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O combate ao TCO no mundo das finanças
 
 
Alberto Matias,
da USP

“É preciso avaliar se a tecnologia é um elemento estratégico de sucesso ou não.”
   
 
Carlos Fonseca,
do Real ABN-Amro

“Nada é mais caro do que comprar barato uma coisa que a gente não precisa.”
   
 
Emílio Vieira,
da Porto Seguro

“A gente acaba praticamente não tendo limite de orçamento para os esforços de TI.”
   
 
Luiz Roberto Amato,
do Lloyds Bank

“O primeiro desafio é entender onde se deve medir o custo de tecnologia em cada instituição.”
   
 
Paulo Renato Franco,
da Liberty Seguros

“Você não discute terceirização, você discute a melhor maneira de fazer.”
   
 
Schie Chen Fang,
da Serasa

“A Serasa nasceu da premissa de um TCO, para reduzir o custo dos processos de autorização de crédito.”
   
A primeira condição para se obter uma efetiva redução do custo total de propriedade (TCO, de total cost of ownership) é a definição, por parte do CIO, do peso da tecnologia da informação como diferencial competitivo da empresa. Na área financeira, essa condição é especialmente decisiva e, por isso mesmo, muito mais difícil de ser atendida, em virtude dos grandes volumes de transações realizadas, da quantidade quase incontrolável de serviços oferecidos aos clientes e da criticidade de grande parte das operações. Entender qual é o alinhamento estratégico da empresa e escolher o que deve ser desenvolvido internamente e o que pode ser terceirizado é um dos segredos para a redução de custos em TI. E isso, nas empresas financeiras, nem sempre é fácil, como se vê pelo depoimento dos participantes desta mesa-redonda, coordenada pelo diretor editorial do Informática Hoje, Wilson Moherdaui, e pelo editor executivo, Marcio Simões. Participaram: Alberto Borges Matias, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, campus Ribeirão Preto; Carlos Eduardo Correa da Fonseca, diretor de tecnologia do ABN-Amro/Real; Emilio Vieira, diretor de tecnologia da Porto Seguro Seguros; Luiz Roberto Amato, diretor de informática do Lloyds Bank; Paulo Renato Fabiano Franco, diretor de TI da Liberty Paulista Seguros; Schie Chen Fang, gerente de informática da Serasa.
 
IH — O desafio de reduzir o TCO tem sido um tema recorrente no dia-a-dia de todo CIO. Especialmente para os profissionais de empresas da área financeira, cujo desempenho pode ser abalado num futuro próximo, essa preocupação deve estar ganhando mais relevância. Isso já é uma realidade?

MATIAS — Antes de entrar no aspecto específico da tecnologia, precisamos entender que no Brasil as instituições financeiras como um todo têm um custo relativo muito elevado para os padrões internacionais. O que eu chamo de custo relativo? É o custo estrutural, englobando a despesa administrativa e a despesa de pessoal. Se nós pegarmos esse valor e dividirmos pelos ativos operacionais, temos algo como 15% — enquanto o padrão internacional vai de 3% a 5%. Depois nós vamos discutir os custos de propriedade dentro de um conceito mais amplo, porque ou se gera receita ou se reduz custo. Uma hora esse processo terá que se alterar. Nós temos altas taxas de juros que tendem a se reduzir gradativamente. Então como é que nós vamos fazer o ajuste estrutural do sistema? Os bancos brasileiros não têm escala. Então, há estruturas — inclusive de tecnologia — equiparáveis a bancos internacionais, mas sem que se tenham os mesmos volumes. Portanto, temos aí um dilema para os próximos anos. E é nesse contexto que o TCO precisa ser discutido.

FONSECA — Para mim, há três pontos-chave nessa história e que não estão diretamente ligados ao custo em si. O primeiro ponto é o alinhamento estratégico daquilo que precisa ser feito. Nós temos que ter um foco muito grande para fazer aquilo que de fato é importante para a empresa. Algumas estatísticas confiáveis mostram que só 7% das funcionalidades de um sistema são efetivamente usadas. Isso é válido também para os sistemas aplicativos das empresas. Eu costumo dizer para o meu pessoal que nada é mais caro do que comprar barato uma coisa que a gente não precisa. O segundo ponto para reduzir custos é ter um ambiente estável. Os CIOs vivem sob a pressão de ter que implantar uma série de novidades, que em muitos casos são oferecidas pelos fornecedores e consultores diretamente os usuários do banco, as áreas de produto, áreas de marketing. E essa pressão acaba levando a uma certa dispersão do ambiente tecnológico. Está se tornando cada vez mais difícil administrar essa complexidade. Por isso, é fundamental definir uma arquitetura estável e muito bem orientada para obter uma redução de custos no decorrer do tempo. E o terceiro ponto é evitar a implementação indiscriminada de novidades, a tecnologia pela tecnologia. Nós temos que usar a tecnologia para resolver um problema real, não vamos tentar ser os primeiros na implantação de uma nova tecnologia quando a gente ainda não tem um problema definido para usá-la.

