|
MARCO
— Entrei
no Ponto Frio no início de 2003, faço parte da
renovação e da profissionalização da diretoria,
que era familiar. Entrei para rever a tecnologia,
renovar a cadeia produtiva, otimizar processos
de retaguarda e criar agilidade na loja e nos
canais virtuais. Isso exige revisão do processo
de atendimento, para agilizar a boca de caixa,
onde a transação é efetivamente concretizada.
O cliente passa cinco horas dentro da loja, escolhendo
a mercadoria, mas quando chega no caixa quer liquidar
a transação em dez segundos. Nos últimos dois
anos, o trabalho foi dar à operação uma nova estrutura,
com aplicativos integrados. Havia rupturas no
fluxo de informações entre sistemas do Ponto Frio.
Então, nosso trabalho foi o de criar o alicerce
para a empresa crescer. Outro desafio para este
ano é a revisão de todos os processos na cadeia
de suprimentos, o famoso supply chain. Fizemos
alguns investimentos no ano passado e, este ano,
estamos buscando novas tecnologias. Por exemplo,
novos algoritmos de ressuprimento automático (inclui
o tempo necessário à compra e ao transporte da
mercadoria), revisões de como fazemos pedidos
e abastecemos as lojas, revisão da malha logística.
Fizemos uma operação no Dia das Mães; quando você
promete no jornal, compre o presente no sábado
que entregamos no domingo, é grande a responsabilidade,
com risco de imagem.
ROGÉRIO — Assim
como o Burger King, sou novo no setor, comecei
em outubro de 2004. O tema deste encontro combina
com o que pensamos: custo baixo na construção,
na instalação e no suporte do restaurante de modo
geral, porque a concorrência é forte. Vamos buscar
inovação no atendimento. Tentamos traçar a mesma
linha para os franqueados, temos vários fornecedores
de sistemas homologados para o Brasil. Isso reduz
o custo de abertura de nova loja, pois a concorrência
faz o fornecedor inovar e manter o preço competitivo.
Estamos trabalhando para ter a opção de terceirização,
com fornecedor que construa toda a loja e dê até
o suporte pós-venda, inclusive de sistema. O franqueado
economiza e pode aplicar os recursos em outra
área da loja, como recreação infantil ou Internet.
Nossa função principal na empresa é essa: desenvolver
fornecedores, deixar o franqueado se preocupar
só com o negócio, e manter assim nossos clientes
satisfeitos.
AGNELO
— Eu também sou relativamente
novo no varejo... com 22 anos de Renner. A missão
da empresa é “encantar a todos”, mas é complicado,
o que encanta hoje, amanhã não encanta mais. Por
isso, a pauta de TI é simplicidade de processos.
Um exemplo: quando você põe tecnologia, consegue
fazer simples; mas quando põe sopa de letrinhas,
aí consegue megaprojetos e megacustos. Não é por
nada que, há mais de 15 anos, a gente botou tecnologia
para fazer o cliente receber tudo o que a Renner
oferece enquanto está dentro da loja. A Renner
entrega cartão em cinco minutos há mais de dez
anos. Para isso usamos a tecnologia: para não
ter retaguarda, não ter emissão de nada depois.
O mesmo com o carnê de pagamento ou o extrato
de cartão rotativo: dizemos ao cliente, no ato
da compra, quanto ele vai pagar já na próxima
prestação. De novo, é tecnologia para ter uma
coisa simples, sem nenhum processamento na retaguarda.
Com a simplicidade, não gastamos 10% do total
de despesa de TI em manutenção de qualquer coisa
de TI. TI é uma coisa cara, mas não gastamos em
manutenção. A gente usa consultores, mas, sem
a sopa de letrinhas, o consultor faz o que a gente
quer que ele faça, no prazo que estabelecemos.
Por exemplo, a gente finalizou agora a instalação
do Retek, um dos melhores sistemas de merchandising
do mundo, usado pela GAP, pela Old Navy, pela
Nordstrom. O plano era de 18 meses, mas instalamos
quatro módulos em oito meses, e só desviamos 1,5%
da previsão de custos original. Nossos desafios
agora são: precisamos consolidar a instalação
do Retek, que é muito recente. Somos os únicos
do mundo a rodar quatro módulos em Linux. Vamos
também consolidar o portal de relacionamento com
os fornecedores; nosso mercado se caracteriza
por fornecedores pequenos e sem tecnologia. Colocamos
tecnologia na casa deles e, hoje, a Renner não
recebe nenhum caminhão se o próprio fornecedor
não agendar a entrega e a doca da Renner. Vamos
evoluir agora, passar à terceirização com nossos
fornecedores, ou seja, vamos comprar a matéria-prima
e eles passam a fazer para nós só a confecção.
