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IH
Esta é uma mesa bem multidisciplinar,
com empresas de telefonia celular, um consultor,
um advogado e profissionais de TI de bancos. Vamos
começar por uma operadora, a Claro.
Moisés LACHMAN
Na
minha visão, mobile banking é o
nome de vários tipos diferentes de serviços.
Um deles é um alerta de segurança:
você faz uma transação, com
cartão de crédito, por exemplo,
e recebe um alerta SMS (serviço de mensagens
curtas de texto), para saber como seu cartão
está sendo usado. Outro é o acesso
às páginas web dos bancos na Internet;
dá para fazer isso com diversos aparelhos.
Mas o grande desafio mesmo é a disseminação
das transações, usando o telefone
celular, ou como carteira eletrônica, ou
como acesso a uma transação remota.
Acho que transformar o telefone numa espécie
de cartão de crédito é o
desafio de todas as empresas. O que falta mesmo
para avançar nessa área é
uma coordenação forte de todos os
interessados: comércio, bancos, operadoras,
fornecedores de aparelhos. A tecnologia existe
e não vejo, talvez erradamente, problemas
que não possam ser contornados. O desafio
é coordenar tantos atores e criar um serviço
inteligível para o cliente.
André SONNENBURG
O Banco Santos, em 2002,
distribuiu cerca de 200 PDAs para gerentes de
conta pessoa jurídica nas principais cidades
do país. Por meio desse canal, os gerentes
podem acessar nossa plataforma de negócios.
Isso melhorou o processo transacional, melhorou
a consulta a cadastros de clientes. A partir de
meados deste ano, haverá mobile banking
também para pessoas físicas. Começam
todas as preocupações com usabilidade,
criação de interfaces adequadas
e completas, segurança. É necessário
fazer uma avaliação do retorno do
investimento, embora mobile banking seja encarado
mais como nice to have (bom de se ter). Investimos,
por exemplo R$ 500 mil na implementação
desses 200 PDAs; ainda não medimos o ROI,
mas conseguimos notar ganho razoável de
produtividade para os gerentes de contas.
Carlos Pinheiros PALHARES
O
problema do mobile banking é ter escala.
Precisamos manter ou elevar a qualidade do serviço
para acordar um nível de serviço
com o cliente do banco, mas, na hora de contar
com os serviços hoje existentes, não
tem aquela garantia toda. Outro aspecto é
o custo operacional. É legal o nice to
have, mas quanto o cliente vai pagar por isso
e o banco vai ganhar com isso? Esse é o
maior impeditivo para ampliar esse serviço,
o gargalo está em garantir o retorno. Segurança
é fundamental, segurança mesmo,
porque o roubo de celulares está um absurdo.
A padronização da segurança
ainda não existe, em lugar nenhum, aí
ficamos naquela: será que vale a pena a
gente solucionar isso?
José ISERN
A primeira experiência
de mobile banking do Real foi a frustrante experiência
do WAP (protocolo de acesso sem-fio à web,
para que usuários de celulares acessem
páginas especiais na Internet). Você
pagava uma nota preta pela sua posição
no menu do WAP banking da Telesp Celular. No desespero,
todos os bancos entraram nessa por causa do nice
to have, era o boom da Internet. WAP era muito
ruim, funcionava mal. Era mais fácil ligar
para o call center. Tinha que esperar o usuário
comprar um aparelho que tivesse WAP. Mas a troca
de aparelhos não foi tão rápida
quanto as operadoras esperavam que fosse. Acho
que todos os bancos ainda têm o WAP banking,
mas, pelo menos no Real, pouca gente acessa. A
segunda experiência, bem interessante, é
essa de usar o SMS como segurança. Está
funcionando bem, é um aplicativo simples.
Não acredito muito no celular como cartão
de crédito. A Internet móvel, sim,
vai mudar nosso jeito de trabalhar; em países
onde o custo do PDA ou do notebook é acessível,
a Internet móvel já é realidade.
Temos uma experiência interessante de PAB
móvel (PAB é posto de atendimento
bancário; nesse caso, uma miniagência
instalada num microônibus). Quando a gente
ganha uma conta corporativa e precisa colocar
um PAB rapidamente, recorre primeiro ao PAB móvel.
Está funcionando razoavelmente, porque
usamos GPRS, e GPRS é ruim e caro. Acredito
que isso vai melhorar, mas não com o GPRS,
vai melhorar com o Wi-Fi. Vamos usar a mesma tecnologia
do PAB móvel para o gerente móvel,
estamos analisando se usamos notebook ou PDA.