FRANCO — Concordo basicamente com esse conceito da essencialidade. Também sou um dos defensores de se fazer o que precisa ser feito. Acho que os setores são um pouco diferentes uns dos outros. Quem trabalha no setor bancário, tendo vivido principalmente o período do pós-Plano Cruzado — quando os bancos de repente tiveram que buscar outro patamar de produtividade —, e depois passa para o segmento de seguros, fica com a sensação de que as seguradoras estão atrasadas em várias questões. Mas eu diria que um dos principais desafios que a gente tem no mercado segurador para administrar custos é, em primeiro lugar, a falta da percepção da alta gerência e do acionista de que tecnologia no ramo segurador faz diferença. A decorrência natural disso é que você está sempre brigando por recursos para fazer algumas coisas que tragam vantagens competitivas. De uma forma geral, você acaba tendo que fazer muito mais pressionado pela necessidade e muitas vezes até de certa forma pouco estruturada. Isso resulta no famoso legado, com sistemas, módulos e funções redundantes. Mas muita coisa pode ser feita. No caso específico da Liberty, essas buscas de eficiência no nível do desktop, especialmente com a transcrição dos sistemas para uso de browser, têm levado claramente a uma redução unitária do custo do knowledge worker.

VIEIRA — A Porto Seguro tem uma visão de TI um pouco diferente de algumas organizações. Ela acredita que TI de fato é um fator de mudança no cenário de negócios. Tanto é verdade que a gente acaba praticamente não tendo limite de orçamento para os esforços de TI e eles são definidos basicamente na medida em que a gente consiga ver uma agregação de valor ao cliente. Então, a gente não quer simplesmente ficar pagando sinistros como uma seguradora tradicional, a gente quer agregar valor enquanto serviços. Mesmo porque a gente não tem a obrigação de ter o menor valor de prêmio, menor valor final ao cliente. Então os clientes estão acostumados eventualmente a pagar um valor até um pouco superior pelos nossos produtos, por conta de a gente ter uma série de agregados de serviços que são absolutamente lastreados em tecnologia da informação. Obviamente, a gente cuida muito do aspecto custo, porque ele é uma parte componente do produto. Mas esse não é o nosso principal foco. Então o que tem de diferente na Porto Seguro nesse aspecto? Ao invés de terceirizar uma grande quantidade de coisas, a gente normalmente internaliza as coisas que entende que são diferenciais. A gente investe numa equipe que faz integração de sistemas in house e que faz o corte e colagem de todas as tecnologias complexas que estão disponíveis, tentando resolver um problema do cliente. Isso muda todo o cenário de trabalho.

IH – Você está despertando uma inveja terrível nos seus colegas CIOs, porque realmente é muito raro encontrar uma empresa que tenha esse grau de liberdade de orçamento.

VIEIRA — Não quer dizer que a gente não terceirize coisas que a gente entende que não sejam o foco. Mas aquilo que a gente entende que é foco, que é o objetivo principal, a gente não abre mão, esse negócio é nosso e a gente quer controlar isso melhor do que qualquer um.

IH – A situação deve ser bem diferente, por exemplo, num banco de atacado como o Lloyds, não?


AMATO — O primeiro desafio que a gente tem com relação a TCO é entender exatamente onde se deve medir o custo de tecnologia em cada instituição e como fazer essa medição. A gente vê metodologias de medição de TCO que valem para o mundo inteiro e para qualquer tipo de empresa. Nem sempre essas metodologias se aplicam à sua empresa. Num banco de atacado, como o Lloyds, uma coisa que é muito cara para a gente diz respeito à arquitetura de integração de aplicações. É um foco muito grande de custo, da mesma forma que é uma área crítica para os negócios da empresa. Por isso, é preciso medir e definir uma arquitetura muito clara para qualquer tipo de aplicativo que vá ser implementado. Em geral, nesse tipo de instituição nós temos uma quantidade de aplicações muito grande, que processam volumes de transações pequenos, mas com volumes financeiros enormes. Essa é uma das áreas que merece atenção. Outra coisa importante é não ficar só no custo, não avaliar só o ROI (return on investment) de projetos, de estrutura, daquilo que já existe. É preciso sempre avaliar o valor daquilo para a empresa, para os negócios. Também é muito importante um projeto de infra-estrutura bem feito, para evitar que problemas nessa área tomem conta da agenda do pessoal de TI. A padronização deve estar no centro das atenções. Da mesma forma que o controle e a administração de computação de usuário final. Pelo fato de termos uma quantidade de transações pequena e volumes financeiros muito grandes, é comum o próprio usuário final cuidar de alguns processos, sem envolvimento da área de tecnologia, o que é um fator de risco e de geração de custo.

