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IH
— Nem sempre é fácil dosar corretamente a quantidade
de tecnologia para resolver um problema de segurança.
A correção de um problema sério pode exigir pouca
tecnologia, e vice-versa. Como vocês encaram a
questão?
Elizabeth Teixeira
Miliante Ribeiro —
Parabéns pela escolha do
tema, porque o pessoal faz um curso de firewall,
acaba associando a segurança à tecnologia e se
autodenomina especialista em segurança. Mas, pela
minha experiência, não precisamos de grandes tecnologias
para resolver problemas, inclusive grandes problemas.
Uma coisa que adotamos na Brasil Telecom foi uma
política de hardening.
IH
— E o que é hardening?
Elizabeth
— Hardening
significa elevar o nível de segurança de um ativo
pelo fechamento de portas e de serviços que não
serão usados. Você instala uma máquina seca, só
com o serviço que vai rodar ali e só as portas
que serão usadas pelo serviço. Criamos políticas
de hardening para sistema operacional, aplicativos,
bancos de dados, roteadores, switches, tudo o
que vai na rede. Um dos subprodutos dessa política
são scripts e procedimentos de hardening. Quando
um ativo novo vai ser instalado, o operador roda
o script e ele vai fechando portas, habilitando
os logs necessários (para perícia posterior),
habilitando e desabilitando os acessos por usuários
e administradores. Tudo transparente para o operador.
Com o legado, nós temos procedimentos, porque
já tem uma aplicação em produção, não podemos
desligar. O operador vai executando o procedimento
linha a linha. Se não dá para executar o procedimento,
o operador aciona um desenvolvedor ou um engenheiro
de rede. Desenvolvemos cartilhas, como desenvolver
em PHP seguro, como desenvolver em C++ seguro.
Isso vai para desenvolvedores e parceiros. Desenvolvemos
uma metodologia baseada na BS 7799, no Cobit e
no Coso: sempre que um produto ou serviço está
sendo criado na Brasil Telecom, passa por segurança.
A gente identifica vulnerabilidades, ameaças,
impacto no ativo caso alguém explore uma determinada
vulnerabilidade. Com base na avaliação de risco,
definimos os controles a implementar. Isso gera
um insumo para que o gestor do negócio passe a
gerenciar seus riscos. Com a política de hardening
e a homologação de segurança, a gente reduziu
bastante os riscos no firewall. Chegamos até a
adiar a compra de novos firewalls, porque o tráfego
no firewall caiu.
Lucas Blanco
— Estou
no programa de projetos de segurança da NEC. Acho
que um primeiro ponto a abordar é que a tecnologia
tem um limite. Ela consegue até certo ponto reduzir
os riscos, mas só até certo ponto. Então, a questão
é criar condições para identificar quando esse
ponto é alcançado, para que haja uma ação de algum
recurso humano. Equilibrar tecnologias, recursos
humanos e procedimentos é difícil, tudo parece
muito caro. Mas, quando a empresa consegue identificar
os riscos conseqüentes de um problema de segurança,
fica mais fácil justificar o investimento. O ponto
de vista é o do fluxo de caixa invertido, é assim
que temos trabalhado.
João Henrique de Augustinis
Franco —
O CPqD é originário da antiga
diretoria de pesquisa e desenvolvimento da Telebrás,
mas hoje é uma fundação privada. Fazemos pesquisas
na área de telecomunicações, com recursos de fundos
públicos, mas também prestamos serviços para empresas
do setor privado. Somos um meio caminho, por assim
dizer, entre a universidade e a indústria. Um
ponto interessante é a certificação de equipamentos
com criptografia. O governo quer saber o que está
comprando. Estamos trabalhando para estabelecer
um arcabouço com a parte legal e a parte tecnológica.
Vai mais ou menos no exemplo do governo norte-americano,
de usar o poder de compra governamental para primeiro
cobrir os custos dessa certificação, e assim dar
mais segurança ao comprador, inclusive o da iniciativa
privada. Também temos uma boa linha de pesquisas
com dinâmica de sistemas, system dynamics. É basicamente
ter uma visão sistêmica, por exemplo com simulação;
a simulação dá o insight, serve para testar sua
compreensão do sistema e para passar informações
ao cliente. Por exemplo, se você aumenta o preço
do cigarro, para inibir o consumo, você também
incentiva o contrabando. Segurança também é sistêmica;
se você investe em tecnologia, mas não investe
em treinamento, não está pensando de forma sistêmica.
