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IH
— Em que grau vocês usam BI, se é que usam? Quais
são os desafios?
Pulici — Com
BI, há sempre duas oportunidades, eliminar problemas
ou descobrir oportunidades. Até três anos atrás,
a DM (fabricante da linha de cosméticos Monange)
não analisava as informações com foco em explorar
novas oportunidades, mas com foco em resolver
problemas operacionais, do dia-a-dia. Depois,
começou a cavar oportunidades com essas análises,
mas de maneira não-estruturada, a área de TI começou
a cruzar diversas informações para executivos
de diversos setores. Dessa sementinha nasceu a
iniciativa de BI; é natural que cada área exija
informações cada vez mais complexas. Na verdade,
o projeto deixou de ser um projeto de TI, foi
o que fez essa sementinha brotar. Foi uma área
de negócio, a área comercial, que tomou a iniciativa.
O nosso BI pega todos os dados de faturamento
e cruza com as outras dimensões da empresa. O
fator de sucesso foi esse: a área de negócio experimentou
o sabor de uma informação analítica, gostou, e
agora estamos fazendo um projeto mais estruturado,
com Business Objects, mas ainda embrionário.
IH
— Até então vocês faziam tudo na mão?
Pulici
— Até três anos atrás,
fazíamos muito pouco. Depois passamos um ano desenvolvendo
respostas para as perguntas dos executivos — para
cada pergunta, uma resposta, não importa o sistema
ou a ferramenta. Acontece que, para dar resposta
a uma pergunta específica, às vezes o executivo
precisa fazer uma análise, navegar nas informações.
Essa resposta não é fornecida automaticamente.
A área de TI percebeu que ou a gente muda para
uma solução de BI ou a gente vai ficar sem responder
algumas perguntas. caiu.
Açakura — Até
três anos atrás, a Ripasa não era diferente de
nenhuma indústria, tinha desenvolvido seu próprio
sistema de informações gerenciais. Então, instalamos
o Cognos Power Play para alguns casos. Percebemos
que os executivos ainda não estavam preparados
para a ferramenta, ou seja, elas ainda a viam
como um gerador de relatórios. E a Ripasa, no
setor papeleiro, foi a última a adotar o sistema
da SAP. O primeiro módulo deve entrar em operação
em janeiro. Por isso, até então temos ilhas de
informações, e usamos o Power Play ou o Crystal
Reports para extrair informações. Mas é preciso
dividir a Ripasa em dois segmentos, a manufatura
e a distribuição. O que estamos fazendo para a
distribuição é por iniciativa da própria distribuição,
que queria um CRM e um balanced scorecard (BSC);
não dá para falar em BSC sem um bloco de dados
bem estruturado. Então, começamos a pensar em
BI há seis meses, estamos agora instalando uma
solução de BI da Execplan, já passamos a fase
mais crítica, a de definição de conceitos. Se
os conceitos não são padronizados, o projeto morre
antes de começar. Isso tudo é um projeto-piloto
da distribuidora, que depois devemos levar para
a manufatura. A distribuição é menor do que a
indústria, mas a necessidade é maior, porque a
distribuição é um negócio muito dinâmico.
Varzoni — Na
Caterpillar não temos BI instalado. Mas estamos
num projeto mundial, e a idéia é terminá-lo de
verdade em dez anos. O prazo para a implementação
é três anos, começa em 2005 nos Estados Unidos
e na Inglaterra, em 2006 chega em toda a América
Latina. É um projeto desenvolvido em Oracle. A
Caterpillar é um grupo, uma holding, e tem uma
divisão financeira, para a qual eu trabalho. Cada
divisão financeira tem a sua particularidade,
no Brasil o sistema financeiro é um, na Inglaterra
é outro, nos Estados Unidos é outro. Só que, mesmo
no Brasil, falando de mercado nacional, eu tenho
mútuo, Finame, CDC, várias aplicações. Às vezes,
o cliente já tinha um contrato em Finame, mas
quando ia fazer o CDC, tinha de cadastrar tudo
de novo, a gente não conseguia fazer um relatório
mostrando quantos contratos ele tinha. Para conseguir
isso, eu precisava falar com quatro, cinco pessoas.
Hoje, não temos como entrar no sistema da fábrica
para saber que, por exemplo, a fábrica fez 100
tratores e há mais 50 na linha de produção; a
gente sabe o que a fábrica vendeu, mas precisamos
ligar pra eles. A idéia do novo sistema é unificar
essas informações, cruzar o que a fábrica vende
com o que nós financiamos e com o que outros bancos
financiam, para estudar tudo isso e achar novos
mercados, novos projetos.
