujeito não pode usar
o nome da avó, do cachorro, de nada. E precisa
carregar o bendito do token.
FRANCISCO
— Eu vou me incluir no rol dos conservadores.
Por exemplo, proibir a pen drive. Qual é a garantia
de que seu filho não vai se drogar? Você pode
ficar vigiando o dia inteiro? Não. Ele precisa
ir para a escola, viver em sociedade. A única
saída é educação. Na empresa é a mesma coisa.
Pode ser pouco, mas educação e informação são
as únicas garantias reais.
IH
— Havendo educação, as novas tecnologias
não representam um risco tão grave?
FRANCISCO
— Exatamente. Agora, no caso da educação
na empresa, há uma vantagem: as ferramentas de
monitoração. Nunca será 100%, porque o ser humano
é criativo. Mas dá para usar novas tecnologias,
sempre com as melhores práticas de negócios e
de tecnologia. E não tem jeito — será preciso
investir.
LÚCIO
— Não digo que devemos ser os primeiros
a adotar qualquer tranqueira que aparece, mas
temos de encarar o desafio de aproveitar a oportunidade
de usar novas tecnologias em prol do negócio —
senão, falhamos no nosso papel. A história do
mundo demonstra como as pessoas de grande sucesso
se arriscaram de alguma forma, elas foram em frente,
conseguiram manter o risco num nível aceitável.
SÉRGIO
— Estou de acordo. Usei o termo freio não
para parar, mas para desacelerar a adoção de tecnologia.
Essa é a questão. Há dois anos, num teste de segurança,
achamos um dispositivo sem-fio dentro da fábrica,
ele não tinha sido instalado pela TI, não estava
com os parâmetros corretos de segurança. Hoje,
a tecnologia está disponível para a empresa, mas
padronizada, inclusive na segurança. Todo mundo
deve concordar que é preciso equilíbrio.
IH
— Vocês tiveram problemas de segurança
ao adotar novas tecnologias?
Ricardo
Dastis — Tive uma vez, numa outra empresa.
Pelo sistema de e-mail, recebíamos todo tipo de
spam, vírus, vermes. Era um problema crônico.
Então comparamos vários fabricantes de filtragem
de e-mail. Foi um sucesso. O número de e-mails
indevidos caiu muito. Mas essas tecnologias não
são perfeitas. A verificação das mensagens é feita
por um algoritmo, não por uma pessoa. Com o usuário
na zona de conforto, o pouco spam que ele recebia
já era motivo de reclamação. Uma semana antes
de instalar um recurso de autogestão do sistema
de filtros, a gente desativou todas as funcionalidades
da ferramenta por uma semana. O impacto foi grande,
as pessoas voltaram a ver como aquilo era importante.
Depois, instalamos a autogestão, e só então sentimos
que o projeto estava completo.
REINEIVALDO
— Eu queria contar um caso de falsa sensação
de segurança. Minha classe do MBA resolveu fazer
um churrasco e uma pessoa fez um ótimo mapa executável
em Power Point: o mapa era ótimo, ativo, uma bolinha
percorria o caminho. Mandaram o mapa para mim,
eu mandei para todo mundo. Todo mundo reclamou:
“Na minha empresa não executa, executável é proibido!”
Então, refiz o mapa, zipei, e mandei zipado. Só
que mandei com um programinha, uma animação no
Windows, parecia um vírus apagando arquivos. Foi
um desespero! Para ver como às vezes achamos que
estamos seguros, mas não estamos.
IH
— Dastis, como
é a segurança de voz por IP, já que você veio
de uma operadora?
Ricardo
Dastis — Disponibilidade é o que mais preocupa.
Se as conexões de Internet ficam prejudicadas,
por um vírus, por exemplo, como as pessoas se
reúnem para resolver o problema? Pelos meios tradicionais:
telefone e celular. Se a comunicação verbal também
vai pela Internet, você fica sem plano B. Os telefones
nem estão mais liberados para fazer DDI. Isso
precisa ser bem pensado, para a empresa não cair
numa armadilha.
IH
— Vocês se
sentem bem atendidos pelas ferramentas disponíveis
no mercado?
RICARDO
— As empresas buscam uma solução de segurança
como um todo, e não mais ferramenta por ferramenta,
um firewall, um IDS e assim por diante. Não acho
que falte tecnologia no mercado. Mas buscamos
soluções que levem a segurança a um nível superior,
ao famoso security scorecard, o painel de controle
da segurança. A tendência é ver os controles mais
do ponto de vista gerencial, integrado com as
melhores práticas, com a Sarbanes-Oxley — é ver
controles que mostrem se estou protegido ou não,
em que preciso melhorar, o que preciso fazer.
Esse é o desafio e essa é a oportunidade dos fabricantes.
FRANCISCO
— Não me considero um cara up-to-date em tecnologia.
Deixo essa responsabilidade para meus parceiros,
para minha cadeia de fornecedores. Para validar
as sugestões, eu insisto nas melhores práticas
e no bom senso. E valido as sugestões também com
meus pares. Por exemplo, faço parte de um grupo
de usuários chamado GETI. O Outlook nesse caso
é poderoso, porque podemos queimar ou valorizar
fornecedores.
|