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Como resolver os desafios da TI no setor de alimentos?
É um setor em que lucrar é bem trabalhoso: a margem
é pequena, quando comparada com a de outros setores.
E por isso mesmo o setor de alimentos precisa
de inovação — como um dos executivos bem disse
nesta mesa-redonda, inovação é “propor soluções
de valor para a empresa e os clientes da empresa”,
mas não é, obrigatoriamente, usar tecnologia de
ponta. O debate foi coordenado por Wilson Mohedaui,
diretor editorial do Informática Hoje, e por Márcio
Simões, editor executivo. Participaram nove executivos
de TI: Adhemar Hisashi Hirosawa, da Perdigão;
Carlos Alberto R. de Barros, da Guarani; Domingos
Sávio Bruno, da PepsiCo; Joaquim Paulo, do Grupo
São Martinho; Luis Manuel Ferreira, da Coinbra;
Márcio Bechara Poletti, da Melitta; Rinaldo Faria,
da Rio Norte; Rogério D’Alcântara Peres, do Grupo
Friboi; e Wilson Loesch Jr, da Cargill.
IH — Quais são os principais
desafios de TI na indústria de alimentos?
CARLOS — Na Açúcar
Guarani, estamos a quase 600 quilômetros de São
Paulo, a 30 quilômetros da cidade mais próxima,
então dependo de rádio para tudo, voz e dados.
A empresa tem limitações com as quais conviver,
sem se afastar da tônica geral do mercado, sempre
se renovando e inovando. Uma característica muito
particular: há anos, a empresa optou por desenvolver
e manter o ERP com equipe interna. Colhemos bons
frutos dessa escolha, sem desmerecer nenhuma terceirização.
Já que a Açúcar Guarani pertence a um grupo francês,
o Grupo Tereos, nosso desafio é provar a viabilidade
desse modelo, já que a Tereos usa SAP e pretende
crescer no Brasil. Temos cinco pontos de presença
no país, em Minas, Rio e São Paulo. O trabalho
vai bem e dependemos do nosso link de Internet;
montamos o link em parceria com o provedor de
Internet. O desafio é sustentar nosso modelo diante
do crescimento.
DOMINGOS — No
Brasil, a Pepsi-Cola é fabricada e distribuída
pela AmBev; o mesmo com o Gatorade. Assim, trabalho
mais para alimentos da PepsiCo — Elma Chips, Quacker,
Coqueiro, Toddy. Entre nossos desafios, está sentar
à mesa de negócios e participar das grandes decisões.
É fácil dar ao usuário o que ele quer, mas isso
é se esquivar do dever. Queremos participar das
decisões, mas que esforço fazemos para o negócio
entender de TI? Que esforço fazemos para deixar
de ser vendedor de upgrades e de linhas de comunicação?
Temos, por exemplo, grande força-de-vendas na
rua, ela quer um sistema transparente, que funcione
sem que precise fazer nada. Mas fazer business
case na indústria de salgadinhos é complicado,
o valor agregado do salgadinho é baixo. Demorou
anos para provar o valor da automação da força-de-vendas,
por exemplo, e só conseguimos quando o negócio
ficou próximo da gente. Sendo mais específico,
o desafio da PepsiCo no Brasil é chegar ao mercado
de forma menos custosa. Já fizemos um bom pedaço
disso; estamos colocando impressoras nas caminhonetes.
E agora, o que faço com as informações de realimentação,
para ser mais eficiente na rua? Também tocamos
uma revisão de toda a área de supply chain, temos
um projeto internacional com a SAP, será um tsunami
na nossa vida. Trabalhamos forte com projetos
de segurança, é uma demanda da matriz; colocamos
medidas de risco na segurança. Temos de pensar
em segurança, mas não somos banco — então, até
quanto? Chegamos numa equação bacana. Por último,
um negócio que me tem feito arrancar os cabelos:
como fazer para a equipe deixar de ser tão técnica?
Como fazê-los parar de falar de bugs e bancos
de dados nas reuniões de negócio? A gente fala
tecniquês e se vende mal. Acho que todos devíamos
fazer um plano de marketing.
JOAQUIM — O Grupo
São Martinho processa 10 milhões de toneladas
de cana por ano, em duas usinas. A empresa tinha
três grandes unidades, a agrícola, a administrativa
e a industrial. Tinha três áreas de informática,
e o primeiro desafio foi montar uma área única.
Logo em seguida, estudamos custos, o custo de
administração estava cada vez maior. Desenvolvemos
uma metodologia para avaliar processos de negócio
e desenhar novos processos. No fim, buscamos um
ERP, escolhemos SAP, começamos a instalação em
1998, foi complicado, mas implantamos até no chão-de-fábrica.
