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IH
— O que é gerir ativos e riscos da TI?
MAURÍCIO
— O
tema de gestão de ativos e riscos está muito em
voga em função do Basiléia 2 — trata de gestão
de risco de crédito, de risco de mercado e de
risco operacional. Ninguém pode fazer nada a respeito
de risco de mercado, o governo sabe disso. Pensamos
controlar o risco de crédito, e mesmo assim temos
surpresas. Eu sou o exemplo vivo disso. Graças
a Deus, ainda vivo. (risos).
IH
— O Maurício foi o CIO do Banco Santos...
MAURÍCIO — Quanto
ao risco operacional, temos boa condição de ajudar,
e gestão de ativos tem tudo a ver com a gestão
de risco operacional. Eu dividiria gestão de risco
operacional na área de TI em três tópicos. O primeiro
é a gestão de perfis de pessoas, ou seja, o que
as pessoas podem e devem fazer. O segundo é a
gestão da infra-estrutura: hardware, software,
telecomunicações e, obviamente, a gestão da continuidade
e da estabilidade dos negócios dependentes dessa
infra-estrutura. O terceiro é a gestão de conteúdos
e processos: quem administra quais conteúdos e
como. Algo na linha do ECM e do BPM (ECM: gestão
dos conteúdos da empresa; BPM: gestão dos processos
da empresa). Como, usando ECM e BPM, podemos ter
processos aderentes à realidade da empresa, auditáveis,
eficientes, alcançados pelos clientes por meio
de interface única, interligados aos legados da
empresa? A área de TI pode fazer muito. Pode uniformizar
as plataformas, para simplificar a administração
e, conseqüentemente, diminuir o risco. Usando
vários mecanismos, pode prover contingência e
continuidade dos negócios. Pode treinar o pessoal,
de modo a diminuir a ocorrência de falhas. Pode
monitorar a infra-estrutura — a disponibilidade,
o desempenho, a saturação de determinados legados,
os níveis de serviço. É importante tornar fiel
a documentação dos processos, a documentação tem
de ser espelho do processo e o processo, espelho
da documentação. É boa forma de diminuir o risco.
É bom treinar o pessoal para que valorize os processos
— não as ferramentas, não os sistemas operacionais,
não as linguagens. Nada disso faz sentido. O que
vale a pena é o processo, pensando desde o princípio
em vulnerabilidades, flexibilidade e capacidade
de auditoria. Outra questão: é preciso trabalhar
de forma mínima, sempre questionar toda e qualquer
mudança no ambiente de TI, porque às vezes inserimos
uma novidade na TI e inserimos risco também.
ADILSON — Cada
banco, conforme o tamanho, enxerga esse tema de
maneira diferente. No Banco Alfa, não temos desenvolvimento
de sistemas, usamos soluções de mercado. A diferença
só está em quem faz, é fornecedor externo contra
fornecedor interno, mas as outras preocupações
são as mesmas. Resolvi selecionar um pouquinho
das pesquisas, feitas pelo mundo, sobre esse assunto;
o que fazemos aqui, praticamos aqui ou sofremos
aqui não é uma especificidade nossa, o mundo está
passando por transformações. Por exemplo, a lei
Sarbanes-Oxley. Em 2005, previu o Gartner, 10%
do orçamento para serviços de TI, no caso empresas
na América Latina, será gasto para cumprir as
exigências da Sarbanes-Oxley, quando for o caso;
vejam o impacto desse tipo de regulamentação na
economia, nas empresas e na TI. Num outro estudo,
da Oracle Corporation e da revista The Economist,
feito com 136 executivos e com 65 investidores,
os entrevistados falaram de três coisas críticas:
comportamento ético dos profissionais, boa governança
e transparência nas negociações. Tudo isso vem
ganhando importância muito grande para quem investe
em TI ou gerencia a TI. Ao mesmo tempo, uma outra
pesquisa, feita pela Veritas Disaster Recovery
e pela Dynamics, mostrou que só 38% das empresas
possuem um plano integrado de continuidade dos
negócios. Então, tem um gap, e esse gap deve ser
estudado. A gente precisa entender também que,
aqui, o Banco Central está auditando as instituições
financeiras, por meio de um modelo de governança
chamado Cobit. A exigência é a mesma, para banco
grande, médio ou pequeno. Então, essas coisas
não têm muito a ver com o porte, ou seja, todos
temos o que fazer.
