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IH
— Existe, de fato, uma integração entre a área
de segurança e todo o resto da empresa?
Wellington José Brigante
— Em muitas empresas,
são duas áreas distintas,
a de segurança e a de TI. A área de TI quer alavancar
negócios para a empresa; mas o aval da segurança
pode ser positivo ou negativo. É importante que
a área de segurança esteja alinhada com a de TI,
é um bom tema para discutir. Na Camargo Corrêa,
a área de segurança define políticas, que cabe
à área de TI efetivar e implementar; então, atua
mais como uma área controladora, normativa.
IH
— Há muito conflito?
Brigante
— Não nas definições.
Mas a área de TI é muito mais rápida que a de
segurança de dados. Quando as soluções são inovadoras,
arrojadas, escapam dos padrões da empresa e precisam
de análise mais criteriosa. Então, muitos projetos
ficam em espera até que sejam alinhados com a
segurança.
André Magalhães
— Na
Alcoa, a gente usa sempre uma frase: não existem
projetos de TI, existem projetos de negócio. Então,
às vezes o negócio pressiona a TI para ter uma
solução. Por isso, na Alcoa, estamos tentando
inserir o pessoal de segurança junto com o pessoal
de TI, assim ele já se prepara para os requerimentos
de segurança.
Jedey
Miranda —
Isso tudo passa basicamente
por governança de TI. As duas áreas existem para
suportar o negócio. Acho que a dificuldade maior
é a própria empresa definir claramente as necessidades
de segurança para cada informação. Ou seja, solução
tecnológica existe para a TI e para a segurança,
mas quem diz o tamanho do cadeado é o negócio
IH
— A empresa tem dificuldade de avaliar riscos?
Miranda
— Na
verdade, a área de negócio ainda não tem sensibilidade,
por isso falei que a questão é de governança.
Esse é o grande desafio. Acho que as duas coisas
são uma só, TI e segurança devem ser tratadas
de forma comum, devem ser alinhadas ao negócio;
não consigo ver o valor de separar.
Fabrício G. Mainieri
— Na
Basf, a gente trabalha em duas camadas, uma de
TI e outra de segurança. É na área de segurança
que nascem os projetos, mas é a TI quem gerencia,
pois é ela quem vai fazer a coisa acontecer no
dia-a-dia. Então, a segurança prega, dentro da
Basf, que é o gerente do projeto o verdadeiro
responsável, mas nada disso vale se o projeto
de cara já afeta alguma coisa de segurança. A
outra camada é o negócio. No início deste ano,
começou uma iniciativa chamada IT Patners, que
é trazer formadores de opinião para entender como
a TI funciona. Quando eles estiverem imaginando
processos para atender melhor o negócio, já sabem
que um dos estágios é o da segurança. Então, essas
pessoas já estão sendo treinadas a pensar em segurança.
O que a gente espera, dessa iniciativa, é que
o projeto já vá para a TI mais alinhado. Caso
contrário, o projeto vai para a TI, depois para
a segurança, e aí chega para o negócio: isso não
dá para fazer por restrições de TI ou de segurança.
Gera um conflito. A idéia é minimizar o conflito
passando um pouco de conhecimento para o negócio.
Essa iniciativa já funciona há uns meses, tivemos
bons resultados.
IH
— Diminuiu o conflito?
Mainieri
— Diminuiu. É interessante
que a comunidade começou a trazer problemas e
soluções de segurança. É utópico achar que a área
de segurança consegue manter tudo seguro. Então,
a idéia é criar n olhos na empresa. Eles já dizem,
“isso não está certo, temos que fazer alguma coisa”.
Se deixasse só para a segurança, talvez demorasse
uns dois anos para descobrir o problema. Então,
levar esse conhecimento para as pontas gera valor.
IH
— A segurança na Basf funciona como uma agência
de consultoria?
Mainieri
— Exato. A gente classifica
os projetos em baixa, média e alta complexidade.
Projetos de alta e média complexidade têm que
fazer análise de segurança. Mas quem faz a análise
é o gerente do projeto. Ele dispara o consultor
da segurança.