Michael MARTIN
Vou
falar da experiência da TIM Brasil e da
TIM, especialmente na Itália. Pela falta
de padrões, resolvemos tratar do assunto,
na Itália, sempre como um projeto um a
um, individual, pelo menos para começar.
Exemplo disso é a Clarent, do grupo Unicredit,
na Itália, em que o usuário da TIM
tem um aplicativo de mobile banking transacional
no TIM Chip (o TIM Chip é o nome escolhido
pela TIM para o SIM card, o cartão inteligente,
comum nos telefones GSM, que registra a identidade
do assinante). Ele transmite num canal de SMS.
Com o TIM Chip, o cliente pode mudar de aparelho
de um dia para outro; e o banco pode ter cartão
de crédito, cartão de débito,
cartão de milhagem, cartão de contagem
de minutos. São uns 25 milhões de
clientes que usam mobile banking. Hoje, são
oito ou nove bancos italianos, 150 instalações
de diferentes tipos, mobile banking, WAP, etc.
Sérgio BUENO
Usamos
o hand bank no BankBoston há muito tempo,
com Palm, PDA, etc. O cliente baixa informações
via web, conectado no computador dele, fica com
essas informações o dia inteiro,
faz uma série de movimentações
e, depois, sincroniza tudo de novo com o banco.
Foi muito bem, se não me engano 4% dos
clientes usam o hand bank, o investimento teve
retorno. Fizemos também o WAP banking,
concordo com vocês, para mim o WAP sempre
foi uma solução em busca de um problema.
O SMS é muito interessante. Funciona usar
o SMS como carteira ou como autenticação
de pagamentos. Eu acho fantástico. Mas
a interface não é boa é
impressionante como se perde. Hoje, estamos com
um piloto de mobile banking no BankBoston. A gestão
disso é um dos complicadores para nós,
de tecnologia. Tenho vários problemas para
equacionar: retorno do investimento, custo do
aparelho, custo do hardware e do software e comunicação.
Por mais que nosso cliente seja de um pessoal
privilegiado, são poucos os que têm
mobilidade na mão, que têm notebook,
que têm prática em lidar com mobile.
O custo da transação é altíssimo,
não justifica ser tão alto. Outra
coisa é a disponibilidade de rede. Encontro
uma série de buracos de sinal pelo Brasil.
Se estou em Piracicaba e vou buscar um cliente
em Águas de São Pedro, não
conseguiria passar nem um SMS. A gente está
fazendo nossas soluções todas em
Java, em J2ME, para garantir a portabilidade,
não ficar o problema do WAP, em que a cada
mudança de browser tinha que reconfigurar
tudo. Mesmo assim, não sei se justifica.
Então estamos desbravando sozinhos esse
mundão todo aí. Banco no Brasil
é muito conservador; quando você
fala que vai fazer sozinho, sem o apoio de ninguém,
é muito difícil passar pelos vice-presidentes.
O Martin falou de fazer mobile banking no chip.
É o melhor dos mundos mesmo, mas é
tão caro que não justifica. Seria
fantástico. Se roubam um telefone, a operadora
tem como mandar um sinal e queimar o chip na mão
do ladrão. Mas eu não posso pagar,
então estou fazendo sistemas com HTTPS,
com criptografia fim a fim.
IH
Quando você fala que está
caro, é quantas vezes mais caro, comparado
com soluções mais comuns?
BUENO
No mínimo, o dobro. Isso porque não
temos escala, não temos um número
de clientes mínimo. E até hoje não
existe um número aberto para nós:
olha, posso gravar o mobile banking no chip para
quem tiver cem clientes, ou mil clientes, ou 100
mil. E é verdade, não tem processos.
Ninguém diz: olha, o caminho é esse.
Explicar isso para um vice-presidente também
é difícil. Mas, mesmo assim, acho
que o futuro é mobile.
Roger SOLE
Sobre
o WAP, a bolha da Internet foi um período
especial da história, havia distorções
gravíssimas na economia, o WAP pegou essa
onda. É um produto que tem seu mercado,
tem evolução, vai chegar ao lugar
em que todo mundo achou que iria chegar. Só
que não três meses depois do lançamento,
que foi no ano 2000. Para nós, da Vivo,
o WAP não foi um fracasso. Três anos
e meio depois do lançamento, todos os meses,
1,2 milhão de usuários usam WAP
para algum tipo de transação ou
para obter informação. Ficam uns
minutos fazendo transações ou consultas
breves. Por quê? Os problemas iniciais ainda
não estão todos solucionados, as
telas ainda são pequenas, mas temos mais
ou menos 60% dos clientes capazes de acessar o
WAP. São umas 14 milhões de pessoas
com aparelho WAP nas mãos e, dentre elas,
100 mil pessoas usam o WAP banking por mês.