Balista — Até
chegar à Medley, nunca tinha visto tanta informação
na minha vida. A gente sabe tudo que roda no mercado,
o que o médico prescreve, onde ele prescreve,
que tipo de remédio os pacientes tomam, em que
farmácia foram comprar. A única coisa que não
aparece lá é seu nome. Fiquei até abismado, é
um mercado muito rico de informação. Quando cheguei
para falar para o meu chefe do BI, era o Cognos,
ele falou: “Já sei de tudo, põe isso para funcionar
aqui dentro da empresa.” Mesmo assim, existe um
vácuo entre as informações geradas e o executivo.
Por quê? Na Medley, brincamos: em vez de três
verdades absolutas, queremos uma mentira só para
todo mundo. Quanto foi o faturamento da companhia?
Foi R$ 1.482.025,32 — queremos que todo mundo
fale exatamente o mesmo valor. Pois não existe
critério: um faturamento é sem devolução, o outro
considera ICMS, o outro não considera IPI. A gente
tinha vários faturamentos, várias contas a pagar,
várias contas a receber. Começamos a nos organizar
de modo diferente, hoje falamos de BI sem usar
esse jargão. Vamos fazer balanced scorecard e
BI sem contar para ninguém que é balanced scorecard
e BI.
IH — Que nome vocês usaram?
Balista — Sistemas
de informação. Criamos um método: todos os gestores
da empresa têm que participar de uma reunião gerencial.
Nenhum gerente que participa dessa reunião conta
nenhuma informação para o gerente que não participou.
Se não, o pessoal de marketing diz que tem um
monte de eventos, o de produção diz que precisa
atender a Anvisa. A primeira coisa que a gente
faz é mostrar o faturamento, a Medley vendeu tanto,
nós demos tanto de desconto, essa é a venda líquida,
esse é o custo do produto mais contribuição, quanto
foi de marketing direto (no nosso mercado marketing
direto é um volume significativo) e depois, dividido
para cada centro de custo, esse é o lucro da companhia.
Na época, os diretores disseram: “Não vamos passar
isso.” Depois de um trabalho, conseguimos passar
o faturamento. Hoje é um faturamento único, e
está mais fácil a implementação de um BI. Estamos
fazendo a instalação desse sistema novo da TIM,
o que roda com o Windows; então, esse mesmo faturamento
está na empresa, na intranet e aqui também (mostra
o celular dentro do bolso). No BI, esse número
pode ser aberto da maneira que o gestor quiser.
Então, percebemos que a credibilidade do BI pode
ser fraca justamente por causa da muita flexibilidade.
O usuário vai lá, clica, monta a estrutura, mas
se esqueceu de alguma coisa, errou nos filtros.
Então, estamos estruturando isso de maneira diferente,
para obrigar o gestor a pôr a mão — não pode ser
a secretária, não pode ser o assistente, não pode
ser o usuário-chave da área. Nessa reunião gerencial,
cada gestor precisa levar um indicador, por meio
do BI, é uma obrigação. Na Medley, usamos o Seagate
Crystal Reports, é um BI também, e usamos o SSA
BPCS na gestão empresarial, estamos fazendo uma
convergência. Portamos algumas coisas para a web,
para que o negociador, o que senta com a distribuidora
para vender nossos produtos, tenha um notebook,
com dados via celular, para entrar na nossa intranet.
Enfim, estamos criando esses portais dentro da
empresa e fazendo o executivo usar.
Antunes
— Na Klabin, começamos
o projeto de BI no ano 2000. O projeto nasceu
quando compramos uma papeleira, a Igaras, e estávamos
com dois sistemas de transações. O pessoal perguntava:
“A Klabin tem SAP?” Eu respondia: “Tem dois.”
E tinha mesmo. Já existia uma carência de informações
na Klabin; quando aumentamos de tamanho, a carência
ficou mais evidente ainda. Então, a gente fez
um projeto de BI para integrar os dois ambientes.
Tocamos o projeto em dois sentidos, um top-down,
de informações corporativas que valiam para todos
os negócios, e outro bottom-up, de informações
que vinham das unidades de negócio para a corporação.
O time era pequeno, um consultor externo, cinco
pessoas da equipe de TI da Klabin e os usuários-chave.