Francisco
E. Jacob Moreira — Interessante,
eu comungo essa idéia. Na Ripasa, não estamos
ainda nesse passo, estamos caminhando, mas sei
que não adianta ficar isolado na torre, porque
segurança, sem a ciência interna dentro da empresa,
nunca funciona. Tenho uma pergunta: no IT Partners,
como fica depois que o projeto começa a funcionar,
quando está sendo manipulado por pessoas? E se
essas pessoas não têm a cultura da segurança?
Mainieri
— Fazer a conscientização
descer dentro da árvore da empresa não é fácil.
Mas os IT Partners são mais ou menos umas 200
pessoas na empresa, e uma das responsabilidades
deles é divulgar as informações que recebem. É
utópico achar que a área de segurança vai conseguir
chegar a 5 mil pessoas num tempo razoável. Além
disso, essas 200 pessoas já têm uma linguagem
comum com seus colegas de trabalho. Mas, respondendo
à pergunta, todas essas pessoas têm cronograma
para replicar esse conhecimento de TI dentro das
unidades de negócio. Acho que é melhor do que
colocar 5 mil pessoas num seminário.
Miranda
— A gente tem uma organização
técnica de TI e de segurança que, sim, é responsável
por colocar firewall, toda aquela parafernália
tecnológica para proteger o ambiente. E a gente
tem uma outra organização voltada para processos.
Mas acho que estamos caminhando para ter gente
de TI dentro do negócio, olhando para o negócio,
que conhecem à beça o negócio, mas remunerados
pela TI, para terem o comportamento esperado.
Isso seria uma forma prática de criar cultura.
IH
— A GM tem remunerações distintas para esses profissionais
que estão no negócio?
Miranda
— Ainda não. Mas essas
pessoas, que chamamos de IT Coordinators, deveriam
ser remuneradas pela área de TI, porque aí eu
consigo realmente influenciar o comportamento
delas. Hoje, não tem como garantir que essas pessoas
não vão comprar uma solução caseira para o negócio,
porque é mais barata, porque é mais rápida de
implementar. Na minha opinião, remuneração é a
melhor forma de alinhar comportamento a objetivos
de negócio. Ou seja, eu deveria pagar o bônus
de final de ano para essas pessoas.
José Evaristo Barreto —
Também vejo a segurança ligada
à governança da empresa, por meio de um Cobit,
uma Sarbanes-Oxley. É preciso focar nos riscos
e comprometer o pessoal de negócio. É um problema
de cultura também. Segurança está também na casa
do funcionário, até com os familiares do funcionário.
Hoje, fazemos acordos com os nossos parceiros,
a Microsoft, por exemplo, que se estendem a nossos
funcionários, para eles trabalharem em casa. E
fazemos um trabalho de conscientização dentro
da VCP, porque o pessoal vê a segurança hoje como
uma barreira, um firewall.
Magalhães
— Eu tive uma surpresa
ontem. Estamos passando por uma auditoria pesada,
por causa da Sarbanes-Oxley. Um usuário me chamou:
“Eu passei em frente à sala de reunião e observei
que tinha um micro ali, acho que as pessoas foram
almoçar, o micro estava aberto, não estava bloqueado”.
Quando fui ver, era um micro da empresa de auditoria.
Isso é o resultado do trabalho que a gente vem
fazendo há quatro anos, o usuário conseguiu ver
o risco daquilo. Obviamente, depois fui conversar
com o auditor. Antes, eu tinha usuário falando
o contrário: “Você está ficando louco? Isso aqui
bloqueia sozinho!” Um ponto muito importante:
esse trabalho precisa ser contínuo, periódico.
Moreira
— Tipo lavagem cerebral.
IH
— Magalhães,
você tem dados da iniciativa?
Magalhães
— Dá para explicar algumas
fases até a maturidade. No início, a equipe de
segurança começou de uma forma mais agressiva.
Estava abaixo da TI, subordinada ao CTO, não era
a situação ideal. Na hora de priorizar um orçamento,
por exemplo, alguém falava, “esquece segurança,
preciso fazer um projeto que o negócio solicitou”.
Nessa época, a segurança identificava alguma coisa,
depois ia falar com o usuário, “isso está errado”.