Tudo bem, não é o sucesso que se
esperava, mas é uma quantidade que começa
a ser significativa. Neste momento, os aparelhos
novos chegam a picos de 60 kilobits por segundo,
já é suficiente para informações
financeiras. E já vendemos aparelhos com
a evolução, o WAP 2.0, com mais
linhas de tela.
IH
E o SMS?
SOLE
O SMS, é um canal
importante, mas nós entendemos o SMS como
um canal de capilaridade, porque temos um alto
percentual de clientes capazes de receber informações
em SMS, mas SMS foi feito para coisas simples.
Para transações financeiras complicadas
temos o 1X RTT, WAP 2.0, Brew, temos produtos
mais complexos. Neste momento temos 35 mil clientes
que usam um laptop conectado à Internet
por uma plaquinha dessas PCMCIA. Desses 35 mil,
uns 90% usam o Internet banking. Para vocês
aparece no login como pessoas que entram pela
Internet, mas são usuários de mobile
banking. Outra tecnologia em que estamos investindo
é a Brew, temos 50 mil usuários
com Brew, temos 12 modelos de aparelhos disponíveis
com Brew. A tecnologia permite fazer o download
do aplicativo no aparelho, com interface rica,
só se conecta com a rede para transmitir
puramente os dados, não para transmitir
em interfaces. Dá para usar a criptografia
que o banco definir. Enfim, acho que tivemos nosso
aprendizado, mas encontramos o caminho das pedras.
IH
Renato, quais são as principais
questões, além da segurança,
à luz do direito eletrônico?
Renato Opice BLUM
Há
várias questões interessantes, mas
vou começar com duas falas, a do Bueno
e a do Palhares. O Palhares disse que não
há garantia de estabilidade e o Bueno que
não há processo-padrão. Vamos
fazer de conta que estamos num caso prático.
Eu tive um problema, pode ser um problema de desvio
de dinheiro, pode ser um problema de mau funcionamento,
pode ser um problema de falta de consciência
ou de conhecimento; seja qual for o problema,
o serviço não funcionou. Porque
o serviço não funcionou, eu perdi
um negócio, tive prejuízo. Resolvo
contratar um advogado e procurar os meus direitos.
O advogado vê que é relação
de consumo: Código do Consumidor, vamos
processar quem está fornecendo o serviço.
É a primeira questão que surge:
quem está fornecendo o serviço?
O cliente acaba com dois contratos, com o banco
e a operadora, pode ter confusão. Imagine
explicar isso, do jeito mais didático possível,
para um juiz com 10 mil processos para julgar
por mês, sem experiência com tecnologia.
Sempre lembrando que, nesses casos, vai haver
uma dificuldade de prova e, quando há dificuldade
de prova e há relação de
consumo, o juiz pode fazer uma coisinha chamada
inversão do ônus da prova: não
é o sujeito que está dizendo que
teve prejuízo que vai ter que provar, quem
vai ter que provar é quem está do
outro lado. A chance de inverter o ônus
da prova é muito grande. Nem entrei na
questão da segurança em si. No Código
Civil, que é mais fechado que o Código
do Consumidor, uma das causas de nulidade do negócio
é quando o sujeito é ignorante.
Cabe a mim explicar tudo ao meu cliente? Sim,
cabe. Por quê? Porque está escrito
nos artigos 29, 30 e 31 do Código do Consumidor,
preciso dar informações claras,
objetivas, etc. Em síntese, isso vai ser
tudo resolvido onde? Num contrato adequado entre
os parceiros e entre o seu cliente ou o seu consumidor.
Por favor, um contrato compreensível. E
se eu precisar de provas? Que provas eu vou ter?
Vou ter um registro de logs? Ou eu preciso de
provas do meu parceiro, mas ele não fornece
porque não está no contrato? No
Rio Grande do Sul, principalmente, os tribunais
não reconhecem a prova da forma como é
fornecida. Onde está o serviço de
log? No sistema do réu, que é interessado
no processo. Vai precisar de perícia.