Aí, começamos a perceber alguns desafios. Primeiro,
diferente de um sistema transacional, o BI pode
ser abandonado. Não dá para abandonar o SAP, porque
ninguém fatura, emite nota fiscal. Então, a primeira
coisa foi estruturar o patrocínio. Fizemos isso
de modo eficaz: às vezes o board da empresa desqualificava
informações porque não faziam parte do BI. Essa
integridade, informação única, foi muito bem vendida
e muito bem assimilada pela empresa. A nossa solução
tecnológica foi baseada no SAP BW, eu tenho de
80% a 90% das informações dentro do SAP, 10% fora,
então fazia mais sentido migrar 10% para dentro.
Escolher a tecnologia é a parte mais fácil, porque,
passado um tempo, os usuários se acostumam. O
lado de negócio é muito mais complicado. Outra
coisa que a gente aprendeu: não adianta fazer
massificação do treinamento; se você colocar numa
sala funcionários de nível diferente, diretor
e assistente, nenhum deles aprende. O treinamento
precisa ser personalizado. Uma terceira coisa:
a informação precisa ser exata. A gente sabe que,
para um executivo, sei lá, R$ 10 mil não fazem
diferença. Mas é de novo um ponto para desqualificar
o sistema: “Esse número não bate.” Independente
do valor, a gente ia atrás de qualquer divergência
entre o que estava no R/3 e a informação do executivo.
Tudo no sentido de dar respeitabilidade e credibilidade
ao sistema. Eu queria reforçar dois pontos que
já tocaram aqui. Primeiro, a gente gastou muito
mais tempo para definir conceitos do que esperava.
Foram quatro meses, nessa metodologia de top-down
e bottom-up, com muito tempo gasto em amadurecer
conceitos: o que é faturamento, é com imposto
ou sem imposto? Aprendemos que todos esses números
já existem na empresa, a questão é dar nomes para
eles. Por último, a integração. Um projeto de
BI não pode ter problemas de integração de tecnologia,
essa é uma responsabilidade da TI. Nossa meta
interna era: o executivo não vai usar nenhum sistema
que demore mais do que pegar o telefone e ligar
para alguém. Ele descobre o número de outro jeito.
Souza
— A Hiter é um caso atípico,
porque ainda não usamos BI. Mas estamos procurando
há uns cinco anos, desde a época do data warehouse.
Montamos uma base única, mas não tivemos resposta
dos usuários, ninguém sabia o que colocar nessa
base. O pessoal de tecnologia tentou incentivar,
sabíamos que era necessário, a diretoria está
sempre pedindo informações, vai muito tempo para
obter. Foi quando partimos para a base única;
então, foram surgindo essas ferramentas de BI,
e a gente foi atrás. Só que não adianta instalar
uma ferramenta se a empresa não entende o que
vem a ser isso. Então a gente vem nessa busca
há uns quatro anos. Ultimamente, estamos em contato
com a Execplan, foi o fornecedor que mais se aproximou
do que queríamos. Mesmo assim, ainda não dá para
instalar, o custo é alto e a gente não pode se
arriscar. Estamos primeiro fazendo reuniões com
a diretoria, tentando passar a idéia do que é
um produto desses. Já temos ERP há anos, o Datasul
EMS, e sabemos que BI é inevitável.
IH
— Como é o negócio da Hiter?
Souza
— O
produto da Hiter não é de prateleira, ele depende
muito do site do cliente, é um produto dimensionado
no momento em que o cliente compra. Só depois
de fazer um projeto é que podemos oferecer um
produto ao cliente. Isso leva tempo e o custo
é alto. Nosso departamento de engenharia é maior
que a fábrica, e a fábrica é praticamente terceirizada.
É preciso uma base muito grande para ter informações
diferenciadas por cliente, e uma base bem consolidada
para tirar informações para a gerência. Hoje a
base é única, a do ERP, mas os relatórios são
feitos com Excel, os executivos acabam manuseando
muito e isso não é confiável. Por enquanto, o
BI é uma iniciativa nossa, mas, antes de investir,
a diretoria precisa primeiro comprar a idéia.
Antunes
— Se eu posso dar um
palpite, acho que não tem produto se não tem cliente.
Então, enquanto você não tiver cliente, não faça
a sugestão por TI. A chance de fracasso é muito
grande. É preciso ter um co-responsável. Mais
do que apurar o retorno do investimento, é preciso
pôr o nome de quem vai buscar esse retorno, senão,
lá na frente, vão cobrar da TI se o projeto não
der retorno. Eu não aceito isso hoje na Klabin
de jeito nenhum, o projeto não é meu, o projeto
é sempre da área que busca o retorno.