CHANG — A Serasa nasceu da premissa de um TCO. Na verdade, ela nasceu para reduzir o custo dos processos de autorização de crédito. Acho que existem quatro pilares sobre os quais se assenta o TCO: tecnologia, processos, pessoal e, talvez o mais importante, o marketing. O custo de manter a imagem de uma empresa hoje é muito alto.

MATIAS — A discussão do TCO sempre acaba se dividindo em duas. De um lado, é preciso avaliar se a tecnologia é um elemento estratégico de sucesso ou não. Por exemplo, no mercado segurador, sem dúvida é, porque você ainda tem um campo muito grande de trabalho em tecnologia para se diferenciar. Já na atividade bancária, a tecnologia está virando commodity, não se consegue mais um nível de diferenciação muito forte. Então, nessas situações, o alinhamento estratégico passa a ser de avaliação fundamental. Se a tecnologia pode ser terceirizada, é possível montar centrais de serviços. É o caso da Serasa. Eu passei 12 anos lá, fazendo uma parte da construção da Serasa. Como o Fang falou, ela nasceu de um TCO de crédito, quando se observou que o processo crédito em si deixou de ser um fator crítico de sucesso. Então, é possível fazer uma estrutura que desenvolva o mesmo processo básico para todas as instituições e a partir daí as instituições agregam o seu diferencial.

IH – Essa observação de que TI é commodity se aplica aos bancos de varejo, sem dúvida. Mas também vale para um banco de atacado?

MATIAS — Se você pegar a experiência internacional dos bancos de investimento, dos bancos que atuam no atacado, a resposta é positiva. Hoje, esse é um negócio estritamente baseado numa rede de relacionamento. Então você vê que a tecnologia mudou o foco: não é mais produto, é rede. A partir do momento em que você torna a tecnologia, principalmente de comunicação, muito similar, ela deixa de ser um diferencial. Então, também no negócio de investimento, está virando commodity.

FONSECA — Tem alguns aspectos interessantes que merecem comentários. Primeiro, o custo de processamento dos bancos no Brasil não é tão alto em relação ao cenário internacional, se a gente comparar os volumes de processamento. Pelo contrário, os bancos brasileiros têm os custos mais baixos do mundo em nível de volumes de transação. O que acontece é que os nossos volumes financeiros são pequenos e, como o Matias colocou, se a gente comparar com os ativos operacionais dos bancos, realmente os nossos custos são altos porque os volumes financeiros no Brasil são muito menores. A área de tecnologia nos bancos existe para processar transações, e uma medida importante é a dos volumes processados. É isso que custa e é o mesmo custo para processar aqui ou em qualquer país do mundo. O Brasil tem uma eficiência muito grande, tem sistemas de automação bancária altamente competitivos em níveis internacionais. Além disso, não acho que nos grandes bancos de varejo esteja acontecendo essa comoditização. A área de tecnologia, pelo contrário, é um fator-chave de diferenciação desses bancos. E uma prova disso é que os bancos brasileiros que mais investiram em tecnologia são hoje os líderes de mercado. Acho que hoje um banco consegue se diferenciar e consegue colocar sua marca muito mais pela qualidade do serviço que presta do que pelo produto financeiro que oferece. Então os caminhos para que a gente preste um serviço melhor dizem muito da qualidade das áreas de tecnologia. A capacidade de alavancar o atendimento aos clientes nos grandes bancos de varejo é um fator-chave de diferenciação. Mas a grande questão é o alinhamento estratégico da área de TI com o banco. Se a empresa isola a área de TI e a área de TI passa a enxergar cada uma das áreas do banco como seus clientes, aí acho que está na hora de terceirizar, porque não está trabalhando em conjunto com o banco.