Dois anos depois, começamos a fazer o inverso,
pegar o usuário como parceiro, mostrar para ele
os riscos, os problemas. Aí, começou a fluir melhor.
Acesso indevido à Internet, por exemplo: a média,
antes, era 4% de notificações por mês; hoje, é
só de um a três acessos indevidos por mês, caiu
drasticamente. Descobrimos que esses poucos acessos
são de funcionários novos, então já mudamos o
processo: fizemos um treinamento específico para
quem entra na empresa. Hoje, somos subordinados
ao CIO.
Antônio
Carlos M. Nogueira Filho — Às
vezes, o problema está dentro de casa, na própria
TI. Se você pega um analista de fora, ele tem
três dias para desenvolver um sistema, o cronograma
está apertado, o fluxo apertado, o orçamento apertado.
Aí, começam a questionar se todos os processos
de segurança são válidos. Por isso, para a área
de sistemas, em função dos prazos curtos, tem
mais ou menos essa imagem da segurança: que ela
não está lá para contribuir, está para impedir,
para controlar. É difícil fazê-los entender que
a gente está tentando evitar um problema futuro.
Por isso, precisamos conscientizar também o pessoal
de TI, assim ele luta a favor da segurança quando
o usuário reclamar.
IH
— Quando há conflito, quem costuma ganhar?
Nogueira
— Depende da complexidade.
Num caso envolvendo bancos, por exemplo, o usuário
aceitou o atraso em função do risco. Em outros
casos, às vezes chegamos a um meio termo, com
um prazo para, após a implementação, corrigir
o problema. Mas aí o usuário precisa aceitar o
risco num documento.
Miranda
— O maior risco está
no usuário, ele é o elemento mais importante do
ponto de vista da segurança, seja no micro que
ele deixou lá aberto, seja na listagem que ele
deixou na impressora, seja quando alguém liga
para ele: “Olha, sou do help desk, estou vendo
aqui que a sua senha vai expirar. Será que dá
para você passar a sua senha, que eu já troco
pra você, já te passo uma senha nova?” Isso acontece,
o usuário às vezes passa a senha, e o ladrão realmente
troca a senha do usuário, realmente faz o serviço
que prometeu, mas só depois de levar o que ele
queria de verdade. O desafio é aumentar a consciência
dos funcionários; brasileiro é pró-ativo, colabora
uma barbaridade.
Magalhães
— Sobre isso, a Alcoa
começou há três anos uns processos importantes.
Primeiro, a área de segurança fez parcerias com
departamentos-chave, a equipe de qualidade, o
RH, o jurídico. E mudou a auditoria de segurança.
Hoje, há um sistema de auto-avaliação. Só que
ela precisa ser baseada em evidências, assim não
dá para mentir. E a auditoria é feita em cima
do relatório de auto-avaliação. Por exemplo: lista
de vírus. Um item da auto-avaliação pergunta se
o usuário atualiza a lista de vírus constantemente.
Aí, uma pessoa do departamento sai verificando
e faz o relatório. O auditor já tem malícia para
saber quando alguma coisa não bate. Descobrimos
que quando o usuário faz uma auto-avaliação, também
já identifica riscos, conhece os padrões da empresa,
aprende o que estamos exigindo.
Brigante
— A gente sabe que as
maiores vulnerabilidades são internas. No nosso
caso, temos muitas fábricas, é lá que a vida acontece,
pode ter situações de usuários compartilhando
senhas — por exemplo, emprestando uma senha para
o faturista, que é um terceiro, e poderá entrar
no sistema de gestão. Estamos iniciando este ano
um trabalho de conscientização desses usuários.
Periodicamente, a equipe de TI, mais os usuários-chave
de determinado processo, vão para a fábrica em
que aquele processo roda, de ônibus ou avião.
A gente aproveita a oportunidade para buscar melhorias
de processos e para fazer a conscientização num
corpo a corpo, fazemos o treinamento do usuário
e reciclamos a importância da segurança. Ferramentas
de controle, como a de login simultâneo, são mais
ferramentas informativas. Em primeiro lugar vem
a conscientização do usuário.