Não fazendo abrir e fechar válvulas, mas bem interligado
ao nosso Scada (sistema de automação industrial).
Naquela época, nem a SAP recomendava isso. Mas
depois estendemos para o controle de frota, controle
de máquinas industriais e tudo o mais. Os resultados
foram tão bons que instalamos SAP numa outra unidade,
a Usina Iracema, a 200 quilômetros de distância.
Isso significava ter uma única área administrativa
na empresa; até 2000, cada unidade tinha um escritório,
um jurídico, uma informática. Com os preços das
commodities lá embaixo, precisávamos ser mais
agressivos com os custos, não dava para repassar.
Então o grupo resolveu montar um centro de serviços
compartilhados. Hoje, esse CSC tem até um certo
faturamento. Essas ferramentas têm um potencial
fantástico para as pessoas que fazem gestão. O
desafio é fazê-las entender a ferramenta e administrar
os processos por meio dela. Elas já fazem gestão,
é lógico, mas entre o que fazem e o potencial
da ferramenta, a distância é grande.
ADHEMAR — A Perdigão
atua em praticamente todos os Estados do Brasil
e em outros países; a logística é bem complexa
e especializada. Ela começa na compra de grãos,
milho e soja, a principal matéria-prima na produção
de frangos e suínos. Para colocar um frango na
mesa do consumidor, leva uns 500 dias. O planejamento
é complexo, porque precisamos imaginar a demanda
em dois ou três anos. Como estamos no mercado
há 70 anos, na prática essa máquina complexa gira
até de forma tranqüila. Quando começamos a instalar
o SAP, as empresas de consultoria nem tinham profissionais
preparados no Brasil; elas tiveram de treinar
profissionais nos Estados Unidos às pressas. Hoje,
o mercado está bem maduro. Terminamos o projeto
do ERP em 1998, mais ou menos 100 lugares de todas
as unidades; na seqüência, estamos adicionando
mais aplicativos de negócios. O BI da SAP, por
exemplo: porque tem tudo lá dentro, mas tirar
informação é complicado. Depois, o CRM, também
da SAP. Pusemos o serviço de atendimento ao consumidor
no CRM, aumentamos as televendas. Temos mil vendedores
no Brasil inteiro. O CRM tem três níveis: o operacional,
o analítico e o colaborativo; vamos do operacional
para o analítico. Na área financeira, o CRM ajuda
a calcular nossa exposição a riscos, porque trabalhamos
com vários contratos, em várias moedas. Nosso
maior desafio agora é preparar o plano para os
próximos dez anos; estamos crescendo a 15% ao
ano, então, se tudo correr bem, em dez anos vamos
dobrar o faturamento, que hoje está em R$ 5,5
bilhões. Nosso plano está calcado em três pilares.
Um deles é reduzir custos. À medida que a empresa
cresce, aumenta a preocupação com custos fixos,
principalmente despesas administrativas. Por isso,
começamos a construir um centro de serviços compartilhados
no ano passado; estamos quase terminando a primeira
etapa, com a parte financeira, a contábil, a fiscal,
a de recursos humanos, a de compras e a de processos
de TI. Naturalmente, isso dá um ganho muito grande
com a redução de pessoas; quando fomos contabilizar,
vimos como fazíamos coisas inúteis dentro da empresa.
Por exemplo: os mil vendedores têm computador
de mão; apesar disso, passavam o pedido por telefone.
A gente não sabia disso. Com o CSC, acabamos com
esse escritório, e agora o vendedor não tem escolha.
Com o CSC, essas coisas começam a aflorar. Outro
pilar, ainda nesse plano de dez anos, é o supply
chain. Nossa cadeia é complexa, a margem é pequena
e precisamos ganhar no volume. Num projeto de
atendimento, trabalhamos com um indicador chamado
Otif, on time in full (a quantidade certa, na
qualidade certa, na data combinada com o cliente).
O problema da empresa é agregar mais valor no
serviço, porque a produção está bem. O terceiro
pilar é a terceirização, a nosso ver um caminho
sem volta.
RINALDO — A Rio
Norte vende produtos da Socôco, é responsável
por cerca de 40% das vendas da Socôco no Brasil.
Nosso maior desafio, nosso e da Socôco, é pegar
informações da Socôco e repassar a nossos clientes.
Eles são os supermercados, as grandes redes, as
pequenas lojas, e todos eles querem trabalhar
com menos estoque. A Socôco usa um sistema de
gestão de armazéns da Datasul, está trabalhando
com um sistema de radiofreqüência em todas as
caixas; nossa idéia é pegar essa informação deles
e trabalhar junto a nossos clientes. A Rio Norte
não tem frota própria, trabalha com transporte
alugado, então é difícil ajudar nosso cliente
a ter uma área de estoque menor. Nossos clientes
dão área cada vez maior para os consumidores e
cada vez menor para o estoque. Para isso, eles
precisam se organizar, e precisam da ajuda do
fornecedor, desde o início da produção. Ele não
quer ligar para saber do pedido, ele quer dinamismo.
