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Brasil é um país pobre, mas não
precisava ser tão pobre — bastava
compartilhar soluções, estratégias,
modelos. Esse foi o tema central do Fórum
TI & Governo-SP: quando há transparência
na gestão pública, o governo arrecada
mais e gasta melhor. Transparência na gestão
pública significa, entre outras coisas,
aplicar informática e telecomunicações
para automatizar tarefas complexas, facilitar
a troca de informações, cruzar dados
para descobrir tendências, fiscalizar melhor.
Da mesma forma que uma boa gestão dá
resultados para a empresa privada, dá resultados
na administração pública
também — desde que, é claro,
os funcionários públicos tenham
real interesse em cooperar.
O pessoal que administra
as cidades brasileiras é criativo, acha
soluções adequadas para problemas
complexos, mas não compartilha tais soluções
com outras cidades. Se compartilhasse, o dinheiro
dos impostos daria para muito mais.
É ótimo que a cidade X invente um
jeito de automatizar bem a matrícula das
crianças na escola, é ótimo
que a cidade Y também invente, mas é
péssimo que as duas cidades façam
duas invenções independentes. Dois
times resolvendo o mesmo problema é desperdício
de recursos. Pior, cada time resolve seu problema
de um jeito, com tecnologias e padrões
distintos, e depois as duas soluções
não se interligam. “O ideal”,
diz Susélide Cristina Tenani, diretora-presidente
da Empro (a empresa de processamento de dados
de São José do Rio Preto), “é
que haja desenvolvimento coordenado.”
No entanto, não há desenvolvimento
coordenado. Não há regras superiores
de cooperação, que todas as cidades
possam ou devam seguir, nem feitas pelo governo
estadual, nem feitas pelo governo federal. E não
há dinheiro estadual ou federal para financiar
esse tipo de cooperação —
dinheiro é um bom indutor de comportamento.
“Os estados e municípios não
deve regulamentar o trânsito de idéias
de forma independente”, diz Bruno Vianna,
presidente da IMA, uma associação
de municípios com sede em Campinas. “A
participação do governo federal,
e o uso de recursos financeiros, é fundamental.”
E mesmo que houvesse regras superiores e dinheiro,
será que adiantaria? Maurício Gallo
Fausto, coordenador de um projeto de governança
municipal da Prodesp (a empresa de processamento
de dados do Estado de São Paulo), faz a
pergunta a si mesmo. “Os parceiros precisam
ter o interesse real em compartilhar. As parcerias
têm sido uma via de mão única:
uns trabalham e outros vão no vácuo
do trabalho alheio.”
Gestão e inteligência
Quando há cooperação, os
resultados são muito bons, as esperanças
aumentam.
Em Campinas, por exemplo, o pessoal responsável
pela educação municipal administra
as escolas de forma centralizada — usa um
sistema de informática com mapas digitais,
com sete módulos, que permite cuidar da
simples administração ao planejamento
da rede de escolas. São 194 escolas de
ensino infantil e fundamental, com 67 mil alunos.
Todo o processo de matrículas, por exemplo,
vai para o módulo com mapas digitais, e
as informações espaciais ajudam
depois o pessoal a distribuir melhor os alunos
por escola. “Isso também ajuda a
definir as melhores estratégias de investimento
por região”, explica Bruno Vianna,
presidente da IMA. Esse sistema foi empacotado,
e agora está sendo instalado pela prefeitura
de Matão. Se o pessoal de Matão
não vai reinventar o que está inventado,
ganha o contribuinte.
No Vale do Ribeira e no Vale do Paraíba
estão as cidades com os piores índices
de desenvolvimento humano do Estado de São
Paulo. Por isso duas instituições,
a Unesp e a Prodesp, criaram um sistema para ajudar
os administradores a treinar servidores, a acompanhar
e avaliar ações do poder público,
a coordenar ações de órgãos
distintos. O sistema começa a funcionar,
a título de teste, em dez cidades, uma
de tamanho médio (Francisco Morato, com
150 mil habitantes) e nove pequenas, com 5 mil
a 10 mil habitantes.
Esse sistema é composto de 13 módulos,
com banco de dados especial para iniciativas de
educação, de saúde, e de
assistência social, todos com mapas digitais.
Inclui também módulos para a administração
geral, finanças e serviços municipais,
módulo de acesso remoto para a atualização
de dados e módulo para a montagem de site
na Internet, com informações sobre
coisas como matrícula escolar, agenda de
médicos, alvarás e certidões.
“A partir desse piloto”, diz Maurício,
da Prodesp, “a idéia é padronizar
o programa e transformá-lo num projeto
de governo.” A Fundação Seade
vai avaliar os resultados e criar um sistema de
indicadores específicos para a gestão
municipal.
Para o representante da Unesp, o professor José
Luís Bizelli, quando se fala em governança,
é preciso pensar principalmente em governabilidade.
Usar a informática de forma inteligente
significa melhorar a capacidade de investir (pois
a cidade consegue arrecadar mais, ao combater
a sonegação) e melhorar o jeito
de aplicar o dinheiro público. Mas, diz
José Luís, para usar a informática
de forma inteligente é preciso em primeiro
lugar administrar de forma inteligente.
Sem vontade de errar
Uma parte importante da administração
pública é a fiscalização.
Um órgão fiscalizador é o
Tribunal de Contas do Estado de São Paulo,
e seu trabalho ficaria bem mais eficiente se a
prefeitura das cidades paulistas mandasse dados
e informações via Internet, assim
como seus fornecedores. É o que vai acontecer.
Deve começar este mês o projeto-piloto
do Audiesp, nome do sistema de auditoria eletrônica
do tribunal, a princípio com a participação
de 45 empresas privadas e oito órgãos
públicos, que representam, em valores,
70% da jurisdição do tribunal. Depois,
a iniciativa se estende para 3 mil órgãos
em 644 cidades do estado.
Segundo Fernando de Macedo Duarte, diretor do
departamento de TI do Tribunal de Contas, diz
que o tribunal só tem a ganhar com informações,
procedimentos e processos padronizados e armazenados
em bancos de dados. Com a computação,
ficará mais fácil aplicar as 100
regras de auditoria às informações
armazenadas; ficará mais fácil verificar
se a cidade está cumprindo leis e normas,
como a Lei de Responsabilidade Fiscal. Se não
estiver, será avisada rapidamente e corrigirá
o problema — nem sempre um prefeito descumpre
leis e normas de propósito. Se estiver,
recebe atestados logo, que valem bastante na hora
de conseguir empréstimos oficiais, por
exemplo, no BNDES.
O tribunal investiu R$ 500 mil em infra-estrutura
para o Audiesp, especialmente em servidores. Só
a especificação da primeira fase
do sistema custou ao tribunal R$ 1 milhão,
e foram feitas pela Prodesp, sob a coordenação
do tribunal. Nas demais fases, o objetivo é
criar sistemas para controlar atos de pessoal
(contratações e aposentadorias)
e licitações. Essa é a questão:
um sistema tão caro não deveria
ser feito, com o dinheiro público, mais
de uma vez.
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