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IH
— Quando se fala em segurança, quais devem ser
as prioridades estratégicas das corporações?
Tácito Pereira Nobre — A
Internet trouxe oportunidades, mas nasceu muito
aberta. A partir de 1999, passamos a pôr na Internet
todos os serviços que tínhamos, e por isso criamos
uma estrutura focada em segurança, tanto em sentido
amplo quanto específico, focada em componentes
específicos de tecnologia. Estruturamos também
processos, para dar a maior garantia possível
de inviolabilidade. Adotamos políticas e passamos
a observar o relacionamento da comunidade interna
com a externa; a Serasa tem 2 mil funcionários,
temos 40 e tantas agências em todos os Estados,
elas podem ter acesso à Internet também. Uma questão
importante é sempre equilibrar oportunidade e
risco, para aproveitar a oportunidade, mas de
forma controlada. Depois que investimos em infra-estrutura
para certificados digitais, buscamos obter a certificação
para a BS 7799, o que nos levou a um cuidado adicional
com processos.
Carlos Pinheiro Palhares
— Com a Internet, é como
derrubar muros e se expor ao mundo inteiro, e
não só a quem passa na rua. Tem gente que fala:
a melhor segurança é conscientizar as pessoas.
É certo, mas não temos tanto tempo, os ataques
estão aí, então precisamos criar barreiras mesmo,
nos antecipar aos crackers e hackers. A gente
está concentrando o trabalho de conscientização
nas pessoas que criam os nossos software e nossos
processos, assim eles já nascem seguros. Na segurança
física e lógica dos dados, o investimento é pesado
em barreiras — firewalls, IDSs. Para a instituição
financeira, esses investimentos são questão de
sobrevivência.
José Waldir Pacheco
de Carvalho —
Tenho defendido a aplicação
de duas normas. Nos estruturamos para atuar não
só na área de TI, mas de negócios também, com
um plano diretor de segurança, com alinhamento
à ISO 17799 e ao Cobit, além de outras regulamentações
e resoluções. Hoje, a maior agência da Nossa Caixa
é a agência na Internet, com o maior número de
transações. Do nosso ponto de vista, a única maneira
de reduzir fraudes é usar a certificação digital;
a instituição financeira não pode mais ter sozinha
o ônus de ser a única a ter responsabilidade na
transação. Então, o grande foco é agregar a gestão
do risco a todos os negócios da instituição, temos
39 pessoas trabalhando nisso. Tem aquele famoso
tripé: tecnologia, processos e pessoas, é assim
que se fecha o cerco.
IH
— Os problemas de segurança da BM&F são de outra
natureza?
Antonio Mariano de
Alencar Pereira —
São semelhantes. Na BM&F,
a preocupação é a conscientização, para dividir
a responsabilidade pela segurança da informação
com toda a organização. Na própria área de TI,
todas as equipes são responsáveis pela segurança,
inclusive a de desenvolvimento, que não cria nada
sem olhar a segurança primeiro. A gente precisa
investir em negócio, ter uma rentabilidade melhor
a cada dia; mas sem correr o risco de a rentabilidade
cessar por problemas de segurança. Cada vez mais,
as tentativas de explorar fragilidades para obter
vantagens estão mais elaboradas. Ontem mesmo a
gente pegou um spyware que deixava vir a tela
do banco, e só sobrepunha um pequeno quadradinho,
para pôr a senha. Você entrou na URL correta,
você olha o cadeadinho, vê o certificado válido
— e de repente está colocando a senha num outro
site. Nesse caso, a conscientização funcionou,
o funcionário percebeu de cara que havia alguma
coisa estranha e chamou nossa equipe. O spyware
tinha sido colocado na máquina do usuário com
um cartãozinho virtual, enviado por e-mail. O
investimento primordial este ano, na BM&F, é fazer
com que nosso Centro de Operações de Segurança
esteja apto para interpretar qualquer tipo de
vulnerabilidade.
Reinaldo Cilurzo
— Bovespa
e BM&F são muito parecidas. A questão da segurança,
no mercado de ações, está muito ligada à imagem
e à credibilidade. A Bovespa investiu pesado num
projeto de governança da TI, com foco em Cobit
e Itil. Como disse o Palhares, estamos muito preocupados
com segurança desde o começo, desde o planejamento
do projeto. É quando estabelecemos controles em
todos os níveis hierárquicos da empresa; o usuário
participa da política de segurança e recebe treinamento,
porque é a ponta final. A gente sentiu que precisava
focar em pessoas; essa coisa dos spyware, por
exemplo, só funciona com a ingenuidade do usuário.