Jairo Martins da Silva
— A
Siemens passou por um processo de globalização
muito forte, no início da década de 90, o que
levou a uma grande descentralização da sua cadeia
de valor. Cada país tem suas competências produtivas
e competências de desenvolvimento. Vocês devem
perceber daí o tamanho da problemática da TI,
com uma troca muito grande de informações entre
os países. Isso levou a gente a tomar muito cuidado
com as informações. Antes, a gente trabalhava
com T grande e I pequeno. Agora, o negócio se
inverteu. Na realidade, o que é estratégico é
a informação, a tecnologia eu apenas tenho que
saber comprar bem, porque ela já está disponível.
O avanço do software e da microeletrônica colocou
muita tecnologia à disposição; nessa mudança de
perfil, nós ficamos muito mais próximos das áreas
de negócio, vendo como o negócio acontece, como
as pessoas vão buscar informações. Na tecnologia,
nós procuramos padronização, porque isso reduz
realmente os custos de operação. Considerando
a Siemens mundial, às vezes a gente tinha o mesmo
sistema em centenas de versões. Hoje, temos uma
cadeia de valor descentralizada, mas integrada.
Tivemos que reformular toda a nossa política de
TI. Nessa reformulação, percebemos que a segurança
está muito mais ligada a treinamento, a postura,
a disciplina do que a qualquer outra coisa. Hoje,
a prioridade número um da Siemens é ter um sistema
de governança muito claro; a número dois é a segurança
da informação, porque informação é estratégica.
Nossa política de segurança inclui os dois lados,
com treinamento para as pessoas e procedimentos
para os fornecedores de tecnologia, inclusive
com as famosas cartilhas para desenvolvedores;
e uma monitoração muito grande. A gente centralizou
mundialmente uma área que faz testes de intrusão.
Renovamos o parque de máquinas, justamente para
aplicar antivírus, aplicar firewalls dentro dos
nossos datacenters. Então, eu diria que a tecnologia
está de certa forma dominada. Estamos nos ocupando
mais com o nosso colaborador.
Leonardo
Mangelli —
Também trabalhamos muito
o problema da conscientização e também temos nossas
cartilhas de hardening. Mas o usuário final —
é ele quem paga a conta — muitas vezes não tem
noção do que pode acontecer. Se não acontecer
nenhum problema, você não fez mais que a obrigação;
se acontecer: por que você não fez aquele investimento?
Então, na parte de gestão de identidades, a gente
entrou muito no usuário final. Num primeiro momento,
o usuário pensa “vai complicar a minha vida”,
mas depois ele consegue perceber que eu consigo
tratar um funcionário que saiu e que não deve
mais ter acesso ao sistema, pois isso pode gerar
uma fraude. Trabalhamos muito também as questões
de logs. Temos vários sistemas para monitorar
logs e um processo de análise de logs. Entra a
tecnologia para tornar o dado em informação legível,
mas o processo que nos tomou mais tempo foi o
de analisar tudo para correlacionar dados em informação
útil. Trabalhamos bastante na política de segurança,
com a ajuda do RH e do jurídico. Os padrões da
lei Sarbanes-Oxley ajudaram a desengavetar projetos.
Não adianta ter tecnologia se o usuário final,
o operador, não acredita naquilo. Esse é o foco,
tirar a imagem de vilão da TI, essa pessoa que
quer atrapalhar o sistema que eu quero implementar.
No caso da Telemar, eram 16 empresas, culturas
diferentes, Estados diferentes, não é fácil juntar
tudo e fazer todo mundo entender a questão da
segurança, mas acho que já estamos em uns 90%
de homogeneização da cultura de segurança. E além
disso a Telemar tem ainda a telefonia móvel, com
muitos produtos que integram telefonia fixa e
móvel, com PDAs. Isso duplica a preocupação com
a segurança.
IH
— Juridicamente, como fica a divisão de responsabilidades
numa empresa formada por várias empresas, com
vários clientes internos e externos?
Rodrigo d’Avila Mariano
— Um
viés comum ao que todos disseram aqui é o da cultura.
