Os bancos atendem
na agência, no caixa eletrônico, no
totem, no shopping, no celular, na Internet, no
fax, no telefone. Nesta mesa-redonda, organizada
pelo Informática Hoje com o apoio da Federação
Brasileira de Bancos (Febraban), executivos de TI
do setor financeiro e consultores ensinam: no fundo,
só há dois canais para prestar serviços
ao cliente, os remotos e os internos. A profusão
de canais é só aparente. Hoje, a tecnologia
para tratar de todos os canais remotos é
a Internet. E a tecnologia para tratar os canais
internos pode ser qualquer uma.
E contam: os canais não se anulam, se reforçam,
e depois os dois crescem. Na busca do melhor jeito
de administrar o contato com o cliente, os bancos
falam em arquitetura de três camadas, em web
services, em sistemas para a integração
de aplicativos, em cuidado na criação
de processos que permeiem a empresa, os funcionários.
E demonstram algo surpreendente: o melhor jeito
de avançar, quando o assunto é tecnologia,
é no fundo aproveitar ao máximo o
que já está instalado.
Participaram da mesa-redonda, coordenada pelo diretor
editorial do Informática Hoje, Wilson Moherdaui,
e pelo editor executivo, Márcio Simões:
André Luiz Alves, superintendente de tecnologia
do Banco Santos; André Moreno Martins, analista
da AT Kearney; Arnaldo Pereira Pinto, diretor de
sistemas de Internet do Banco Itaú; Carlos
Schiliro, executivo do BicBanco; George Radovan,
diretor associado do Gartner; Jorge Luiz Viegas
Ramalho, diretor de sistemas para processos de atendimento
eletrônico do Unibanco; José Isern,
diretor de infra-estrutura e redes do Real ABN-Amro;
José Roberto Fernandes Pitta, executivo do
Sudameris; José Waldir Carvalho, gerente
da divisão de segurança de informática
da Nossa Caixa; Marino Brugnolo, vice-presidente
de consultoria do Gartner; e Tácito Pereira
Nobre, diretor de novas tecnologias de telemática
da Serasa.
IH
Todos os meses surgem novas tecnologias.
Que impacto têm numa rede de atendimento
ao cliente com a complexidade da rede dos bancos?
PINTO
Eu sou do Banco Itaú, um banco de varejo
grande. Notamos que havia uma bolha, um modismo,
esse negócio de várias plataformas,
celular, banco via caixa de fósforo. Era
uma correria. O WAP (wireless application protocol,
protocolo feito para transações
de dados via celular) é exemplo de correria
que não serve para nada. E um patinho feio,
short messaging, que ninguém queria, agora
fornece algum tipo de serviço. Depois daquela
correria, a gente nota que não existem
tantas formas de conexão assim. Na verdade,
só duas: a remota, em que você usa
tudo o que desenvolve via Internet, e aquela dentro
de casa, em que você usa também as
redes internas. Então os serviços
de dentro de casa, como um caixa eletrônico
na agência, você faz com as redes
internas, e para o serviço fora de casa
você usa a Internet. O aparelho na outra
ponta é um detalhe, pode ser mainframe,
pode ser micro, pode ser celular. E, se correr
atrás de modismo, fica difícil até
de o próprio cliente entender. A única
coisa que a gente nota hoje de diferente é
que ontem nós estávamos atrás
dos clientes, dando qualquer tipo de estímulo
para ele usar esses canais, seja a própria
ATM, seja principalmente o que está na
Internet. Hoje é commodity, quer dizer,
o cliente obriga o banco a ter.
IH
Quando você fala que não precisa
mais ir atrás dos clientes, fala de todos
eles ou de uma parcela?
PINTO
Falo que o Internet banking, por exemplo, faz
parte da vida do cliente, ele incorporou na vida
dele. Se um banco não oferecer isso, é
capaz de a pessoa não abrir conta.
RAMALHO
A facilidade com que o cliente migra para a Internet
é muito maior. O cliente hoje sabe que
qualquer banco tem um call center, que ele vai
ter um número de telefone para ligar, vai
ter página na Internet para acessar. Obviamente,
o banco também tem interesse.
PITTA
A gente está falando de canal eletrônico,
mas ainda temos exclusão social e exclusão
digital. A gente é obrigado a ter todos
os canais, porque todos são commodities,
os digitais e os tradicionais. Isso é um
grande custo, especialmente para os bancos de
varejo. Não há muita dificuldade
de tecnologia, é o que está disponível
mundialmente. O problema é disponibilizar
tudo isso num país como o nosso. O ideal
seria transformar tudo num processo digital, vamos
chamar de web. Mas é difícil.