Carlos Yuji Wako
— A
Tecban é o canal de ATM dos bancos. Temos também
a preocupação com o acesso à Internet; mas o foco
são as ATMs, porque os ataques contra as ATMs
são tão violentos quanto os ataques contra o Internet
banking. Eu destacaria o projeto de atualização
tecnológica das nossas ATMs. Até agora, usamos
tecnologias obsoletas nas ATMs, OS/2 e X.25, e
não temos problemas com segurança, os hackers
não focam. Mas vamos migrar para um ambiente com
Windows e TCP/IP, e aí vamos ficar obcecados com
segurança. O projeto das novas ATMs começou todinho
baseado em segurança, ou nem valeria a pena. Investimos
mais de um ano na pesquisa dos aspectos de segurança
desse novo ambiente. Já fizemos ações, como desenvolver
um protocolo de criptografia fim a fim, no aplicativo,
para criar uma VPN entre aplicativos. Tivemos
que investir em criptografia por hardware, firewall
pessoal, antivírus. Estamos preocupados com serviço
de diretório e certificados digitais. Se um atacante
tiver sucesso, ele leva dinheiro vivo, é muito
dinheiro numa ATM.
Carvalho
— Às
vezes levam até a ATM. (risos)
Wako
— Temos
também projetos de segurança física, mas o projeto
principal mesmo é o de migração. A gente ficou
no dilema entre a produtividade e a eficiência
que as novas tecnologias trazem e a questão da
segurança. Uma hora, é preciso optar. É melhor
enfrentar o risco da segurança em prol da produtividade
e da eficiência operacional. Assim como os bancos
precisaram entrar no Internet banking, nós precisamos
atualizar as ATMs. A IBM só corrige erros no OS/2
até 2007. Tentamos Linux, mas nenhum fornecedor
de ATM migrou para Linux. Não vamos nos aventurar
a portar Linux para a ATM e depois ficar com todo
o ônus da manutenção, não vale a pena. Outro aspecto
de segurança das ATMs é a monitoração, 24 por
7, com correlação de eventos, precisamos investir
em inteligência máxima para detectar qualquer
ação não-planejada em qualquer uma das ATMs. Para
a monitoração, vamos investir em comunicação wireless,
porque a primeira coisa que os atacantes fazem
é cortar a linha de comunicação. E também investimos
em Cobit e Itil — estamos no SPB, somos auditados
pelo Banco Central. A implementação de normas
e políticas é uma coisa assustadora. Assino tantas
normas e políticas que me pergunto: até que ponto
isso tudo pode ser colocado em prática ou é só
um instrumento de punição? A grande batalha não
é editar normas, mas fazer com que passem a valer
no dia-a-dia da empresa.
Palhares
— Quantos
funcionários a Tecban tem?
Wako
— Mais
de 800 pessoas.
Palhares
—
Tenho 7 mil...
Wako
— Isso
é um problema sério, e por esse motivo estamos
colocando a área de gestão de risco, segurança
da informação e auditoria ligada diretamente ao
conselho de administração. É para ter força. Além
disso, a área de gestão de risco participa de
todos os projetos da empresa. Mas é nas pessoas
mesmo que você consegue implementar uma boa segurança.
É necessário investir na cultura.
IH
— Qual o efeito legal dessa conscientização do
usuário e dessa divisão de responsabilidade?
Renato Opice Blum
— Vamos
dividir o assunto em dois: segurança interna e
externa. As ameaças externas podem ser sintetizadas
na figura do cracker. Ele ataca porque está numa
posição confortável, está no seu computador, tem
a certeza de que nada de sério vai acontecer,
nem mesmo uma investigação policial. Sintetizando,
o que o cracker faz? Manda um e-mail com um link
falso, manda um spyware, manda um cavalo de tróia.