ADEMAR
— Até pouco tempo, as
seguradoras não ligadas a bancos não tinham muitas
dessas preocupações. Mas a Susep (Superintendência
de Seguros Privados) vem regulando cada vez mais.
Isso começou com a circular 249, com uma série
de passos a seguir, inclusive ter CPD para recuperação
de desastres, que, por incrível que pareça, a
maioria das seguradoras não tem. Esse é o conceito
de proteger não só os acionistas, mas também os
segurados. Eu tenho dito na empresa que o ativo
mais importante é informação, porque é possível
repor todos os outros ativos. Informação perdida
não há quem reponha. Uma das dificuldades é que,
para cuidar da informação, é preciso dar muito
valor a processos, inclusive o de documentação.
Tem aquela triste história de organização e métodos,
que morreu. E hoje eu vejo: a TI não funciona
sem processos, e processos negociados em toda
a empresa. E às vezes seguir os passos conflita
com outros interesses na empresa, é um problema
a resolver. Acho que esses dispositivos legais,
como a circular 249, ajudam a gente. Outra circular,
a 285, obriga a seguradora a dar conta de todos
os ativos de informática e versa sobre a responsabilidade
do diretor de informática. Vamos ter muito trabalho
para mostrar como os ativos de informática estão
bem administrados e como os conteúdos estão à
prova de desastres.
JOSÉ — Todos
sempre citam processos, pessoas e infra-estrutura.
Mas, sem pessoas com qualificação, pessoas com
boa vontade para entender e gerir toda a infra-estrutura,
nada vai adiantar. Falar sobre recuperação de
desastres é chover no molhado, quase ninguém tem
isso no Brasil. Todo mundo tem dados replicados,
eles não garantem recuperação de desastres. Acontece
que informática é uma coisa recente na nossa vida;
quem tem a minha idade, viu como antes tudo era
feito manualmente. A informática tem evoluído
realmente. Não tem mais retorno, essa evolução
vai indo em escala geométrica, a informática vai
ser uma luta constante dentro das empresas. Se
a empresa quiser continuar crescendo, vai precisar
de sistemas com todas as informações necessárias,
com garantia desses dados para o futuro. Essas
regulamentações todas, Basiléia 2 e Sarbanes-Oxley,
dão uma organizada nisso, mas toda empresa que
pensa no futuro já pensa nessas coisas todas:
os controles internos, as auditorias. E a gente
não faz nada porque nasceu aqui. Isso tudo é um
movimento mundial. A gente se relaciona muito,
o mercado está muito aberto, não tem muita saída,
ou a empresa está incluída nesse movimento mundial,
aliás de onde vêm essas regulamentações, ou está
fora do mercado. Não tem saída e o banco não é
diferente de ninguém. Mas leva tempo para internalizar
a cultura do controle. Sobre infra-estrutura,
o próximo salto é apartar, estamos construindo
um datacenter em Brasília para isso, para recuperação
de desastres.
JOÃO — Sobre
gestão de ativos, entendo ativos como tangíveis
e intangíveis. Quando falamos de ativos tangíveis,
falamos do que conseguimos gerenciar melhor, como
infra-estrutura. Quando falamos de ativos intangíveis,
falamos do valor associado a cada informação,
que sequer é quantificado ou medido, e por isso
é difícil a gestão dos riscos associados a esse
valor. Mas, quando se fala de mão-de-obra, de
capital intelectual, é preciso pensar em gestão
da força de trabalho. O capital intelectual é
um ativo que pode ser gerenciado, com aprendizado
sistematizado, gestão eletrônica de documentos,
gestão dos conteúdos da empresa. Mas como as empresas
gerenciam ativos? Elas tem um departamento específico,
tem lá um software especializado, que controla
o inventário dos ativos. Mas qual é a inteligência
disso? Como, a partir do inventário, a empresa
consegue saber se está aplicando os recursos necessários
para atender um processo de negócio? Qual é o
retorno sobre o investimento feito nos meus ativos?