RAMALHO
Quando houve o surgimento de canais eletrônicos,
falava-se muito no fim das agências. E o
que se vê é que o número de
agências aumentou. Todos os meios de atendimento
estão aumentando.
PITTA
O nível de bancarização no
país era muito baixo. Está aumentando,
mas é ainda com agências. Você
começa a bancarizar regiões que
eram totalmente excluídas socialmente,
mas tem que usar tecnologia de dez anos atrás,
a agência. A realidade social do país
é essa.
PINTO
Todos esses canais, a agência, os ATMs (caixas
eletrônicos), o Internet banking, o banco
por telefone, todos eles são muito significativos,
e fecham o segmento do varejo. Agora, pessoa jurídica,
um nicho específico, eu trato quase como
algo artesanal, que tem que ser bom para ambas
as partes. E se a gente não fizer isso,
o Unibanco faz. (risos)
PITTA
O Arnaldo (Pinto) disse que não temos dificuldade,
as tecnologias estão disponíveis.
Eu vejo dificuldade é nos sistemas essenciais,
os core systems, que estão feitos para
processar em batch (processamento offline, feito
à noite). Isso sim é conversa de
CIO. As arquiteturas de sistemas não estão
adequadas a essas novas tecnologias, pelo menos
aquelas com que eu tenho de conviver. Não
é a de três camadas: dados, aplicativos
e a comunicação. E nem os aplicativos
estão em camadas. A gente tem que adequar
isso no dia-a-dia. A criação de
interface para esses vários canais sempre
vai parar no legado.
SCHILIRO
Hoje, o cliente é bem atendido. Ele está
acostumado a ter o padrão de atendimento
do Itaú e do Bradesco. Os bancos médios
e menores têm que prestar um bom serviço
também, senão fica complicado. O
SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro, um sistema
de compensação online entre os bancos
e o Banco Central) nos deu um aprendizado muito
grande em muitas coisas.
IH
Assim,
rapidamente, você destacaria o quê?
SCHILIRO
A certificação digital foi uma grande
evolução, na parte de segurança.
Hoje os bancos se falam, com as câmaras
de compensação, com o Banco Central,
com tudo, e não tem ninguém entrando
no meio não, nós estamos muito bem.
PITTA
Em tempo real.
SCHILIRO
Em tempo real. Então, partindo da experiência
do SPB, que eu achei uma grande evolução,
até obrigatória, para os bancos.
Quem é que ia ter HSM (sistema automático
de backup) em duplicidade? É uma maravilha.
O SPB nos obrigou a trabalhar de uma mesma forma
num mesmo esquema, num mesmo tipo de protocolo,
nos mesmos esquemas de segurança. Essa
unificação de legados é a
maior dificuldade que a gente tem. Pelo que a
gente está vendo por aí, até
com o SPB, a tendência está sendo
unificar dados, e não legados.
PITTA
Mas o conceito das três camadas é
o problema.
SCHILIRO
Conceito de três camadas, unificação
de dados fora da sua plataforma de processamento.
O custo seria impraticável se você
tentasse refazer todos os seus sistemas para Java,
para sei lá o quê, só para
poder disponibilizar tudo o que o cliente precisa.
Então, acho que juntar os dados e deixar
os legados soltos, como sempre foram, é
melhor. Conseguiríamos ter um ganho de
segurança e de produtividade repensando
isso. Hoje se fala muito de web services, é
interessante esse conceito. O nosso problema é
o seguinte: temos que cada vez prestar mais serviços
para os clientes, e não se pode falar em
seis meses para juntar os sistemas, esquece! Além
disso, somos bombardeados diariamente para reduzir
custos.
IH
Qual é a maior dificuldade e os
maiores desafios para ter uma boa retaguarda,
que o cliente não vê, ou para ter
os legados mais unificados?
NOBRE
Há 11 anos, a Serasa tinha 500 clientes,
que eram basicamente as instituições
financeiras. Agora tem quase 60 mil empresas como
clientes. Temos o desafio de dar soluções
personalizadas para cada empresa. Por isso, houve
uma diversificação muito grande
nas plataformas de atendimento começamos
com os telex, hoje temos a Internet. O serviço
também foi se enriquecendo. Isso trouxe
ao longo do tempo uma necessidade de mutação
muito intensa da parte do nosso núcleo;
o que ele faz é coletar informações
e depurá-las, depositá-las em grandes
bases de dados e criar uma instrumentação
que permita a extração de valor
da informação armazenada. Ao longo
do tempo, a gente foi padronizando, definindo
critérios básicos. Adotamos o DB2
há bastante tempo como forma de depositar.