O micro do usuário é infectado. Isso terá conseqüências
jurídicas em função do contrato. Ou o cracker
altera o servidor de DNS do provedor, o que vai
gerar a responsabilidade de quem faz a gestão
daquele DNS. Tenho de fazer um registro aqui,
sobre os que mandam e-mail em nome da instituição
financeira: mudaram o nome do estelionato para
engenharia social. A legislação brasileira pode
ser melhorada, mas existe, e pode mandar o estelionatário
para a cadeia. E quanto ao cliente? É culpa exclusiva
do cliente ou é culpa também da instituição financeira?
Essa é a questão: qual é o serviço que o banco
oferece? É o serviço de Internet banking, mas
não é o banco que dá a conexão à Internet, ele
não controla a Internet. O banco só vai ter responsabilidade
quando o sujeito chega nos seus sistemas; por
isso, nessas situações, não vejo responsabilidade
da instituição financeira. O que pode acontecer
é a omissão de informações no contrato, exigidas
pelo Código do Consumidor. Ou seja: informe que
o cliente vai ter que entrar na Internet, que
a Internet não é amigável, e sugira documentos,
como a cartilha do NIC.br, muito interessante.
Se o banco não tem o controle, não tem o que fazer
e não pode responder pela Internet. É o cliente
quem deve se precaver — mas ele pode e deve ser
informado disso pelo banco. Enfim, o banco é responsável
pelo serviço, mas não pelo caminho para chegar
ao serviço. Agora, por que o banco não se comunica
com o cliente usando certificados digitais? Resolveria
uma boa parte do problema, até em função da legislação,
a Medida Provisória 2.200.
IH
— Já existe jurisprudência firmada?
Opice
Blum —
Já tem contra e a favor.
A minha opinião é de que não há responsabilidade
do banco. Só que não deu tempo de nada disso chegar
ao Supremo Tribunal Federal. Mas, se o banco é
processado, a questão é da prova, e por isso falo
que a questão é processual. O cliente diz: tiraram
dinheiro da minha conta, invadiram o banco. Na
prática, o juiz pode inverter o ônus da prova.
Aí o banco terá que provar três coisas: que aquilo
não aconteceu, que a responsabilidade é exclusiva
do cliente ou que a responsabilidade é exclusiva
de terceiros. E o caro disso tudo não é o advogado,
é a perícia, para dizer que o acesso foi verdadeiro
e que o login foi verdadeiro e que, portanto,
o sistema está perfeito. Em alguns casos, a perícia
mostrou que havia cavalo de tróia na máquina do
usuário.
Carvalho
— Às
vezes, o antivírus do cliente é pirata. [risos]
Opice
Blum —
Agora vem a fraude interna.
É evidente que a responsabilidade é do banco.
E aí vamos cair na questão das políticas, que
prefiro chamar de regulamentos ou de normas instituídas.
Todas as questões de segurança estão claras nos
regulamentos. E o sujeito nem precisa assinar
um termo dizendo que concorda com tudo; aliás,
se a empresa fizer isso, a coisa complica. O sujeito
só precisa ter ciência do regulamento, de que
o e-mail é da empresa e pode ser vigiado. Por
exemplo, ninguém pode renunciar ao direito de
privacidade e de intimidade; mesmo que o funcionário
renuncie ao direito, pode processar a empresa,
é um direito previsto na Constituição. Mas a empresa
tem o direito de monitorar e-mails, tem o direito
de pedir ciência de regulamentos, pois o que o
funcionário faz com os recursos da empresa gera
co-responsabilidade.
IH
— E se ele se recusar a dar ciência e depois alegar
que não recebeu o regulamento?
Opice
Blum —
Faço uma ata, dizendo que
entreguei, duas testemunhas assinam, tem força
de lei e ponto final. Não precisa de assinatura
de próprio punho e até o aceite eletrônico é válido.
Além disso, quando acontece alguma coisa, eu acho
melhor a empresa abrir inquérito, até com divulgação
na mídia, procurar o cracker, processar o funcionário,
etc. Isso acaba revertendo para o lado moral,
acaba reduzindo o número de ataques; o cracker
vai preferir atacar outro, que não faz nada.
IH
— Se uma pessoa rouba nome e senha, com um desses
spyware, vai ao banco e faz saques, o banco não
deveria saber que não é o cliente, pelo padrão
de comportamento? Se o comportamento se altera
muito, o banco não deveria tomar cuidados?
Opice
Blum —
Interessante a pergunta.