Vamos instalar este ano um projeto de RFID, mas
não dá para pôr etiqueta de US$ 1 em cueca, a
não ser que eu consiga usar essa etiqueta várias
vezes, e esse é o desafio do projeto. Estamos
consolidando todo o call center e nossa rede corporativa;
para criar uma rede de quatro níveis de comunicação,
vamos instalar VoIP.
MAURO — No
Grupo Nobel, as prioridades são também simplicidade,
lucro e logística. A simplicidade a gente também
procura na operação de uma coisa já simples, porque
não tenho crediário nem financiamento na livraria.
Meu financiamento é o cartão de crédito e o cheque
pré-datado, mas um terceiro cuida disso. Uma experiência
nova para nós, do ano passado, foi a emissão de
cartão de fidelidade eletrônico e, com ele, o
vale-presente eletrônico. Até então, a gente trabalhava
com vale-presente em papel moeda. Nosso grande
problema é franquia. Temos só uma loja-piloto,
uma megastore, onde a gente instala e testa tudo.
Como controlar essas franquias? Ele é cliente
interno da TI. Nós até brincamos: temos 143 diretores,
os 140 franqueados e os três diretores internos.
Nosso problema é o tamanho do Brasil, estamos
em quase todos os Estados, o frete é caro, 80%
de uma loja é consignação, então tudo o que vai,
e não vende, uma hora volta. Tentamos negociar
com várias transportadoras. Mas o Grupo Nobel
resolveu criar uma empresa de logística para atender
só a rede franqueada. Com o frete mais barato,
agora vamos melhorar o lucro na loja.
IH
— Que parte tem a gestão das pessoas na gestão
de ativos e riscos da TI?
MAURO
— Ainda não é sensível,
porque o franqueado não é obrigado a aderir. Essa
empresa vai ser mais ou menos um clube. Já temos
umas 30 lojas e, todo mês, entram mais duas ou
três. Mas a gente só apresentou a empresa em outubro.
Com o tempo, acho que vamos chegar a umas 100
lojas. Para o franqueado, falando de TI, franqueamos
duas opções de sistema, para ter concorrência.
Mas tudo isso é complicado: por exemplo, são 140
franqueados, 140 CPNJs totalmente diferentes.
Mas o cliente sai de São Paulo, faz uma viagem
à Zona Franca de Manaus, compra um CD ou um livro
numa loja Nobel lá, não gosta, chega em São Paulo
e quer trocar. É outra empresa, é outro CNPJ,
mas ele não quer nem saber.
ALTAIR — Represento
aqui a Luigi Bertolli, a Cori e a Tommy Hilfiger.
É uma experiência nova para mim a administração
do varejo e a tecnologia para o varejo. É uma
rede de 45 lojas, só quatro franquias, o resto
é loja própria. Eu faço consignação do meu produto
para a franquia, não vendo, então a logística
dos produtos e o controle de estoque são complicados.
E tenho um produto de três dimensões: o produto,
o tamanho e a cor. É difícil achar no mercado
um software que atenda a essa necessidade. Peguei
a área de tecnologia já com uma estrutura formada,
mas a custo elevado. Tivemos no último ano um
grande trabalho de redução nos custos de conectividade.
Minhas lojas estão todas interligadas, com redução
de custos de 30%. A margem é apertada; estamos
sempre em busca da redução do custo, sem perder
a qualidade do serviço. Sofri muito também com
integração de sistemas na empresa, aliás sofro
até hoje, porque, no passado, desenvolvemos muita
coisa em paralelo ao ERP. É um sistema de difícil
administração, porque os dados não estão sempre
online com meu banco de dados gerencial, nem sempre
as informações batem. Estamos num processo de
unificação desses sistemas. Já começamos a usar
BI, é uma ferramenta sensacional. Peguei também
um parque de servidores obsoletos, tinha servidor
lá com oito anos. O computador do diretor era
melhor que o servidor. Uma outra coisa interessante
nessa história de integração da conectividade:
as transações eletrônicas, as conhecidas TEFs
(transferências eletrônicas de fundos), ficaram
concentradas num sistema só, o que reduziu bastante
o custo da operação e melhorou o tempo do checkout
— depois que as informações dos produtos já estão
no sistema, leva em média 25 segundos para concluir
a operação. Antes era descentralizado, parte feito
em casa e parte terceirizado. O Fisco nos deixou
numa situação complicada, porque você é obrigado
a emitir a transação do cartão junto com o cupom
fiscal, então, se o cartão não passa, não dá para
concluir a operação. Tudo isso é reflexo da retaguarda:
quanto melhores os bancos de dados, quanto mais
simples a operação, melhores as coisas lá na boca
do caixa. Então fizemos um grande trabalho de
retaguarda, mostrando para as pessoas responsáveis
que elas são responsáveis pelo bom atendimento
ao cliente. Para este ano, um dos grandes desafios
é fazer o cliente comprar pela Internet, mas o
público feminino é exigente. Chegamos até a pensar
em desistir do projeto, mas esse não é o caminho.