Gilson RONDINELLI Filho
O
Brasil tem hoje 48 milhões de celulares,
este ano vamos para uns 60 milhões. Em
termos absolutos, crescemos no ano passado na
mesma dimensão dos Estados Unidos. Nesta
década, provavelmente seremos o quarto
país a romper a barreira dos 100 milhões
de celulares. O celular será um item natural
para todo cidadão, como uma caneta ou um
relógio. Acompanhando a evolução
tecnológica, a evolução da
terceira geração, vejo claramente
que a evolução vai propiciar soluções
para uma série de questões aqui
colocadas. No Brasil, as operadoras melhoram a
tecnologia e melhoram a velocidade das transações.
Na página da Febraban na Internet, vi que
em 2002 havia cerca de 67 milhões de contas-correntes;
nos próximos dez anos, espera-se dobrar
o número de contas-correntes. Acredito
que a maioria das pessoas com conta-corrente terá
também um celular. Hoje, existem muitos
que têm celular mas não têm
conta-corrente. Nesse quadro, é fundamental
que bancos, operadoras e fabricantes de aparelhos
convirjam; a visão de convergência
entre banking e mobile é clara. É
natural que a gente se atenha ao passado e ao
presente. Contudo, entrem no site do Parlamento
Europeu, da NTT DoCoMo, da Microsoft, da Vodafone,
da TIM, é tudo claramente móvel.
Outro dia eu vinha com minha mulher, estávamos
vindo de carro da praia, ela fazia uma operação
bancária e ficou brava quando, num determinado
momento, a rede não permitia. Abstraindo
um pouco o problema de cobertura, o importante
é ver uma pessoa, que antes tinha dificuldade,
hoje operandomobile banking.
IH
Os bancos se queixam de que estão
desassistidos pelas operadoras. Por que isso acontece?
LACHMAN
Na realidade, não
há padrões mais abrangentes, cada
um tem o seu, a operadora, os bancos, os vendedores
de aparelhos. O cliente tem sempre razão,
mas em coisas simples, como venda de cartões
de crédito, cada banco tem seu esquema
de conexão, os seus parceiros, certificação,
etc. E vice-versa, cada operadora tem o seu padrão.
Ninguém consegue ter muito claro o modelo.
Por isso há conservadorismo.
MARTIN
Visitei vários
bancos para falar de mobile banking, cada um me
pediu uma coisa diferente. Não posso fazer
um sistema único para todo mundo, se o
mundo não se coloca em acordo sobre os
padrões.
PALHARES
Acho que há
uma diferença de maturidade, as operadoras
móveis ainda estão tentando se assentar
no Brasil, ampliar a rede. Só depois elas
conseguem partir para parcerias. E será
que os bancos estão também no momento
de massificar o mobile banking? Outra questão
é: se eu não tiver esse mobile banking,
será que depois não vou ficar de
fora, ficar para trás? É um ponto
de equilíbrio para buscar.
IH
Vocês têm fórum para
discutir isso hoje?
PALHARES
Olha,
se for falar que a Febraban é fórum,
não é. Sobre segurança, a
gente ainda troca umas figurinhas boas. Mas para
mobile não, porque é estratégico
para o banco. Acho que a mesma coisa acontece
com as operadoras.
IH
Temos aqui um representante da Febraban,
que pode aproveitar a deixa.
Carlos Eduardo Corrêa
da FONSECA
A única observação
é que a Febraban é sim o fórum
de debate. Agora, a Febraban existe e funciona
em função de os associados participarem
ou não. O exemplo maior, caso recente,
foi o Sistema de Pagamentos Brasileiro; sem a
Febraban, não teria saído.
SOLE
Vejo aqui conservadorismo
por parte dos bancos, é natural. Mas há
o exemplo da Mobipay, na Espanha. A Mobipay é
independente dos operadores e dos bancos, não
representa ninguém. É tão
simples como você chegar numa loja, dar
o seu número de celular, a loja inicia
uma transação com a empresa de cartão
de crédito, vem uma mensagem pelo celular:
tal loja quer te cobrar tanto do teu cartão
de crédito, está OK? OK, acabou.
Na Espanha o serviço funciona, estão
todos felizes, bancos, cartões de crédito,
operadoras e clientes.
FONSECA
Não podemos caminhar
para contratos bilaterais bancooperadora,
porque o sucesso será efêmero, precisa
generalizar isso, para o banco trabalhar com todas
as operadoras e a operadora com todos os bancos.
Precisamos de uma clearing house, como é
feito no SPB.
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