Brigante
— Na Camargo Corrêa Cimentos,
podemos identificar dois grandes momentos do BI.
Primeiro foi em 2001, quando, por iniciativa da
área comercial, começamos um projeto de BI. Foi
um projeto terceirizado, feito com o SAP DW, porque
já tínhamos o R/3. Mas esse projeto teve erros.
Primeiro, foi motivado por “vamos acompanhar as
ondas de mercado”, e os usuários não estavam preparados
para uma implementação de BI naquele momento.
Como os usuários não estavam preparados, o projeto
ficou muito flexível — quase todos os indicadores
que a área comercial gostaria de extrair foram
incorporados. Padronizar conceitos foi um dos
problemas; por exemplo, o frete de transferência
de uma fábrica para outra não é contabilizado
pela área comercial, mas é contabilizado pelo
financeiro. Então, começou a haver problemas de
números. O processo de extração dos dados do R/3
foi todo customizado. Quando você customiza demais
o modelo, os cubos e os extratores, começa a haver
problemas de integridade na subida das informações.
A área comercial associou o BW ao BI, “estamos
usando o BW”, começaram a usar o BW como plataforma
transacional, e os usuários começaram a sentir
diferenças entre os dados do BI versus os do R/3.
Isso permaneceu assim por algum tempo e fez a
plataforma perder credibilidade. Ninguém mais
queria ouvir falar em BW. Até que, em 2003, começamos
um segundo movimento. Fizemos um upgrade na versão
do BW e fizemos um projeto de remodelagem do ambiente
do BW, dessa vez um projeto de TI. Todas as áreas
de negócio participaram da padronização de critérios.
Implementamos um módulo da SAP, o PA, profitability
analisys, para consolidar no R/3 alguns resultados
que não tínhamos com o BI. Passamos a adotar o
máximo de cubos-padrão e de extratores-padrão
do SAP BW. Esse projeto foi concluído em meados
de 2004. Aí, formos às áreas de negócio, para
dar treinamento, também segmentado por usuários.
O BW é muito usado por funcionários da operação,
justamente para fazer simulações de vendas e de
logística. Nós implementamos uma interface via
browser, um painel executivo, que pusemos no portal
corporativo, de onde tiramos esse termo “BW”.
Com o tempo, ele deve cair no esquecimento. Agora,
no ano que vem, pretendemos ampliar as visões.
Resumindo, nesse final de ano, com o portal implementado
e os executivos usando o BI, estamos conseguindo
mostrar o valor agregado de uma plataforma de
BI. Agora eles usam até informações que já estavam
disponíveis no sistema de 2001.
IH — Quais são os principais
desafios na criação da cultura e no treinamento?
Balista
— O que estamos fazendo
na Medley é atípico, estamos indo na contramão.
Não estamos mais treinando ninguém: isso é responsabilidade
do gestor. Também paramos de achar patrocinador,
cruzamos os braços e esperamos, se não precisam
de nada, não fazemos nada. Nas reuniões, o gestor
tem de apresentar indicadores escolhidos pelo
grupo: por exemplo, quanto vamos vender de genéricos.
Quer usar o Excel para achar o número? Fique à
vontade, mas, se o número não bater, vamos trucidá-lo.
Até hoje eu não consegui achar um payback para
BI. Então, quem procura o payback para BI é o
usuário que me pediu, o problema é dele. Eu precisei
fazer um trabalho dentro da área de TI, segmentei
a área de TI, tenho especialistas que trabalham
na área comercial, na industrial, na administrativo-financeira.
Passamos de 17 projetos em 2000 para 311 projetos
em 2005, é o que precisamos fazer. É claro que
tenho o OK do dono da empresa.
IH
— Dá para associar o BI a redução de custos?
Varzoni
— Para nós, BI não era
bem para reduzir custos. O 6 Sigma sim, está reduzindo
custos. O meu projeto de BI, para dez anos, é
de US$ 180 milhões. Na verdade, estou gastando
um dinheiro com o que vou evitar mais custos.
Nesses próximos dez anos, 70% do board da Caterpillar
vai se aposentar. São gente idosa, que fundou
a empresa, e que conhece o negócio de vivência.
A tática é jogar conhecimento para dentro do sistema,
para que outros assumam depois.
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