O desafio é falar menos digital e mais analógico,
entender mais nossos usuários. E cada usuário
vê só o departamento dele, não vê a importância
da informação quando corre na empresa. É um trabalho
a fazer com nossos clientes, nosso fornecedor,
mas é também um trabalho interno. Minha dificuldade
é também sentar com o usuário de negócio do meu
fornecedor, a Socôco.
IH — Você tem bom acesso à
área de TI da Socôco?
RINALDO — Tenho.
Eles estão trocando software. Quando estiverem
com essa instalação avançada, vamos finalizar
esse projeto de ter informação o mais rápido possível.
A Socôco já nos fornece informações pela extranet,
mas da Rio Norte para os clientes ainda é por
telefone. Pretendemos automatizar mais esse processo.
MÁRCIO — Muita
gente conhece a Melitta pelo filtro, mas o carro-chefe
é o café. É um mercado difícil, com mais ou menos
1.500 empresas e 2 mil marcas, todas têm seu torrefador.
Para agregar mais um tempero, a Melitta é uma
empresa familiar alemã — mas temos autonomia para
operar no Brasil da melhor forma para o negócio.
Nestes últimos dois anos, meu papel na Melitta
foi fazer a aproximação da área de TI e dos negócios,
o descolamento era muito grande. Hoje, a TI participa
da diretoria, entra nos projetos na fase de concepção,
é muito interessante. É claro que, no nosso mercado,
uma questão sempre importante é custos. Então,
há um ano e meio, começamos a terceirizar. Com
telecomunicações, sem investir nada, conseguimos
integrar nossos sites, reduzir custos e atualizar
a tecnologia. Bastou achar o parceiro adequado.
IH — É mais terceirização de
serviços?
MÁRCIO — As telecomunicações
são todas terceirizadas. O mercado está cheio
de opções boas para a terceirização de coisas
como telecomunicações, impressão e infra-estrutura.
Sinto falta de opções para a terceirização de
aplicações. Tive dificuldade quando terceirizei
o ERP. Outra dificuldade é o grande número de
fornecedores e de opções; você olha o portfólio
de uma empresa, ela atende todo mundo em todas
as direções. É difícil achar a empresa que melhor
se adapte às características da sua empresa. Além
disso, pelo menos na Melitta, o tempo de acompanhar
e instalar uma solução está cada vez menor. Muitas
vezes, o fabricante dos aplicativos não tem a
mesma flexibilidade; o aplicativo engessa em parte
o negócio. Outra coisa que notei nestes dois anos
de Melitta: existe informação, de todo tipo, vinda
de várias fontes. Mas existem ilhas de informação.
Vendas é uma, marketing é outra, controladoria
é outra. Todas estão certas, mas nascem de visões
distintas. A área de TI está agindo como mediadora,
para ajudar a empresa a definir a melhor visão.
Até abandonamos um projeto de business intelligence,
pois achamos que a cultura ainda não está enraizada.
Criamos sistemas para consolidar as informações
do ERP com informações de mercado, dá para fazer
análises bem sofisticadas. Mais para a frente,
devemos pensar de novo numa ferramenta de BI,
mas, com a cultura já formada, será mais fácil.
WILSON — Nossos
desafios são muito parecidos. A Cargill é global,
está em 63 países há 140 anos, há 40 anos no Brasil
com várias unidades de negócio, com vários negócios
distintos — carne, com a Seara; soja; óleo enlatado,
com a Lisa. Temos muitas linhas de produtos, cada
uma é unidade de negócios distinta, é trabalhoso
trabalhar perto dessas unidades. Temos também
funções compartilhadas: RH, a própria TI, jurídico,
financeiro, contas a pagar. É bom, porque o ambiente
é complexo. Em termos de desafios: estamos numa
indústria de margem pequena, o que nos faz vistos
como área de custo, em vez de área de agregar
valor. Esse é o principal desafio: como mostrar
às unidades de negócio onde e como agregamos valor.
Isso só acontece capturando valores dos nossos
projetos e das nossas implementações. Só assim
a área de TI vai se transformar numa área de investimentos.
Além de tudo, existe o problema de transformar
esses dados todos em informação. Outro ponto é
a proteção das informações, a segurança; na Cargill,
essa responsabilidade é compartilhada entre informática
e controladoria. Isso precisa ser olhado com carinho,
para desenvolver ferramentas. A área de TI precisa
ser inovadora, não no sentido de novidade tecnológica,
mas no de propor soluções de valor para a empresa
e os clientes da empresa. Outro desafio são as
parcerias. A terceirização vai crescer mais, o
que significa, na prática, fechar parcerias com
fornecedores em pouco tempo.