No começo, havia uma preocupação maior com tecnologia,
agora há uma preocupação maior com prevenção.
Na hora de discutir responsabilidades, o cliente
de um sistema quer estender a responsabilidade
para o fornecedor, até onde a vista alcança, o
fornecedor quer limitar ao máximo sua exposição
a riscos, e esse é um ponto de eterna tensão.
A discussão chega num ponto em que não tem remédio
legal, resposta mágica. Do ponto de vista da lei
civil, você se responsabiliza pelos danos diretos
que causar. Se alguém quebra a lanterna de um
carro, tem de pagar só a lanterna, e não o negócio
que o motorista perdeu porque chegou atrasado
na reunião. Então, a discussão sempre chega num
ponto em que exijo do fornecedor a responsabilidade
por danos indiretos que eu nem consigo quantificar.
Meu conselho é conhecer os danos diretos antes
de discutir contratos. Já existem seguros no mercado
para cobrir gastos com quebra de contrato, mas
é preciso quantificar o valor primeiro.
Elizabeth
—
Eu queria fazer uma colocação. Contrato é uma
coisa que sempre tem que estar muito clara, mas
eu acho que a postura das empresas vem melhorando
muito, o comprometimento com o usuário final está
muito grande. Bancos, empresas de telecom e o
NBSO (o escritório de segurança do comitê gestor
da Internet), por exemplo, estão trabalhando juntos
para combater o crime organizado. Se um banco
tem a página clonada, por exemplo, eles ligam
para a Brasil Telecom e, num tempo curtíssimo,
o acesso ao site clonado é cortado, nem cobramos
nada, é comprometimento mesmo. Também estamos
inseridos no combate a spam. Em agosto, cancelamos
contratos de spammers profissionais, está claramente
no contrato que o cliente não pode fazer mau uso
da rede.
IH
— Pode ser uma decisão unilateral?
Elizabeth
— Não
pode. Nós temos um processo de varredura. Fazemos
varredura, identificando smtp relay e pop relay.
Fizemos, junto com o nosso jurídico, uma carta-padrão,
que diz assim: “Os seus serviços estão mal configurados”.
Porque pode não ser má-fé. Então o pessoal vai
lá e configura. Avisamos uma vez, a segunda, até
que chega um momento em que realmente fica caracterizada
a má-fé. E o contrato é cancelado mesmo. Recentemente,
cancelamos vários contratos de spammers profissionais.
IH
— Quantos foram?
Elizabeth
— Só
um deles representava 70% do spam, mas quando
você cancela um contrato aparecem outros spammers,
acaba aparecendo na estatística. Então, o sucesso
desse trabalho depende de uma equipe comprometida,
capacitada e com o apoio da alta administração.
Quando você fala em grandes tecnologias, ninguém
faz muita restrição, parece que todo mundo adora.
Quando você fala de processo, por incrível que
pareça, é mais difícil. Então, a chance de sucesso
é menor se você não tem uma equipe capacitada,
treinada e com o apoio da alta administração.
Na Brasil Telecom, também estamos iniciando, com
o nosso jurídico, um trabalho de combate à pedofilia.
IH
— É preciso fazer também um hardening jurídico,
para dificultar o surgimento de questões que se
transformem em problemas judiciais?
Mariano
— Exatamente.
O caso do spam, por exemplo: o provedor de acesso
não pode abusar de seus direitos, pois toda empresa
pode mandar propaganda para seu público; mas não
pode fazer isso de forma abusada, que aí já é
spam, prejudica o usuário. Então, o provedor pode
monitorar o serviço, para achar quem está fazendo
mau uso da rede. No caso da pedofilia, não posso
dizer nem sim nem não, é a frase típica de advogado,
mas existe o risco de o provedor ou a operadora
serem responsabilizados. Recentemente, com as
alterações do Código Civil, existe aquele conceito
de que todos aqueles na cadeia de fornecimento
de um determinado produto, desde o que produziu
até o que vende ao usuário final, podem ser responsabilizados
por defeito, vício ou ato ilícito.
Elizabeth
— O
provedor, sim, pode ser responsabilizado. A empresa
de telecom, não. É como se fosse um cano de água,
é o condutor. O condutor não tem como saber o
que passa ali, eu teria que instalar um sniffer,
o que eu nem posso instalar.