Queremos colocar um provador virtual, ou algo
do tipo, onde o cliente coloque as medidas e o
sistema mostre a roupa num boneco virtual.
PAULO — Eu
também sou novinho, estou na diretoria de informática
do McDonald’s há 17 anos. Tinha dois micros quando
eu cheguei. Então, quero dividir meu tempo em
duas partes, a experiência do cliente e a da empresa.
Um dos nossos projetos é o McInternet. A gente
instalou acesso à disposição dos clientes em quase
todos os 535 restaurantes, faltam só uns 20. Para
a área de TI, foi um modelo de investimento diferente,
fizemos um modelo de negócios com parceiros, o
que nos permitiu fazer investimento de mais de
US$ 20 milhões, e isso trouxe para o McDonald’s
conectividade e uma série de outros benefícios,
além do cliente. Tivemos mais de 8 milhões de
logins em 2004, ainda na fase de instalação —
25% dos clientes nunca tinham acessado a Internet
antes, foi a primeira vez. Em São Paulo a gente
não percebe isso, mas o Brasil ainda não é um
país tão desenvolvido assim. No lado do cliente,
a gente implementou o McEntrega, um projeto de
entregas que começou por telefone e, em abril,
entrou na Internet. Somos um dos poucos países
do mundo que vende lanche pela Internet, com todos
os desafios operacionais: tudo online, não pode
ter problemas no link, o lanche precisa chegar
quente. Trabalhamos muito forte com VoIP. Com
a rede de telecom instalada para o McInternet,
instalamos o McEntrega e a VoIP, já estamos com
350 pontos de VoIP. Estamos muito satisfeitos,
tivemos redução de custo de telefonia de 40%,
além da facilidade de suporte aos restaurantes,
da instalação de sistemas de pedidos para nossos
centros de distribuição — é uma vantagem competitiva.
Começamos a desenvolver no Brasil, em 2004, o
sistema de BI para toda a América Latina. Estamos
revendo o nosso processo de abastecimento para
alguma coisa do tipo entrega automática nos restaurantes.
TEF era um problema para o McDonald’s, sabíamos
que o cliente queria pagar com cartão de débito
ou crédito, mas, até dois anos atrás, não podia:
nosso tíquete médio é baixo, perto de R$ 7,00
— e o custo das transações bancárias não justificava.
Com um conjunto de aplicações funcionando com
telecom, a TEF foi só mais uma, o que justificou
o investimento. No lado do McDonald’s: estamos
adotando um sistema mundial de controle operacional
— um consultor de operações vai viajar pelo mercado
e pelos restaurantes com um Pocket PC na mão,
fazendo uma auditoria da qualidade nos restaurantes.
MARIA CECÍLIA — A
Livraria Cultura faz 60 anos neste ano, mas a
área de TI tem nove anos. Entrei na livraria para
montar a área de TI — tive a sorte de não ter
sistema legado. A Cultura é uma empresa familiar,
está passando da segunda para a terceira geração,
e essa nova geração quis tudo novo. Fazemos tudo
dentro de casa, até nosso POS no caixa é proprietário:
sistema de loja, Internet, caixa, back office,
ERP, tudo. A Cultura foi sempre conservadora,
só tinha uma loja, mas há cinco anos abriu outra
loja no Shopping Villa-Lobos, e pretende abrir
uma nova loja por ano até 2010. São lojas grandes,
com 3 mil metros quadrados em média, cuja TI é
cara, porque são altamente informatizadas. Até
agora, abrimos quatro lojas. Todo o nosso sistema
roda em tempo real, todas as lojas estão conectadas.
