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É
quase consenso no mercado brasileiro: bancos sabem
comprar tecnologia e mantê-la funcionando
como ninguém. Pois o leitor ficará
consolado ao saber: nas palavras de profissionais
de TI de bancos importantes, administrar software
bem é um desafio interminável
e é caro. Na área de TI, software
é o segundo maior item de custo num banco,
atrás apenas de telecomunicações;
seu preço tem aumentado nos últimos
anos, ao contrário de outros itens de custo
em TI; quase sempre, é composto por centenas
de aplicativos, utilitários e bancos de
dados distintos, cuja interligação
consome 80% do orçamento do banco com desenvolvimento
de sistemas. Nesta mesa-redonda, organizada pelo
Informática Hoje em parceria com a Febraban,
algumas idéias merecem destaque: os pacotes
de software vêm com uma arquitetura embutida,
o que impede as empresas de caminhar para uma
arquitetura homogênea; Linux é barato
(não é grátis), mas os software
profissionais que funcionam com Linux não
são; focar a discussão em sistemas
operacionais é um erro, pois eles representam
uma parte pequena do custo, quando comparados
com os aplicativos; e o principal, ao escolher
software, é escolher o fabricante que responde
pelo software.
Participaram da mesa-redonda, coordenada pelo
diretor editorial do Informática Hoje,
Wilson Moherdaui, e pelo editor executivo, Márcio
Simões: Carlos Eduardo Correa Fonseca,
diretor setorial de tecnologia e automação
bancária da Febraban e diretor de tecnologia
do banco ABN-Amro Real; Paolo Battaglia, superintendente
de suporte a mainframe do Unibanco; Cesar Teixeira
Mendes, diretor de tecnologia da informação
do Banco Real; Mauricio Ghetler, diretor de tecnologia
do Banco Santos; José Osmar dos Santos,
gerente geral de processamento de dados do Banco
Sudameris Brasil; Shie Chen Fang, líder
de groupware da Serasa; Marcelo Spaziani, executivo
para o setor de finanças da IBM Brasil;
e Peter Issar Alves, vice-presidente de marketing
e vendas da Giga Information Group do Brasil.
Fonseca
De tão importante,
o tema será analisado numa série
de palestras do Ciab 2003, chamada A Caminho de
2020. Há vários pontos a considerar:
o custo do software tem crescido e quando os fabricantes
oferecem soluções mais baratas,
caminham no sentido de tentar amarrar os clientes
na solução para cobrar depois; o
software on demand, um bonito discurso que na
prática ainda não deu em nada; cada
pacote tem sua arquitetura e quase nunca é
a arquitetura da instituição financeira;
juntar dois pacotes é dramático,
cada um tem suas tabelas de referência,
procedimentos contábeis; desenvolvimento
interno versus terceirização é
outro dilema, cada vez mais a gente lê sobre
grandes terceirizações na literatura;
e arquiteturas abertas versus proprietárias,
é outro grande dilema. Não vale
usar o Linux para arrombar a porta da Microsoft
e depois colocar um monte de penduricalhos proprietários
em volta, como a gente tem visto. Acho que a gente
deve colocar a bandeira do software realmente
aberto, esse é o ponto.
O software é um dos
maiores custos dos bancos. A busca de redução
desse custo é crítica, árdua
e difícil de conseguir. Muitas vezes você
define uma arquitetura, tenta casar o software
com a arquitetura, mas os custos dessa integração
acabam extrapolando o custo do serviço
como um todo. No ambiente distribuído,
é difícil criar e seguir uma arquitetura
porque tem sempre pacotes novos entrando na empresa,
por causa das fusões. Então, esses
são os dois pontos que mais incomodam os
bancos: o custo do software e a busca por uma
arquitetura única, que nós imaginamos
traria benefícios em termos de qualidade
e de custos.
Battaglia
Claramente o preço do software tem aumentado.
Há outras coisas: é muito comum
você receber versões de software
que não são compatíveis com
as versões anteriores, então você
tem que reescrever ou adaptar uma série
de coisas para atender a nova versão. O
custo dessa adaptação é muito
alto. Outra coisa é a disponibilidade.