O sujeito todo dia faz o acesso ao banco usando
o mesmo endereço IP. Um dia, de repente, ele faz
o acesso usando um IP da Coréia; além disso, faz
várias transferências fora do perfil. Isso pode
gerar responsabilidade do banco? Do meu ponto
de vista, isso é uma questão contratual. O meu
serviço inclui identificação de perfil ou não
inclui? Se eu estivesse do lado do cliente, iria
sustentar a tese de que existe essa responsabilidade.
Eu acho que não é o caso de responsabilizar o
banco, porque o serviço bancário não inclui a
identificação de perfil. É diferente com o cartão
de crédito, cuja propriedade é do banco emissor,
não do cliente, e que pode ser facilmente copiado.
Agora, nome e senha, para o login, são responsabilidade
do cliente, não do banco. Mas certamente isso
pode vir a gerar responsabilidade.
IH
— De modo geral, vocês estão satisfeitos com as
soluções de tecnologia disponíveis no mercado?
Até que ponto é possível integrar soluções novas
de segurança ao legado da empresa?
Nobre
— Os spams passaram a
ser veículo de transporte de código escondido,
que acabam se alojando no computador da pessoa,
às vezes a pessoa não tem a percepção do perigo,
por mais que você diga não faça isso, não faça
aquilo. Por isso, como complemento à conscientização,
estamos pesquisando novos servidores de anti-spam
e de antivírus, separados do servidor de e-mail.
Numa comunidade grande, também precisamos de um
mecanismo para atualizar o sistema operacional.
Também estamos estudando a possibilidade de ter
um firewall pessoal em cada máquina, que limite
a capacidade de transmissão de um spyware, por
exemplo. No caso do antivírus, uma coisa a considerar
é a marca, porque a gente dá um voto de confiança
fenomenal ao fornecedor.
Cilurzo
— Acho
que a maioria das tecnologias, mas não todas,
são muito reativas. Por exemplo, antivírus: a
vacina só sai depois do vírus, às vezes dias depois.
E por isso a gente quer que o usuário se diplome
no uso da Internet, até conhecer configuração
de firewall. É a mesma coisa que querer que as
pessoas entendam de mecânica para dirigir um carro.
Acho que a tecnologia de segurança tem que mudar,
ficar mais fácil e mais ativa.
Pereira
— Na
BM&F, a gente aprendeu que só tecnologia não resolve
muita coisa. Normalmente, as soluções são muito
díspares, cada uma trata de um assunto de modo
pouco integrado. A não ser que você compre uma
única família de produtos de segurança; mas ninguém
é especialista em tudo. Precisamos consolidar
o que já temos, porque temos comprado tecnologia
nos últimos anos; agora é consolidar tudo o que
já temos.
Cilurzo
— Na
Bovespa, temos a mesma situação. No passado, quando
tínhamos um problema, íamos para a tecnologia.
Agora, pensamos primeiro em integração. Temos
conseguido uma boa integração em alguns segmentos,
mas ainda temos muito o que consolidar. Mas falta
inteligência na tecnologia de segurança, ainda
depende muito do operador, e isso é um risco alto.
Esse é o maior desafio: fazer com que as coisas
aconteçam de forma automatizada.
Carvalho
— Tem
uma coisa importante, que não podemos esquecer:
as grandes vulnerabilidades estão dentro da instituição,
às vezes até por falhas involuntárias. É preciso
um sistema com tudo o que cada um pode fazer,
até onde pode ir. Se o orçamento não permite,
faça alguma coisa caseira. Acho que a gente sempre
consegue fazer um ajuste interessante, se usar
a criatividade. PALHARES — Mas também acontece
que a turma fica olhando muito para dentro. No
Unibanco, a gente olha o que está acontecendo
no mercado, para criar contramedidas antes de
ser atingido por ataques. Eu já consigo economizar
muito na minha rede interna, porque consigo bloquear
n coisas antes mesmo de chegar nos firewalls.
Assim, você consegue até retorno por melhor utilização
dos recursos.
Palhares
— Mas
também acontece que a turma fica olhando muito
para dentro. No Unibanco, a gente olha o que está
acontecendo no mercado, para criar contramedidas
antes de ser atingido por ataques. Eu já consigo
economizar muito na minha rede interna, porque
consigo bloquear n coisas antes mesmo de chegar
nos firewalls. Assim, você consegue até retorno
por melhor utilização dos recursos.
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