Barreto — Segurança
é uma coisa muito abstrata. Mesmo dentro da TI
tem algumas barreiras. Por exemplo, qualquer servidor
que instalamos hoje precisa passar pela norma
GSD 331, uma norma de segurança da IBM. Se uma
área viu um produto no exterior, por exemplo um
software livre, e quer usar, mas não bate com
a norma, a gente combina com o usuário de negócios:
o produto vai trabalhar em separado, não dá para
pôr aquela aplicação com as outras dentro da rede.
Mas o usuário assume o risco, a manutenção, porque
o fornecedor não me garante nada.
IH
— Como funciona a política de segurança para os
terceiros? Esse nos parece um problema estratégico
grave.
Mainieri
— A Basf tem, basicamente,
dois grandes parceiros: a Siemens, em infra-estrutura,
e a Accenture em desenvolvimento de sistemas.
Eles efetivamente trabalham com as regras e normas
da Basf. Seus funcionários passam por treinamento,
existe uma bíblia de TI para o terceiro. A qualquer
momento, a Basf pode fazer auditorias. Não tem
como ignorar a terceirização; então, tem que ter
política permanente para o terceiro. Problemas
na terceirização sempre existem, está fora do
contrato, está dentro do contrato, está fora do
escopo, está dentro do escopo, é aquela briga
diária, mas o custo-benefício, de maneira geral,
é bom.
Nogueira
— No caso da Votorantim,
fizemos um contrato com o nosso jurídico, com
punições por vazamento de informação, roubo de
informação ou por causa de qualquer dano que a
empresa venha causar à VCP. Começa por aí.
Miranda
— A GM é uma empresa
que usa, e vai continuar usando, terceirização.
Mas a organização precisa estar preparada, ter
claras as responsabilidades de cada um. Minha
recomendação é trabalhar com duas, três, no máximo
quatro terceirizadas. De vez em quando elas vão
quarterizar, mas a responsabilidade é delas, elas
precisam treinar as pessoas nas políticas da GM.
Mesmo assim, quando o cara vai para dentro da
GM, a gente faz uma lavagem cerebral e ele assina
a papelada tudo de novo.
Magalhães
— Um ponto importante:
quando você contrata uma empresa, aquela empresa
é sua responsabilidade. Já vi casos em que a pessoa
está tentando solucionar um problema e aí contrata
um terceiro, “me livrei do problema”. Tenho visto
isso até na Sarbanes-Oxley: quando você faz uma
terceirização, tem que ter pontos de controle
daquela responsabilidade que, bem ou mal, é sua.
Nogueira
— Estamos implementando
na VCP uma análise de fornecedores. Quando o projeto
é encerrado, fazemos uma análise para ver se tudo
saiu como combinado. Na próxima vez que tiver
uma concorrência, essa avaliação será importante.
IH
— Até que ponto a tecnologia resolve seus problemas
de segurança? 90%, 70%, quanto?
Magalhães — Se
você tiver o melhor firewall do mundo, mas o funcionário
ou terceiro não tem cultura de segurança, não
adianta.
Miranda
— Não dá para obrigar
a pessoa a se levantar e ir buscar seu documento
lá na impressora. A tecnologia não dá jeito nisso.
Brigante
— Tenho dois pontos.
Um deles, um ponto-chave, é identificar a segurança
na medida certa para cada empresa. O quanto é
essa medida certa, diante das ferramentas de tecnologia
que temos à disposição? Se está tudo muito seguro,
o usuário vai reclamar, “mas eu tenho dez logins”.
Aí, você implementa um single sign-on. Tecnologia
é perigosa, quanto mais você implementa, mais
você é levado a implementar. O segundo ponto é:
se o usuário imprime relatórios de gestão e deixa
isso em cima da mesa, a vulnerabilidade não é
de tecnologia. Processos são fundamentais, a cultura.
Acho que a união dessas duas coisas levaria a
um equilíbrio do nível adequado de segurança.
Miranda
— Hoje, na GM, se o usuário
deixa algo na impressora, vai receber depois,
com um post-it, “você deixou na impressora”. Se
continuar, vai para o chefe dele, “ele deixou
esse material assim e assim”. É um tijolinho por
dia, você tem que gradualmente trabalhar as pessoas.
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