E começamos a dar ênfase no reaproveitamento
do que temos. Começamos a usar tecnologias
de integração de aplicativos. Essas
tecnologias permitem encaixar processos com certa
facilidade, você consegue ativar processos
num lugar, trazer para outro, juntar e devolver.
Se é possível ter algo novo que
permite aproveitar o que se tem, é possível
evoluir mais.
IH
Esse algo novo tem nome?
NOBRE
Nós compramos um software chamado Mercator
Enterprise Broker. É um software de integração
da família dos EAI, Enterprise Application
Integration. Se esse tipo de tecnologia já
estivesse sendo aproveitado por todos, talvez
tivesse facilitado bastante o trabalho em torno
do SPB.
RAMALHO
Ferramentas e produtos não faltam no mercado.
Gera até dúvida, porque você
vê que várias soluções
te atendem. Então, o ponto é decidir.
Acho que o sistema de conta-corrente mais novo
dos grandes bancos deve ter pelo menos uns 20
anos e foi feito para batch. E mesmo assim os
bancos são online, estão no SPB,
quer dizer, tem ferramenta para fazer isso no
mercado. O grande desafio que os bancos têm
hoje é o de tornar eficiente o legado.
Quando você fala de canal, os bancos já
estão muito bem resolvidos, dá para
lançar um produto rapidamente na Internet,
no caixa eletrônico, no call center. Agora,
essa informação está pronta
no seu sistema legado? Tem um processo por trás
disso? O processo, como aquele serviço
vai fluir pela sua organização,
é muito mais importante que a própria
tecnologia. Uma brecha no processo pode gerar
mais insegurança do que uma brecha na tecnologia.
Então, para o desafio tecnológico
é menor, tem profissionais e empresas qualificadas.
O desafio está em quão rápido
eu consigo criar um processo e adaptar o meu legado,
sem reescrever nada no legado, porque o custo
e o risco são muito grandes.
PINTO
O que ele está falando é interessante:
o legado tem que ter a mesma velocidade da Internet.
PITTA
Seu raciocínio está perfeito. Mas
é um problema esse legado, porque a gente
não reescreve nada realmente.
RAMALHO
Acho que a questão é novo processo,
não é reescrever nada. Quais as
chances de um banco reescrever seu sistema de
conta-corrente ou de cobrança fora de um
IBM, Cobol, CICS, DB2 com arquivos VSAM? São
mínimas. Então a tecnologia vai
ser essa. Agora, a maneira como você lança
um produto novo, prepara sua rede de agências,
permeia sua organização para que
todos estejam preparados, amarra os processos
e o legado para que o serviço seja entregue
da mesma forma em todos os canais, esse é
o desafio.
IH
Qual é a opinião de um banco
médio, como o Banco Santos?
ALVES
Acho que um banco pequeno tem maior facilidade
de implementar um modelo parecido com o que o
Tácito (Nobre) citou. Dá para usar
arquitetura em três níveis, dá
para usar os web services. Banco grande tem o
problema de ter tudo atrelado à conta-corrente,
mas nos pequenos, às vezes, nem é
preciso conta-corrente para vender um produto.
Vemos que o canal de atendimento pode ser qualquer
um, mas o cliente quer mesmo é uma diversidade
de produtos que se ajustem à dinâmica
dele. O banco pequeno é mais rápido
para fazer isso, mas em compensação
não tem uma estrutura de canais tão
variada.
ISERN
Eu vou voltar a quais são os desafios dos
bancos hoje em dia. Todo mundo tem canal igual,
todo mundo tem ATM, todo mundo tem Internet, todo
mundo tem call center e todo mundo tem WAP. O
problema é manter esses serviços
de pé: o dilema de TI hoje em dia é
que TI está virando commodity, mas é
muito mais complexa que luz, água e telefone,
e o cliente é exigente, o serviço
não pode sair do ar um minuto, ele liga
e xinga. E há a pressão por custo
menor. O problema dos grandes bancos é
que a modernização do legado compete
muito com a demanda do dia-a-dia.
RAMALHO
E se você vai a qualquer agência,
vê milhares de pessoas pagando INSS, IPVA,
IPTU, que é serviço offline. O banco
pode ficar cada vez mais online, mas, quando você
bancariza a população brasileira,
cada vez entra mais gente que usa serviço
offline.