IH — As soluções tecnológicas
estão a contento para vocês?
Elizabeth
— Nós
tivemos um requerimento assim: queríamos análise
de pacotes IP no firewall. Por exemplo, eu quero
monitorar qualquer tentativa de violação de um
SAP, de um CRM ou de um billing. Das oito ferramentas
que se propunham fazer esse tipo de alerta, só
três atenderam esses nossos requerimentos.
Blanco
— A
gente está aqui meio no nível de um lorde inglês,
mas a retaguarda disso tudo que estamos falando
é um verdadeiro inferno, a briga é brava. A gente
tem problemas sérios todos os dias. Tem encrenca
toda hora.
Silva
— Não
adianta ser só preventivo. Tem gente que recebe
e-mail com “clique aqui, ponha o número do seu
CPF, para ver se saiu sua restituição do imposto
de renda”. Tem gente que clica, por mais que a
gente fale: se não conhece o remetente, pode apagar.
Elizabeth
— Filtro
de conteúdo é complicadíssimo. Os fornecedores
estão sempre correndo atrás. Até existem boas
ferramentas de anti-spam. Bloquear e filtrar peer-to-peer
é complicado. E quando o fornecedor lança alguma
coisa, é sempre um módulo à parte. Você paga substituição
o ano inteiro, prevendo que qualquer benfeitoria
será agregada ao produto, mas a benfeitoria é
sempre um módulo à parte. Eu estou muito aborrecida
com meu fornecedor.
Silva
— Também
precisamos que os fornecedores tenham um papel
consultivo. Quando eu vou ao mercado buscar tecnologia,
parece que a turma vem aos poucos, pedaço por
pedaço.
Blanco
— Existe
o paradoxo de generalizar a tecnologia o máximo
possível, para atender a todos, e de dar consultoria,
dar uma solução para o negócio. É um paradoxo.
Outro dia ouvi uma coisa, numa conversa, ainda
não decidi se é bobagem ou não: “Não vem com essa
conversa”, a pessoa disse, “porque, na verdade,
em segurança a gente vai investindo aos pouquinhos,
só para ir tampando buraco, porque cada hora surge
uma coisa nova.” Mas acho possível estudar o problema
como um todo e criar uma solução como um todo.
Elizabeth
— Realmente,
os atacantes mudam muito de perfil. Antigamente,
os ataques eram em cima de sistema operacional,
porque sabiam que o pessoal implementava tudo
aberto e tal. Com a técnica do hardening, o atacante
mudou de perfil, começou a atacar aplicação. Por
isso as cartilhas de como desenvolver seguro,
etc. Com os firewalls, os fornecedores já trabalham
com nível 7. É realmente uma mudança de perfil.
Você fecha aqui. E eles: “Ah, está fechado, então
vou para lá”.
Mangelli
— Um
dos problemas é o usuário de banda larga, que
turbinou realmente o número de ataques, facilitou
muito a instalação de scripts.
Elizabeth
— Agora,
o fator crítico de sucesso, quando uma empresa
responde a um incidente, é ter o dado classificado,
para saber exatamente o que é risco para o seu
negócio, saber de antemão quais são os eventos
críticos para a organização, saber exatamente
em que direção correr e quem acionar. É preciso
ter um belo mapeamento de responsabilidades, incluindo
jurídico, relações com a mídia, marketing, rede,
TI. Essa atividade de classificação de dados,
dos elementos críticos e das responsabilidades
a gente faz justamente no momento da homologação
da segurança.
Franco
— A
gente faz trabalhos com honey pots e com honey
nets, ou seja, criamos redes e sistemas para atrair
atacantes, para estudar o que eles fazem e como
eles fazem. Evidentemente, não é uma coisa que
uma empresa deva fazer, mas isso é parte do nosso
trabalho de pesquisa e desenvolvimento, as empresas
são beneficiárias desse conhecimento por meio,
por exemplo, do NBSO. Isso é uma coisa interessante.
Os crackers têm uma rede de comunicações e nós,
os white heads, que queremos fazer bom uso da
tecnologia da informação, precisamos nos comunicar,
criar coisas boas. Como nos filmes de Hollywood,
o bem sempre triunfa. É de uma certa maneira o
que a gente está fazendo aqui também, numa escala
pequena: trocando informações.
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