À medida que as empresas crescem, precisam de
controle em tempo real. Uma empresa pode ter abrangência
nacional, mas a gestão é centralizada. Como o
CIO pode saber que um funcionário desconectou
um PC da rede e o levou para casa? Ele só sabe
que o PC foi desplugado, mas não sabe o que aconteceu
com as informações. Sem processos e infra-estrutura,
não é possível saber qual é o prejuízo provocado
não só pela falta de segurança física, mas também
lógica e estratégica. Por isso, a gente precisa
dizer que Basiléia 2 e Sarbanes-Oxley são bênçãos
do céus, são processos que a área de TI ganha
de presente para implementar.
PATRÍCIA — Em
2001, o SPB nos pegou de surpresa — nós e o mercado
inteiro. A Tecban teve de instituir uma câmara
de compensação e liquidação, para nós a tecnologia
e a regulamentação foram surpresa. A câmara é
sujeita à resolução 2.554, que trata de controles
internos e é a resposta do Banco Central ao Basiléia
1. Não bastava fazer, era preciso provar que fazia.
Precisamos passar por processo de formalização
muito grande. Tivemos cerca de um ano, e fizemos
um mapeamento macro de todos os processos da Tecban,
processos de negócio e de suporte ao negócio,
e fizemos uma grande parte da identificação de
riscos: a 2.554 pede que você conheça os riscos
e trabalhe neles. A Tecban é uma empresa muito
operacional, nosso negócio é administrar caixas
eletrônicos de auto-atendimento. O mais interessante
é que nossos maiores riscos não eram ligados à
operação das máquinas, mas à operação da TI, à
segurança da informação. Acesso é de longe o maior
risco, com a integridade e a disponibilidade das
informações ao longo do tempo. O segundo maior
risco é desenvolvimento íntegro de sistemas; é
preciso gerenciar corretamente fontes, objetos,
versões de aplicativos, configurações, mudanças,
além da conformidade, isto é, só desenvolver o
que realmente precisa ser desenvolvido.
TÁCITO — Mesmo
tendo me desligado da Serasa, de certa forma ainda
a represento. A Serasa pertence aos bancos, presta
serviço aos bancos, mas é um serviço distinto,
de apoio a decisões de crédito, é tão vital quanto
serviços operacionais. Hoje, a Serasa recebe entre
2 e 3 milhões de consultas por dia. Dar garantia
da continuidade é muito importante. Mudança de
cultura foi uma dificuldade. Quando a Serasa decidiu
investir em certificação digital, o trabalho de
criar a infra-estrutura foi uma oportunidade semelhante
à trazida pelo Basiléia 2 e pela Sarbanes-Oxley.
O SPB nos deu condições de fazer coisas concretas,
pois tivemos de provar nossa capacidade de fazer
as coisas adequadamente. Com a infra-estrutura
de chaves públicas, a gente passou por umas 20,
30 auditorias. Cultura é muito importante, fazer
com que a empresa aceite e valorize os novos procedimentos.
Obtivemos a certificação da BS 7799 faz um ano,
e todo mês temos reuniões para avaliar o risco
na certificação digital. Não é fácil mensurar
o risco operacional, ou seja, quanto dinheiro
um banco perde com acidentes na operação. Na Serasa,
que vive de informações, a perda pode ser séria.
Por isso, construímos no ano passado um segundo
CPD, que já está operacional, com dois mainframes
síncronos, com continuidade praticamente imediata.
O que está em andamento é a documentação de tudo
isso. Estamos investindo também em processos de
gestão dos componentes dos software, como já fazíamos
no mainframe. Na minha visão, o importante é estabelecer
elos de realimentação. A gestão da empresa precisa
saber o que está fazendo. A Serasa já obteve o
Prêmio Nacional da Qualidade em 1995, em 2000,
e vai tentar se qualificar de novo. Para ser sincero,
para quem está no processo, é difícil. Mas isso
leva ao aculturamento, temos um grupo de medições
que olhamos periodicamente — é uma visão que te
empurra à nota dez.
IH
— Que parte tem a gestão das pessoas na gestão
de ativos e riscos da TI?
ADEMAR
— Uma das minhas grandes
frustrações como diretor é que nunca se aprende
a gerenciar pessoas; o mesmo departamento que
está bem este ano pode piorar no ano que vem.
E a TI hoje tem n camadas. Quando montamos meu
departamento, éramos quatro pessoas, fazíamos
tudo o que precisava ser feito. Hoje somos mais
de cem, mais os terceiros, e o backlog só aumenta.