MATIAS — O custo por transação é baixo no Brasil relativamente a outros países, mas o custo total é elevado. Uma coisa que em pesquisa a gente já vem observando é que no Brasil muitos processos geram mais transações do que no exterior. Por exemplo, no Brasil nós trabalhamos essencialmente a curto prazo, o grande volume das operações de crédito e de títulos é de curto prazo, no exterior não é. Então, se você imaginar um ciclo de operação de capital de giro com prazo normal de 60 a 90 dias, a cada 60 ou 90 dias eu estou renovando a operação. Ora, então durante o ano eu vou estar renovando isso umas quatro vezes. O que significa renovar cadastro, crédito, contrato. No exterior, eu faço operações de quatro anos com repactuação semestral. Ou seja, o mesmo processo gera no Brasil algo como quase 20 vezes mais procedimentos, mais transações. A Receita Federal muda uma forma de tributação, o impacto é daí a 60 dias. Se fosse no exterior, seria dali a dois anos, até porque isso não pode retomar sobre operações já efetivadas.

VIEIRA — Considerando que a tendência não só da tecnologia, mas de quase tudo no mundo, é se comoditizar, a gente está tentando, na Porto Seguro, oferecer não um produto meramente financeiro, mas algo que gere uma percepção de valor enquanto serviço. Eu falo brincando que a tecnologia não pode ser uma injeção no músculo, tem que ser uma injeção na veia. E aí, vale ter equipe interna, vale mandar gente para fora, vale qualquer coisa, desde que você consiga ter um produto que de fato seja um diferencial.

IH – Quando você faz um desses investimentos na veia, é claro que agrega valor para o seu cliente. Aí é só numa segunda etapa que você vai estudar o custo?

VIEIRA — É, a questão do custo passa a ter menor importância. Obviamente, você tem que buscar o menor custo possível, mas sempre procurando fugir da comoditização.

IH – Você pode dar um exemplo?

VIEIRA — Há seis anos, a gente fez em desenvolvimento interno todo o sistema de logística do nosso serviço de guincho, que utiliza computadores de bordo com GPS e um sistema central de despacho dos caminhões. Ninguém põe a mão naquilo. Tivemos que desenvolver protocolo, eletrônica embarcada, fizemos um laboratório de eletrônica. Com isso, claramente conseguimos um diferencial de qualidade no atendimento ao cliente. Esse foi o principal ganho, embora a gente também tenha reduzido o custo, porque o processo anterior era ineficiente e muito mais caro. É óbvio que chega um momento em que você trata até esses diferenciais como commodity e terceiriza, não pode querer ficar reinventando a roda.

IH – Há um aspecto complicado quando se fala de TCO, que é o valor intangível da introdução de uma nova tecnologia na operação da empresa. Vocês têm se defrontado com essa questão?

FONSECA — Normalmente, a decisão de implementação de sistemas está baseada no custo-benefício, em verificar até que ponto esse projeto está ligado à estratégia da empresa como um todo. Se ele é imprescindível para implementar a estratégia, tem grande prioridade. Os profissionais de tecnologia têm que ter uma participação ativa e arriscar. Quem corre mais risco de perder a cabeça é quem nunca arrisca.

IH – Existe uma metodologia confiável para medir o valor intangível da introdução de novas tecnologias?


MATIAS — O conceito mais moderno de avaliação é o cálculo de valor. No fundo, o cálculo de valor é você observar o investimento que está sendo feito, que fluxo de caixa ele vai gerar no futuro.

IH – A outra questão é a da contraposição terceirização versus internalização. É sempre claro o que é estratégico e, portanto, deve ser internalizado, e o que não é estratégico e, portanto, pode ser terceirizado?

FONSECA — Essa é uma discussão eterna e é um processo que também varia no tempo. Vou dar um exemplo claro: a rede de telecomunicações do banco. Estrategicamente, foi importante que os bancos tivessem controle sobre suas redes de telecomunicações, principalmente de transmissão de dados. Num determinado momento, isso virou commodity, surgiram empresas com capacidade de fazer uma administração no mesmo nível em que os bancos faziam. Então houve a terceirização desses processos. Da mesma forma, o processamento de cartões de crédito é terceirizado, o processamento de crédito imobiliário é terceirizado. Tem vários nichos em que os sistemas não representam um diferencial estratégico e isso está terceirizado.

FRANCO — Concordo que a terceirização é um instrumento gerencial. Então, você deve usá-lo da maneira adequada. Para tudo aquilo que é inovador, que em dado momento vai ser um diferencial competitivo, você não discute terceirização, você discute a melhor maneira de fazer.

AMATO —
Acho que, além de definir o que é o core, é fundamental ter um fornecedor confiável para que você feche um negócio com ele e gere benefícios no longo prazo para ambas as partes. Se um tiver problema, já não valeu a pena.

IH – Sempre que se fala em redução de custo, surge a figura do vilão: os sistemas legados. Certamente é o pesadelo de boa parte de vocês. É um fator decisivo para a redução do TCO fazer algum tipo de intervenção ou de administração dos legados?