Não pode haver interrupção
dos serviços bancários. Acho que
instalar um software que você mesmo desenvolve
dá mais tranqüilidade, porque os hackers
se concentram em procurar brechas nos software
que todo mundo usa.
Eu acho que qualquer plataforma de software é
viável, é só uma questão
de gastar um pouco mais ou um pouco menos. Acho
que a preocupação maior é
se o software vai ter futuro, se amanhã
nós vamos encontrar o fabricante novamente.
Hoje, a questão não é saber
se Java com Microsoft SQL Server funciona
pois se Cobol com VSAM funcionava, por que não?
Então, a questão é prever
o destino do mercado. Para mim, acho que, em três
ou quatro anos, vamos falar de uma briga apenas
entre Linux e Microsoft. Outro ponto é
que o que carrega o sistema operacional nas costas
não é o nosso gosto, são
os aplicativos que rodam nele. Se eu tenho um
aplicativo Cobol falando com um VSAM, e tudo funciona
bem, não vou mudar para Linux nem para
Microsoft, continuo no mainframe. Vale sempre
o aplicativo. A terceira questão é
o on demand para a área financeira, o Carlos
Eduardo (Correa Fonseca) comentou bem. Eu nunca
vi um sistema de conta-corrente on demand, um
sistema de cobrança on demand, um sistema
de pagamento on demand. Outro ponto é a
viabilidade do sistema de licenças
esses Linux, especialmente Red Hat e UnitedLinux,
não mostraram a viabilidade até
agora. Não tem nada viável a longo
prazo. E se o negócio acabar? Nós
fazemos sistemas para durar 20 anos, não
podemos pensar numa empresa que não se
viabiliza economicamente. E tem outra coisa: a
gente paga barato a licença do Linux, mas
aí que banco de dados vai colocar? Põe
um Oracle. Não resolve muito, a gente sai
da frigideira e cai no fogo. Ou seja, a gente
não consegue software aberto no que mais
nos dói, que são os software aplicativos
e os de gerenciamento de banco de dados. O sistema
operacional não é o que pesa no
meu orçamento.
Vivemos um paradoxo: somos bombardeados por novas
tecnologias, novos desafios, demanda por produtos,
mas, ao mesmo tempo, no nosso mercado temos que
ser conservadores. Temos a preocupação
de ser piloto de novas tecnologias, e não
cobaia de novas tecnologias. É isso no
caso do software aberto. A cada relatório
de custos da Microsoft, os financeiros me perguntam:
Conta aí, e esse negócio de
software gratuito? Aí você
tem que entrar no tema do custo total de propriedade:
o custo está no treinamento, no suporte,
nas migrações.
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Acho que o que se deve mensurar, para saber se
o software é caro ou barato,
é qual o valor agregado que esse software
que estou comprando vai trazer para a empresa.
Vai compensar? É uma decisão muito
difícil. E quanto ao Linux, a minha visão
é:
existem software gratuitos, mas empresas como
a nossa só compram software que estão
garantidos por uma empresa idônea.
A partir de 1994, a IBM adotou a estratégia
do software aberto, porque o grande desafio, como
vocês disseram, é a integração.
A IBM participa de mais de 50 consórcios
de definições de padrões
abertos, como Java e Linux. A estratégia
da companhia é desenvolver para o mercado,
e não o que a gente acha que é bom.
O SPB deu certo porque escolheram um padrão
de mensagens, mas vocês ficaram com a conversão
desses dados internamente, para se adequar ao
modelo escolhido pelo Banco Central. Vem
aí o SPB-2,
o valor por transação vai diminuir,
o volume de transações vai aumentar,
e alguns bancos já têm dificuldade
com os volumes por causa da plataforma que escolheram.
Como eu ganho escala? Esse é o problema.