O que nos falta agora é a pessoa que sabe ir ao
usuário, ao cliente, definir bem o que ele quer,
apresentar a solução — e ele ficar contente com
a solução. Mas o que tem acontecido? Você instala
coisas, o processo deveria funcionar sem nenhuma
manutenção, mas tem um monte de gente carregando
aquilo nas costas, é de noite, é sábado, é domingo,
porque tem um erro ou uma abordagem mal feita.
Por quê? Porque ninguém tem mais tempo para fazer
nada, e precisa fazer tudo muito depressa. Como
gente de TI, não temos que criticar as circulares
da Susep, mas antes usá-las para conseguir investimentos.
Minha grande preocupação é formar as pessoas para
que realmente consigam entender o negócio, associar
esse entendimento à TI, instalar uma vez só e
tudo funcionar. É o desafio que vivo perseguindo
e que não tenho alcançado.
PATRÍCIA
— A gente enxerga as
pessoas por três dimensões: o conhecimento, as
atitudes e as habilidades. São três dimensões
para gerenciar; pessoas são um ativo complicado.
Quanto ao conhecimento, além do problema de obtê-lo,
tem o da pessoa-chave. É um grande risco operacional
ter o conhecimento do negócio só na cabeça das
pessoas. Esse risco pode ser minimizado por documentação
e descrição de processo. Existem ferramentas para
isso, mas antes de mais nada: cultura, de novo.
Atitudes são uma coisa que a empresa pode gerenciar
até certo nível. Navegar na Internet em sites
que trazem risco para a empresa, ou usar mal o
e-mail, ou não trocar a senha. Isso dá para melhorar
com treinamento e conscientização. E tem que auditar
tudo isso. Quanto às habilidades, são o que a
pessoa é capaz de fazer: ser líder, auditor, executivo.
Isso tudo é o campo fundamental da gestão do conhecimento.
E pode automatizar o quanto for: se uma pessoa
não tiver o conhecimento, a atitude ou a habilidade
necessária, vai estragar tudo. WALDIR — O mais
importante na empresa é o capital humano; toda
empresa precisa de política muito forte de motivação.
O básico é ter confiança no capital humano, ou
a empresa desce a níveis exagerados de controle
e perde eficiência. Treinar é a palavra-chave.
Se você conseguir motivar as pessoas a ponto de
ter controles, ótimo. Acho que diminuir riscos
está nas mãos das pessoas. Se não tiver confiança
nas pessoas, elas sempre acham um jeito de burlar
os controles, por mais controles que existam.
IH
— Uma pergunta ao Maurício, sobre atrelamento
da TI aos objetivos de negócio: no caso do Banco
Santos, houve uma dissociação entre a TI e o negócio?
MAURÍCIO
— Quando eu saí do banco,
ele já estava com problemas financeiros e já tinha
dificuldade de pagar o compulsório (ao Banco Central).
Quando saí, portanto, já havia tendência a demissões.
Mas em qualquer instituição financeira o CIO precisa
acreditar nos números que lhe fornecem. Você recebe
a boletagem (os dados relativos às operações financeiras)
e não tem como saber se aquele cliente existe,
se aquele cliente merece crédito, se ele não merece
crédito. Existem comitês dentro do banco para
avaliar esse merecimento, dos quais, aliás, a
TI nem participa. A única coisa que eu posso dizer
a respeito do banco é que todas as contas batiam,
mesmo sendo absurdas. Papel aceita tudo, Excel
aceita tudo e sistema aceita tudo. Além disso,
nós seguíamos à risca a regra de segregação de
funções: a área de TI não tinha nenhum acesso
a dados de produção — nenhum! Logo, eu não tinha
nem condições de saber como eram as operações.
E o pior é que tudo isso está certo, tem que ser
assim mesmo, e só isso já é um grande fardo, acreditem.
JOSÉ
— Essas regras, como
a Sarbanes-Oxley, definem justamente as responsabilidades
e as penalidades. Na tecnologia, os dados vêm
daquele contador que pergunta assim, “Chefe, qual
é o resultado que o senhor quer no seu balanço?”
Essas regras internacionais são uma bênção porque
permitem ao pessoal de fora olhar alguns indicadores
que não aparecem em balanços.
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