LUIS — A Coinbra
pertence ao grupo francês Louis Dreyfus; é uma
trading, com vários tipos de produtos do agronegócio.
Temos soja, açúcar e álcool, citros e uma atuação
menor em café e plumas de algodão. A empresa tem
crescido nos últimos anos por aquisições e expansões,
é um desafio para a TI incorporar novos negócios,
uniformizar linguagens. Hoje temos vários ERPs,
por exemplo. Agora precisamos padronizar, racionalizar,
montar uma estrutura de apoio mais eficiente.
Mas, para a TI, o real problema é alinhar a TI
aos negócios, antecipar as direções dos negócios.
Num setor de margens muito estreitas, de economia
de escala, isso sempre significa fazer mais com
menos, procurar alternativas criativas e baratas.
Esses são os pontos essenciais.
ROGÉRIO — O carro-chefe
do grupo Friboi é carne in natura, mas temos também
alimentos industrializados, com Anglo, Swift,
Bordon, Sola, Carioca. E também temos produtos
de higiene e limpeza, com as marcas Albany e Minuano.
A principal tarefa da área de TI tem sido acompanhar
o crescimento do grupo. Em janeiro de 2004, tinha
12 fábricas e 8 mil funcionários; em dezembro,
tinha 22 fábricas e 16 mil funcionários. Com isso,
a área de TI saiu de Goiânia e foi para São Paulo.
Foi um problema, metade da equipe não quis se
mudar, porque Goiânia é uma cidade fantástica;
ainda hoje estamos recompondo a equipe. Hoje,
temos ERP próprio; por causa da perspectiva de
crescimento, avaliamos se vale a pena comprar
um pacote. Com o desenvolvimento próprio, estamos
constantemente avaliando a qualidade do software,
em função da segurança, preocupados com CMM, Cobit,
Sarbanes-Oxley. E nos preocupamos com nossa equipe,
para que entenda o negócio; alguns dos nossos
funcionários novos nunca entraram num frigorífico.
Um erro na manutenção de um programa pode interromper
a produção na fábrica; determinadas paralisações
implicam em 400, 500 pessoas paradas, porque o
sistema está inoperante.
IH — Muito do que vocês disseram
remete ao legado. Qual é a dimensão desse legado?
DOMINGOS — Tenho
uma boa definição de legado: é tudo o que funciona.
CARLOS — Hoje,
me perguntam: que ERP vocês usam? Eu respondo:
é próprio. E aí me dizem: ah, então vocês não
têm ERP. Tenho: é próprio! Não duvido dos benefícios
da terceirização, quando bem-feita. Mas faço um
apelo às pessoas de TI: não devemos virar gestores
de contratos, mas gestores de atendimento das
necessidades que a empresa nos coloca, do jeito
mais racional possível, seja qual for. E devemos
virar bons gestores de pessoas, nada acontece
sem uma boa condução das pessoas.
LUIS — Para o
setor de trading, com produtos e mercados diferentes,
com uma originação de produtos muito complexa,
é difícil achar um ERP aderente. Nossa melhor
mistura tem sido 60% de ERP de mercado, 40% de
sistemas verticais, personalizados.
CARLOS — Na Guarani,
temos alguns pacotes de mercado nessa linha, para
aplicações periféricas, específicas. Não dá para
desenvolver software de legislação trabalhista,
de ambulatório. Uma curiosidade: no setor de usinas,
constituímos um grupo de usuários que se chama
Gatua, Grupo das Áreas de Tecnologia das Usinas
de Açúcar e Álcool. Completou um ano em março
e já congrega 61 grupos do setor. A troca de informações
possibilitou, não vou dizer eliminação, mas redução
da necessidade de contratar consultoria. Você
manda um e-mail para o nosso fórum e em cinco
minutos recebe n respostas. É a substituição da
consultoria pelo benchmark.
IH — Que particularidades do
mercado brasileiro dão mais trabalho à equipe
de TI?
DOMINGOS — Acho
que 30% da nossa complexidade tem origem na área
fiscal; todo dia temos algo diferente para fazer.
WILSON — Um estudo
mostrou que existe alguma mudança numa lei de
impostos a cada 28 horas. Nem todas afetam todo
mundo, mas alguém tem que olhar.
ADHEMAR — Acho
que a TI precisa agregar valor ao negócio, e coisa
e tal. Mas existem coisas que a gente tem que
fazer, como essa parte fiscal, que não agregam
nada. O usuário de negócio olha aquilo como um
desperdício.
DOMINGOS — Aí,
infelizmente, a justificativa é pelo risco. É
triste pedir dinheiro justificando pelo risco.
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