IH
E o que um banco público, a Nossa
Caixa, pensa de inclusão digital, inclusão
social?
CARVALHO
No exemplo da Caixa Econômica Federal, há
municípios que estão a 250 quilômetros
da primeira agência bancária. Em
São Paulo, a gente tem também municípios
a 50, 60 quilômetros. Uma orientação
do governador é de que todos os municípios
sejam atendidos. Então vamos ter uma outra
questão, que é como vai ser tratada
uma padaria, uma banca de revista, porque vão
fazer de tudo. Tanta segurança no ambiente
da agência, no ambiente da web, e agora
vem uma série de recursos na padaria.
PINTO
Mas esses canais vão reduzir o custo do
banco, é o que vai fazer um banco como
o Itaú, o Unibanco, o ABN, ter escala,
senão a gente não consegue ter escala.
Hoje, por exemplo, no Internet banking do Itaú
passam 1 milhão de clientes por dia. E
esse cliente é um cliente VIP. Não
imagino mais como não entregar cada vez
mais serviços nesses canais, sempre melhorar
o desempenho desses canais. Caixa eletrônico
é um tremendo desafio, o banco tem 18 mil
caixas eletrônicos, e é pouco: tem
fila no caixa eletrônico.
IH
Os consultores têm números
sobre o que está acontecendo com os canais
dos bancos?
MARTINS
Os canais eletrônicos têm crescido
de uma maneira mais rápida do que os canais
tradicionais. Como disseram aqui, a tecnologia
está disponível, mas o problema
é enfrentar a pressão por redução
de custo. Acho que a solução é
demonstrar que o investimento vai fazer o banco
ganhar, que vai ter retorno sobre o investimento.
IH
É fácil para vocês
demonstrar o retorno?
SCHILIRO
Você lança um produto, ele dá
um retorno muito bom, mas você gastou muito
com tecnologia. Na hora de avaliar a solução,
a tendência é sempre avaliar o custo
da tecnologia. Seria muito bom se a gente pudesse
listar o quanto a tecnologia proporciona de resultado
para o negócio. Mas vejo muita dificuldade
de mostrar, até porque as coisas não
são tão isoladas assim.
RAMALHO
A conta não é simples. Obviamente,
qualquer banco sabe o custo da transação
em cada canal, isso não é segredo.
O grande ponto de você investir em canais
é mover os serviços de um canal
para outro. Como é que você faz para
pegar 1 milhão de clientes que acessam
diariamente o Internet banking do Itaú
e atendê-los de outra forma, pelo call center,
por exemplo?
RADOVAN
Quando a gente fala em integração,
na verdade é integração de
dados. Legado é um monstro, é melhor
não mexer com ele, com certeza.
PINTO
Na verdade,
o legado precisa ser online porque não
tem back office. O banco é multicanal.
Se o cliente está no telefone, na Internet,
na agência, no WAP, ele vê a mesma
coisa, o mesmo saldo. E se ele vai fazer qualquer
tipo de processamento dentro de um canal desses,
o que a gente quer é matar a operação:
eu não vou tirar pedido para processar
à noite, que é muito caro, vou matar
a operação lá no legado e
tirar a fatura. Essa é a questão.
BRUGNOLO
O Gartner
vê a possibilidade de compartilhamento de
rede entre as instituições financeiras.
No mundo se fala disso. Gostaria de ouvir uma
opinião.
O único que vai falar aqui sou eu, certo?
(risos) É um processo estratégico.
Se você pensar em custo, realmente faz sentido.
Mas se você pensar em se diferenciar para
o cliente, não sei. O que eu vou ganhar
com isso nessa altura do campeonato, em que cai
vertiginosamente o preço da ATM?
É uma decisão estratégica.
Há 15 anos, o diferencial de qualquer grande
banco era essa rede de telecomunicações,
ou seja, eu abro agência onde possa ter
satélite e tenho capilaridade. Hoje, todos
os grandes bancos se livraram dessas redes de
comunicação, virou commodity. A
decisão de compartilhar o auto-atendimento
é estratégica. As máquinas
estão diminuindo, ficando mais baratas,
mas manter uma máquina em pé, abastecer,
monitorar, dá trabalho, dá dor-de-cabeça,
não é atividade-fim de nenhum banco.
Mas é uma decisão que só
os grandes bancos podem tomar.
NOBRE
Acho que enquanto for percebido como um diferencial
de valor, vai ser difícil abrir mão
disso. Tudo o que é muito importante do
ponto de vista de marketing é estudado
com cuidado muito grande.
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