Queremos que o cliente da IBM, se está
rodando em Intel e precisa crescer, passe para
uma máquina Linux, que pode ser IBM ou
não, ou que passe para o mainframe, pode
ser mainframe com Linux, pode ser iSeries com
Linux, pode ser OS/400 com Windows NT. A melhor
plataforma é a que for mais conveniente
para a empresa. Segundo dados de consultorias,
hoje as empresas gastam 80% do orçamento
de desenvolvimento para manter os sistemas e 20%
para criar novos aplicativos. Por quê? Por
causa da complexidade da integração.
Quanto maior o custo de manutenção
de um sistema complexo, maior a exposição
a uma falha, então é um risco. Como
a gente diminui a complexidade? Com padrões.
Quanto ao e-Business On Demand, a questão
é que as empresas não podem investir
para atender o pico da demanda, e ficar com a
infra-estrutura parada depois. Nenhuma empresa
sobrevive com esse custo. Então, é
disso que estamos falando, é transformar
a empresa em on demand, que paga pelo uso.
Não. Sobre o SPB: você fala de plataformas
abertas, mas logo em seguida fala do IBM MQSeries,
que hoje está dentro do WebSphere, mas
que é proprietário por que
não dá para pagar pelo uso? Você
falou também sobre as plataformas Intel
e em soluções mal feitas de SPB.
Não falei que eram mal feitas.
Mas são mesmo.
Falei que tem algum risco com a escalabilidade.
Em nenhum momento falei da qualidade da solução.
Exatamente nesse aspecto. Eu trabalho com plataforma
Intel. O que eu percebi do mercado é que
criam soluções de baixa responsabilidade
para a plataforma baixa. Mas o SPB é uma
solução de alta responsabilidade.
Eu gostaria de lembrar que os melhores resultados
que a IBM consegue no Transaction Processing Performance
Council, o TPC, consegue com plataforma Intel,
não com ambiente AIX. E trabalha com ambiente
multiprocessado Microsoft, engraçado que
não é com Linux. Então, quem
sabe fazer, e vocês sabem fazer, consegue
chegar a um nível de transações
muito elevado. Outra coisa é o Java. Vocês
se apóiam muito no Java, mas a empresa
responsável pelo Java, a que tem os direitos,
teve 60% de prejuízo em dólar no
ano passado. Deus ajude que ela não vá
à falência, mas o fato é que
o Java é dela, ela pode descontinuar, pode
vender os direitos, e amanhã ou depois
alguém pode processar a IBM por causa do
WebSphere, como a SCO está processando
a IBM por causa do Linux. Quem sabe ao certo?
E cadê as soluções de conta
corrente em J2EE? Eu gostaria de ser apresentado
a essas soluções, se possível
rodando em Linux.
Sobre as licenças, a gente tem outras políticas
para o ambiente distribuído. Essa é
uma decisão da companhia. Não quer
dizer que eu vou cobrar tudo pelo on demand. Mas
não há surpresas no modelo de cobrança
da IBM, temos políticas claras de cobrança,
seja ela qual for.
Mas há plano de abrir o código por
exemplo do MQSeries ou de mudar a forma líquida
de cobrança?
Não sei te dizer. Mas você falou
em TPC: a IBM não só não
tem nada contra a Intel, como investe muito na
plataforma. E somos a empresa que tem mais profissionais
certificados em Windows. Temos uma relação
profissional muito boa com a Microsoft. Quanto
ao Java, hoje tem muita gente especializada em
Java, os desenvolvedores têm investido muito
em Java e em Linux, pela flexibilidade. É
o que posso dizer: tudo o que os desenvolvedores
querem é uma solução que
rode em qualquer hardware ou software.
Tem mais desenvolvedor de Java e de Linux do que
habitantes na face da Terra. Mas, ao mesmo tempo,
nenhuma boa alma pode nos fazer um sistema financeiro.
Talvez não estejam batendo na minha porta,
alguém avise se viu um sistema financeiro
em Java. Para mim é como cabeça
de bacalhau. Em Cobol tem de montão, em
Visual Basic tem de montão, em Delphi tem.
Pior ou melhor, tem. Pode não ser o que
a gente gostaria, mas tem para vender.