Na área de sistemas, as informações de estoque
são estratégicas, não podemos errar no estoque,
pois é usado pelos vendedores e pelos clientes
na Internet. Até pedidos feitos via Internet são
vistos pelos vendedores na loja. Fazemos inventários
de lojas com 100 mil produtos de seis em seis
meses, para que as informações de estoque fiquem
corretas. O produto que vendemos é o mesmo do
concorrente, e por isso nos voltamos para a área
de serviços; por exemplo, a Cultura é a maior
importadora de livros do Brasil. Há dois anos
instalamos um sistema de fidelização e, nos caixas,
95% das vendas são identificadas. Isso está nos
gerando uma base de conhecimento. Funcionário
novo passa por todas as áreas da empresa, ou seja,
ele deve entender o processo do qual faz parte.
Então, a área de TI e a de RH andam muito juntas.
Quando abrimos uma loja, instalamos entre 50 e
60 equipamentos. Não há mais posto de trabalho
administrativo sem computador. Acho que quem lê,
não rouba, porque 15% do nosso faturamento vem
da Internet, e quase não temos fraude.
POSSETTI
— O grupo holandês SHV,
dono do Makro, está há mais de cem anos no Brasil,
mas eu sou diretor de TI do Makro somente. O Makro
atua em 22 Estados com 50 lojas, é uma empresa
de R$ 4 bilhões de faturamento. Em tudo que nós
fazemos no Makro, o grande desafio é manter a
simplicidade e os custos baixos. Isso é na verdade
atender bem o cliente, para ou aumentar as vendas
ou reduzir os custos. O cliente não paga por custos
altos. O Makro é uma empresa de auto-serviço para
o atacado. É comparável ao varejo, mas as quantidades
são maiores; o tíquete médio no Makro é de R$
200,00. Mantemos nossas margens brutas na metade
do varejo, ou seja, se hipermercados trabalham
com 25%, trabalhamos com 11%. É muito difícil
manter esses custos e as coisas simples. Todas
as nossas lojas são interligadas com rede corporativa
de voz e dados, todas elas são independentes,
ou seja, todas têm seus servidores, seus sistemas
e se comunicam com a parte central. Toda a comunicação
com nossos fornecedores é eletrônica. Não fazemos
propaganda, porque nossos clientes são cadastrados,
são 1,5 milhão de clientes no Brasil. Um dos nossos
maiores problemas é com os impostos. Só o nosso
arquivo magnético federal tem mais de 600 milhões
de registros por ano. A legislação é diferente
em cada um dos 22 estados, a cada dia temos três
ou quatro alterações que foram feitas ontem, que
valem amanhã, mas que só vamos saber daqui uma
semana. Nem reclamo da carga tributária, mas da
complexidade tributária.
IH
— Como justificar investimentos na TI para obter
encantamento constante do cliente?
AGNELO
— Certamente temos de
mostrar o payback da história toda. Um exemplo:
criamos o saldômetro, um cartão que integramos
à rede e que dá o saldo do cliente. Custa US$
60 cada um daqueles cartões, multiplica pelo número
de clientes da loja, pelo número de leitoras,
dá o investimento total. Na teoria, não tem payback.
Agora, se você atrelar um sistema simples, um
crédito desburocratizado ali na hora, você aumenta
as vendas. Ele passa o cartão, vê que seu limite
está baixo, mas o sistema vê que ele é bom pagador,
e aumenta o limite dele ali na hora. Pessoas que
não comprariam passam a comprar — sem nenhuma
mídia, sem gastar em correspondência, só pelo
ato de passear na loja.
MARCO
— A palavra-chave é medir.
Com métricas acompanhadas ao longo do tempo, você
consegue mostrar as variações positivas e negativas.
No caso do Ponto Frio, tive sorte. A empresa praticamente
não investiu nos últimos quatro anos, estava com
uma TI obsoleta. O Ponto Frio opera 342 lojas
no país, o primeiro desafio foi: vamos medir o
que está acontecendo com essa operação, qual é
o patamar de receita, em que patamar queremos
chegar, como estão os custos unitários por elemento
de operação. A palavra-chave é medir, vamos medir
tudo, cruzar tudo com tudo e ver quais são os
incrementos positivos ou negativos das nossas
ações. É aí que a gente consegue manter a credibilidade
com a alta administração. Não se deve inovar por
inovar.
|