FONSECA —
Nas grandes instituições financeiras, os legados são sistemas que podem ter mais de 30 anos e muitas vezes foram desenvolvidos sem usar técnicas modernas de programação, de modelarização voltada a objetos ou a serviços. Por outro lado, são sistemas estáveis, que cresceram com a cultura da empresa e atendem grande parte das necessidades. Temos que trabalhar em cima de arquiteturas que venham a aproveitar tudo que eles oferecem de bom e tentando construir novos layers, com novas tecnologias, principalmente no que diz respeito à integração de dados. É um trabalho delicado, mas a gente tem que procurar transformar os sistemas legados em serviços, criar uma arquitetura onde cada sistema legado seja um provedor de um determinado serviço para um novo ambiente de processamento, para uma nova arquitetura de sistemas da empresa. Esse é o grande desafio.

CHANG — Em mainframe e Cobol não se mexe. Não tem como. Para as empresas que têm volumes como a Serasa, o mainframe é a solução: não tem outra plataforma hoje que suporte processar tantas transações. Hoje, a Serasa faz mais ou menos 2,5 milhões de consultas/dia, então tem que ser o mainframe. O que a gente está fazendo é modernizar as aplicações Cobol. E aí tem um dado curioso: mesmo nos Estados Unidos, está cada vez mais difícil encontrar bons profissionais especializados em Cobol.

FONSECA — Eles estão chamando todos os aposentados.

FRANCO — A boa notícia é que com as fusões e aquisições das empresas no mercado financeiro, diminuiu o número de legados. Quando uma empresa adquire outra e passa a ter dois legados para tomar conta, a tendência é rapidamente engolir um deles.

VIEIRA — Toda vez que é preciso mexer no legado, a gente aproveita para revitalizá-lo e parametrizá-lo. Coisas que a gente sabe que são de modificação provável, contínua, a gente coloca em tabelas para não ter que ficar mexendo no código. Isso dá um pouco de instabilidade, mas a gente acaba convivendo. A gente usa a fábrica de software interna.

IH – Tem como medir o peso da manutenção do legado no custo total de TI?


MATIAS — Tem. Depende de como você estiver estruturado. Mas os legados são como filhos: você os tem, não adianta reclamar. Tem que investir neles, na educação, no relacionamento, tem que se relacionar bem com eles, Agora, quando se olha a história do sistema bancário brasileiro vê-se que ele foi desenhado por produtos. Os planos contábeis eram também específicos, Codiz, Coban, Cobin, na parte de câmbio, o Cocam. Aí chega uma hora em que foram integrados os planos contábeis porque foram integradas as instituições. O grande problema do legado não é o legado em si, é para onde ele vai.

IH – O maior item de custo das instituições financeiras são as despesas administrativas e de pessoal?

MATIAS — Muitas instituições diminuíram a despesa de pessoal, fizeram terceirização. Então, contabilmente, a despesa de pessoal vira despesa administrativa. É importante não trabalhá-las isoladas. Na hora em que você agrupa e compara com o volume de operação, esse custo relativo é alto para o Brasil, porque o volume é baixo. Só para dar um exemplo, a maior instituição bancária brasileira é o Banco do Brasil, estamos falando aí em US$ 70 bilhões de ativos. US$ 70 bilhões de ativos para um banco americano é muito pouco (o Citibank tem um ativo superior a US$ 1 trilhão). Junto com isso tem o problema do curto prazo que gera o problema das transações. Então aqui você trabalha muito mais para ter o mesmo resultado em termos de ativo. Então você tem que entender essa história para ir conseguindo direcionar a tecnologia, senão lá na frente você vai ficar com um elefante e não sabe o que fazer com ele. No Brasil, nós temos a maior taxa de juros do mundo e o menor volume de crédito sobre o PIB do mundo, de 23%. Na Alemanha, por exemplo, é de 164%, na Espanha 134%. Então essa mudança vai acontecendo, vai tendo ampliação de volume e redução do número relativo de transações por operação.

FONSECA —
Mas temos que lembrar que grandes volumes de transações estão associados a contas-correntes. O Brasil, em decorrência do período inflacionário, desenvolveu o hábito de usar muito cheque ou mesmo fazer transações via cartão. Então, temos proporcionalmente um volume grande de transações, com a movimentação de contas. Isso é custo de processamento.

FRANCO —
Sem contar que no sistema bancário brasileiro você tem todo o sistema de coletoria de impostos de todos os órgãos públicos, municipais, estaduais e federais, coisa que não em outros países.

MATIAS —
Isso gera mesmo um custo adicional de atendimento.
 
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