É impressionante. Por incrível que
pareça, TI é complexo e a gente
não vê a possibilidade de que esse
grau de complexidade venha a diminuir, muito ao
contrário. Mas eu vejo entre meus clientes,
bancos inclusive, escolhas baseadas quase exclusivamente
no componente custo. Mas integração
é um fator-chave também. Só
que é difícil quantificar as outras
questões-chave numa linguagem de negócios,
então o foco acaba ficando no custo.
Quando a gente discute J2EE versus .NET, acho
que estamos discutindo a coisa errada. Tanto um
quanto outro não tratam da camada de negócio,
tratam só da apresentação.
A questão é o banco de dados. Quem
vai garantir, no futuro, que essas camadas de
apresentação terão compatibilidade
com o que está dentro do banco de dados,
com as regras de negócio lá dentro,
as stored procedures? Hoje não escrevemos
mais a lógica de negócio dentro
do programa, o programa só vai no banco
de dados e lê a stored procedure. Para mim,
a camada de apresentação fica cada
dia mais irrelevante, o problema fica nos bancos
de dados.
Mas e os web services?
Web services dá para usar entre empresas,
mas não internamente, para acessar os bancos
de dados, porque é ineficiente. Internamente
vamos usar JDBC, DCOM, alguma coisa assim. Mas,
quando eu chego no banco de dados, não
consigo portar Oracle para DB2, nem DB2 para SQL
Server. Então, eu tenho Java, mas continuo
preso no banco de dados. Quem vai me salvar?
Eu lhe dou uma recomendação importante:
não use em hipótese nenhuma stored
procedures... [risos]
Mas, veja bem, aí compromete o desempenho
gravemente.
Eu sei. Sem dúvida nenhuma, software é
uma das coisas que menos evoluiu nos últimos
anos, talvez tenha até retrocedido. É
inacreditável.
Agora tudo é incompatível mas você
não enxerga. Graças aos web services,
há uma camada que esconde a incompatibilidade.
O desespero com a colcha de retalhos que é
a tecnologia está chegando a tal ponto
que a alta administração das empresas
tende a fugir do problema.
Eu troquei todos os sistemas do meu banco ou quase
todos por conta de uniformizar os bancos de dados.
Só isso já me deu a paz necessária
para dar a informação para o meu
cliente. É só isso que eu queria.
Sinceramente, os fornecedores precisam se concentrar
em resolver os nossos problemas, e não
os problemas deles. Por favor, me dê uma
ferramenta para migrar stored procedures de um
banco de dados para outro. Isso nós não
temos, o que nos obriga a adotar um monte de soluções
no mercado que são meia-sola. E, na apresentação,
se a gente vai usar J2EE ou .NET, olha, é
a mesma coisa.
Meu banco é pequeno, então eu mais
compro do mercado do que faço. Tento me
basear no mercado; se tem no mercado, vou comprar
no mercado.
Pois alguém já inventou a roda.
E aí tem a questão do pacote, se
o fornecedor vai ser ágil o bastante para
te atender. Isso tem que ser levado em conta na
hora de comprar, ou você pode perder o time
to market.
Tem um grande
problema: antes, ninguém imaginava que
uma Enron, uma MCI Worldcom, pudesse cair. Antes,
a gente não desconfiava das empresas. Hoje
em dia, isso é uma preocupação
presente. Eu sempre me preocupo com o modelo de
negócios do fornecedor. Show me the money!
Eu tenho que imaginar como aquela empresa estará
ganhando dinheiro amanhã ou depois.
E não incorrer no erro de comprar software
pelas novidades mais atraentes, porque você
pode nem precisar delas e elas podem não
acontecer.
A Giga tem uma pesquisa: quase 65% daquilo que
os fabricantes dizem para os usuários de
TI entra por um ouvido e sai pelo outro. Hoje,
os fabricantes têm mais dificuldade de provar
por A mais B que a solução dele
é a melhor que tem no mercado. Então,
no frigir dos ovos, a melhor solução
é sempre aquela que realmente venha a atender
a necessidade do meu negócio.
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